Entrevista com Bruna Coletti
admin em 3 de Fevereiro de 2010 @ 20:20
O conto “Café da manhã no inferno”, de Bruna Coletti, foi o segundo colocado no Concurso da Ofício Editorial.
Fizemos uma breve entrevista com ela e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Bruna para que vocês possam entrar em contato com ela e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para a escritora.
- Nome | Bruna Luizi Coletti
- Biografia | Nasceu no interior do Paraná. Adepta da leitura desde muito cedo, começou a escrever poesia aos 10 anos de idade. Na adolescência, passou a dedicar seus escritos a contos de ficção, terror e fantasia.
Possui muitos contos escritos, porém nenhum publicado. Atualmente vive no litoral catarinense onde se dedica exclusivamente a escrever e melhorar suas histórias fantásticas. - Blog | http://becoletti.blogspot.com/
- E-mail | brunalc03@gmail.com
- Twitter | http://twitter.com/BrunaColetti
- Facebook/ Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=42545935
Conte a sua relação com a escrita
Bruna | Desde pequena meus pais sempre foram bons leitores e me incentivaram muito por esse caminho. Aos 10 anos comecei a escrever poesias no colégio, e percebi que gostava de escrever e ser apreciada por isso, porém deixei esse hobby de lado após alguns meses. Aos 17, impulsionada pelos livros que lia e pelas músicas de metal pesado, voltei ao papel e caneta com histórias fantásticas e sanguinárias que fluíam facilmente. Desde então, nunca mais consegui segurar essa torrente de palavras, apenas moldando e aperfeiçoando o estilo da escrita, mas não desviando do foco do terror e do fantástico.
A escrita tem relação com sua profissão?
Bruna | É o que eu espero! Passei alguns anos escuros tentando me adaptar aos números, quando cursei bacharel em química. Mas de nada adiantou eu tentar refrear meus impulsos, e agora em 2010 inicio o curso de letras-português, e espero passar o resto da minha vida entre letras e palavras.
Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Bruna | Sou uma criatura de hábitos noturnos. Escrevo e penso melhor entre a hora que o sol de põe até alguns minutos antes do nascer do sol. A frequência e local são independentes, desde que os solos de guitarra e as passagens de bateria possam ser os únicos sons ao meu redor. A música é a minha melhor companheira de aventuras literárias.
Quais são seus escritores favoritos?
Bruna | Stephen King sempre será meu maior ídolo e fonte de inspiração. A versatilidade dele me impressiona, e as descrições de personagens e ambientes é fantástica. Cada passagem de suas histórias posso ver em minha mente com todas as cores.
Machado de Assis, na fase realista. É impressionante como alguém pode analisar e transpassar no papel tão bem o caráter (e a falta do mesmo).
Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Bruna | Esse foi o primeiro conto que eu escrevi nessa linha de ficção/terror. Foi algo extremamente novo, e surgiu a partir da imagem da janela com a árvore seca. Essa tela se formou na minha mente, e aos poucos todo o quadro foi se pintando em torno disso, com o sangue, o canibalismo e a imagem translúcida e atormentada da órfã solitária. Só deu tempo de pensar “preciso escrever isso!”. Era no meio da tarde e eu trabalhava como operadora de caixa numa loja de confecção. Me apossei do Word 98 do computador do crediário e bati as duas folhas com uma fúria inimaginável. A história fluiu assim, do começo ao fim sem pausas. O título foi mudado inúmeras vezes, e até hoje não me contento com ele! Mas foi assim que ficou conhecida, e café da manhã no inferno foi o conto que abriu meus olhos pra esse novo hobby, que hoje é uma das minhas maiores fontes de prazer!
O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Bruna | É uma amálgama dessas duas coisas. Uma ideia ruim dificilmente pode valer a pena, mesmo muito bem trabalhada. E uma ideia boa perde o brilho quando não é bem elaborada.
Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Bruna | Antes de observar a estrutura da escrita, a primeira coisa que observo é o enredo. A história precisa prender, deixar aquele gostinho de “e agora?”. Os personagens devem ser marcantes, as frases precisam ter impacto. As ações devem correr naturalmente, e as coisas devem ser sentidas como uma bofetada na cara do leitor. Nada é mais pedante do que ler algumas linhas e já deduzir toda a história. A surpresa é o melhor tempero para um bom conto. Depois analiso a estrutura geral do texto.
De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Bruna | Não existe nada melhor do que um leitor critico e anônimo. As maiores melhorias que eu tive na minha forma de escrever foi ouvindo atentamente as análises de pessoas desconhecidas que leram os meus contos na internet. Porque amigos e parentes sempre vão ver seus pequenos deslizes literários com olhos condescendente, mas o desconhecido não terá medo de te aplaudir com eloquência ou vaiar furiosamente. E é aí que você percebe vícios de escrita ou furos que, quando corrigidos, deixam a leitura muito mais agradável.
Acho que é isso pessoal! Muito obrigada pela oportunidade maravilhosa de poder divulgar um pouquinho o meu trabalho! Bons pesadelos a todos, e espero continuar fazendo meus leitores dormirem de luz acesa por muito tempo!
Bruna Coletti.
Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!
“A escritora declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de sua autora”.

“Café da manhã no inferno”
Pseudônimo: Bruna Coletti
Talvez tivessem sido a solidão e o abandono ou vários anos de reclusão em um orfanato católico, sofrendo abusos diários de todas aquelas santidades. Ou as lembranças daquela infância perturbadora ou a total falta de infância. Mas descobrir a causa já não faz diferença, não muda a história, o fato é que ela havia enlouquecido.
