Entrevista com Ana Cristina Melo

admin em 23 de Julho de 2010 @ 12:38

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  • Nome | Ana Cristina Melo
  • Biografia | Nasceu no Rio de Janeiro, em 1972. Pós-graduada em Análise de Sistemas, atua na área há mais de vinte anos, na qual tem quatro livros publicados.
    Premiada em vários concursos literários, entre eles o Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis (SESC/DF) em 2009, com publicação em algumas antologias vencedoras.
    Dedica-se à divulgação da literatura nacional. É editora do site Sobrecapa (de lançamentos literários) e mantém os blogs Canastra de Contos (de notícias literárias) e Ficção de Gaveta (de concursos literários).
    É membro da AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil).
  • Site | http://www.anacristinamelo.com.br/
  • Blog | |http://caixadedesejos.wordpress.com e http://canastradecontos.blogspot.com
  • Twitter | @anacristinamelo
  • E-mail | blog@anacristinamelo.com.br
  • Livros publicados |
    - Caixa de Desejos (Editora Usina de Letras. Rio de Janeiro, 2010). Juvenil
    - Participação na Antologia Revista Ficções 19 (Editora 7 Letras. Rio de Janeiro, 2010). Contos.
    - Participação na Antologia Humor Vermelho 2 (Editora Usina de Letras. Rio de Janeiro, 2010). Contos.


Caixa de desejos é seu primeiro livro para o público adolescente. Você também escreve contos e romances. Há momentos diferentes para textos de gêneros e de públicos diferentes? Há um gênero com o qual você se identifique mais?
Ana |
De certa forma, há momentos diferentes, sim. Considero que há uma Ana Cristina para cada gênero. De alguma forma, a que escreve textos infantis ou juvenis é mais solta, cheia de esperança, acredita e vive a vida em plenitude. Não consigo imaginar um escritor desesperançado, que não acredita no seu próximo nem na vida, escrevendo para crianças e jovens que estão começando seu percurso.
Já a Ana que escreve os contos ou os romances pode ter qualquer estado de espírito, pois essa precisa dar voz ao que me incomoda ou desagrada. Há momentos em que parece que um problema não tem saída, mesmo que esse problema não seja nosso. Nesse instante, a literatura é a grande saída, é o caminho do questionamento.
Quanto à preferência, não tenho. Sou apaixonada por todos esses gêneros e, se eu estiver vivendo o momento adequado para escrever em um deles, já me sinto realizada.


Escrever para adolescentes é diferente do que escrever para adultos?
Ana|
Sendo literatura, não há distinção. Tanto que em meu livro a linguagem e o enredo alcançaram tanto o jovem quanto o adulto. Contudo, acredito que é preciso escrever num formato mais atraente para o jovem, que leve a despertar o prazer pela leitura. Há textos que são aceitos pelo público adulto que não irão alcançar o coração da maioria do público juvenil.


No mercado editorial, há a tendência de se fragmentar o público leitor por faixa etária. Antes tínhamos crianças, adolescentes, jovens e adultos. Agora há crianças (bebês, pré-alfabetização, em alfabetização), pré-adolescentes, adolescentes, jovens leitores, jovens adultos, adultos. Quando você escreve, você escreve para um público específico?
Ana|
Mais ou menos. A minha classificação é mais simples: infantil, infantojuvenil, juvenil e adultos. Uso apenas essa divisão para dar o tratamento adequado à linguagem e aos temas. Se escrevo para o público infantil, me permito o uso de rimas, o que não farei em outros textos. No caso do juvenil, posso tratar de temas pertinentes a essa faixa, que não podem ser abordados para um texto infantil. Mas só depois que termino um livro, me preocupo em classificá-lo na divisão adotada pelo mercado editorial.


Na ficção, a maior quantidade de obras é a dirigida aos adolescentes e jovens, provavelmente pela chance de serem adotadas em escolas ou incluídas em compras do governo para as escolas e bibliotecas. Como você vê as obras atuais para os jovens? Percebe alguma tendência nos temas ou linguagem?
Ana|
Tratando-se de literatura nacional, não acho que exista uma tendência de temas ou linguagem, pelo contrário, há uma diversidade de escolhas que considero muito saudável.
Não tenho preconceitos com literatura. Acredito que um livro, se for bem escrito, é útil de múltiplas formas: atrai os leitores, cria vontade de ler, pois é a vontade que antecede o hábito, e melhora a memória visual da escrita. Contudo, não sou a favor de saturar um tema, como tenho visto com o caso de vampiros.
Mas acho extremamente salutar trazer a aventura e a fantasia para a narrativa. Essa é uma grande isca para fisgar os jovens leitores. É só observarmos o que a série Harry Potter fez com nossos jovens. Olhando meu filho dentro desse grupo, vi que do bruxinho (lido desde os sete anos) ele migrou para a clássica coleção Vaga-lume, série Olho no Lance, os livros de Sérgio Klein (que infelizmente nos deixou prematuramente), série Deltora, já chegou a Ana Maria Machado e está com Pedro Bandeira na fila. Daqui a pouco, alcançará Fernando Sabino e não tardará o momento certo para Machado de Assis, Clarice Lispector, Borges e tantos outros. Mas essa escalada precisa ser respeitada. E, se formos analisar a lista inicial, veremos aventura e fantasia enfeitando esse flerte.