Ninguém sabia seu nome, e duvidavam que ela mesmo soubesse. Chamavam de “a magra”, quando precisavam se referir àquela criança que ficava horas abraçada a um pedaço de pano sujo, olhando pela única janela da construção que dava a lugar nenhum, apenas a terra estéril dos fundos do orfanato, onde não se via nada além árvores mortas e madeira podre. Ela não falava, nem mesmo quando precisava ir ao banheiro ou quando sentia fome, e por isso a odiavam. Odiavam olhar aquela criatura demasiada branca e pequena de olhos fundos. Odiavam aquele silêncio, quando a batiam no rosto por demorar à mesa na hora do almoço. Odiavam ainda mais a falta de sentimento quando a tratavam como um aborto mal-feito, quando insinuavam que ela era filha de alguma prostituta que morreu de doença de Vênus. Mas o que odiavam realmente, mesmo nunca tendo admitido, era o pavor que ela causava. Não era apenas aflição, nem um medo qualquer, era o mais puro pavor. Ela exalava angústia, morte. Era o medo que eles mais odiavam.
Como todas as manhãs, ela acordou e se vestiu. Agarrada a seu pedaço de pano imundo, seguiu pelos corredores até o refeitório. Ela não andava pelos corredores como as outras crianças: ela deslizava leve e sem fazer o menor ruído, como o cadáver que se desfez de todo o peso que continha, mas continuava a vagar. Com seus olhos turvos e cinzentos, olhando para frente como se fosse atravessar as portas e paredes no caminho.
*
Tinha tomado metade da sua xícara de café e estava prestes a morder sua torrada, quando um grito agudo invadiu o refeitório, fazendo todas as cabeças se levantarem e olharem em volta, procurando a garganta de onde vinha aquela grito, quando a cozinheira Ana aparece por trás das portas da infecta cozinha. As cores haviam sumido de seu rosto e seus lábio estavam distorcidos em uma terrível mascara de horror. Parecia estar prestes a descarregar um turbilhão de palavras, mas quando sua boca se abriu, um jorro fétido de vômito se espalhou pelo chão de mármore. As crianças se afastaram da cena, com medo e com nojo do que viam. Depois de colorir o chão com restos de seu café da manha, Ana desmaiou. Foi amparada pelos inspetores que estavam tomando o desjejum, e pelos que entraram correndo no refeitório depois de ouvir seu grito horrendo. Todos se perguntavam o que teria causado aquela reação, estavam tão atônitos que só se lembraram da jovem ajudante de cozinha ao ouvirem seus soluços chorosos, entre uma exclamação e outra. Demoraram alguns minutos para entender suas palavras.
“ - Seus corpos… horrível…
pedaços no molho…
estavam no freezer,
ela os comeu… não teve intenção…”
Foi deixada no chão e continuou a balbuciar frases desconexas enquanto os inspetores entravam na cozinha. No fogão aceso, grandes panelas cozinhavam carne. Tripas, olhos emergiam e tornavam a afundar, tornando a cena um tanto desagradável. Seguiram cautelosos para o freezer aberto. Alguns dos que estavam na frente congelaram, incapazes de se mover. Alguns soltaram gritos vacilantes e voltaram correndo por onde haviam vindo. Eram corpos, ou parte deles. As cabeças de 3 crianças estavam enfileiradas em uma das prateleiras. Pálidas e com uma feição tão calma, como se estivessem dormindo em suas camas aconchegantes e não arrancadas de seus corpos, congeladas em um freezer industrial.
Alguns corpos estavam abertos, um enorme T desenhado em seus abdomens vazios. Quem fizera aquilo, quem os matara com um único corte na jugular, havia também extraído com precisão cirúrgica todos os órgãos internos das vítimas. E a pobre Ana, a cozinheira, preparando o delicioso almoço que seria servido às crianças algumas horas depois, os teria achado na geladeira menor, que ficava ao lado do freezer, e teria cozinhado todos. E temperou as vísceras das crianças, experimentou, salgou um pouco mais os miúdos de seus companheiros e tornou a experimentar. Quando foi ao freezer retirar outras carnes, não demorou nem um milésimo de segundo para gritar, e sentir a ânsia do canibalismo subindo por sua garganta. Quando Ana começou a se recuperar do desmaio, ainda estava no chão do refeitório. A notícia havia se espalhado e o mais perfeito caos reinava na sala, ecoando nos gritos de quem havia visto os corpos, no choro das crianças, em desespero, com a imagem de seus amigos mortos e congelados. Em todo o salão reinava o desespero. Então Ana fixou seus olhos lacrimosos em um banco, onde a única criança ridiculamente pálida continuava tomando seu café da manhã.
“A Magra”, pensou ela.
A menina continuava calmamente sentada em seu lugar habitual, de fronte a janela do pátio vazio, mastigando sua torrada, e Ana jurou ter visto um breve sorriso estampando naquele rosto morto, quando os olhos negros e vazios da menina se encontraram com os seus. Ana tentou conter o grito, mas foi incapaz: sentiu um frio escorregadio na espinha, como se uma criança travessa tivesse jogado gelatina dentro de suas roupas…
Nas mãos daquela frágil criança se encontrava o velho pano imundo, encharcado em um fluído marrom-avermelhado. Sangue. E seu riso histérico agora ecoava no refeitório. O riso incontido de uma criança ganhando presentes de natal. O riso de uma criança coberta de sangue.
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