Uma tendência nas obras para jovens leitores é ainda a adaptação dos clássicos. Opiniões se dividem sobre o papel das adaptações. O que você acha?
Ana|
Entendo o objetivo das adaptações de tornar mais “palatável” a leitura de alguns clássicos. Não sou contra, desde que a adaptação literária não crie uma nova obra. Há um enredo que precisa ser respeitado.
Para mim, pode ser até uma visão romântica, mas a melhor adaptação seria aquela que preservasse o enredo e parte da linguagem, para que o leitor tivesse a noção exata da obra original, mas se sentisse navegando por uma linguagem e narrativa confortáveis.


Normalmente, os escritores são multifunção, desempenhando muitas atividades e as conciliam com a escrita de livros. Você mantém o blog Sobrecapa para resenhas literárias, Canastra de contos como seu blog pessoal, e ficção de gaveta para divulgar concursos literários. Ler muito, escrever resenhas, pesquisar e atualizar notícias sobre concursos literários, como você consegue administrar o tempo?
Ana|
Receba minha gargalhada, principalmente pois vou acrescentar que trabalho oito horas em outra profissão e sou mãe de duas crianças de 6 e 12 anos.
É, sempre ouço essa pergunta. E acho que a resposta mais realista seja: otimizo ao máximo todo o tempo que tenho, mas sempre falta um bom pedaço para dar conta de todas as tarefas do jeito que gostaria. De tempos em tempos, acontece de alguma delas receber menos atenção.
Começo minha rotina às 5h e, antes de colocar as crianças na escola e sair para o trabalho, faço leitura de e-mails ou atualizo meus blogs. O caminho para o trabalho e a hora do almoço são reservados para escrever, revisar meus textos ou ler. Como só consigo escrever à mão, consigo dar forma às minhas ideias em qualquer lugar, basta sacar meu caderninho. À noite, me divido entre as crianças e alguma das atividades literárias. Nos finais de semana, quando quero dar prioridade às crianças e ao marido, saio de casa e vou passear. Na rua, não caio na tentação de ligar o computador. Mas ainda continuo escrevendo, só que em pensamento. (rs)


Bem, e sobre concursos literários? Você tem um critério para selecioná-los? Em nosso blog, por exemplo, somente indicamos aqueles isentos de taxa de inscrição.
Ana|
Normalmente também não divulgo concursos com taxa de inscrição, a não ser de locais notoriamente conhecidos e reconhecidos, como é o caso do OffFlip. Outro critério que adoto é que o edital precisa ser publicado na internet, em site ou blog próprio. Mas se eu percebo algum problema com um concurso, não volto a divulgá-lo.


Você participa de concursos literários ainda? Há algum do qual sempre participe?
Ana|
Sim, ainda participo, mas com muito menos frequência. Acredite, pela falta de tempo, às vezes perco o prazo de alguns.
Costumo me inscrever novamente naqueles em que já fui premiada. São concursos que tento me programar para mandar (nem sempre conseguindo): Concurso Literário do Servidor Público do Estado do RJ, Off Flip, Concurso de Contos Newton Sampaio, Concurso de Contos Paulo Leminski, Concurso de Contos Luiz Vilela e Prêmio SESC.


Sobre o Programa de Formação de Leitores do governo, como você vê a ação dos agentes de leitura? Como os escritores, e todos nós que adoramos ler, podemos adotar essa prática em nosso cotidiano?
Ana|
Outro dia eu escrevi sobre isso no meu blog. Acho que o gosto pela leitura se transmite por contágio (rs). Se você se empolga com um livro e depois fala dele, ou dá de presente, você plantou uma semente. Com as crianças, é preciso transformar a leitura em algo prazeroso. Nos adultos, é preciso despertar a curiosidade.
Então, acho que precisamos comentar sobre livros como comentamos sobre músicas, filmes. Comentar, incluir na lista de presentes, não só para dar como para receber.
E para quem está no meio literário de alguma forma, falar e dar mais espaço ao autor nacional. Há ótimos autores que estão produzindo há muitos anos e são completamente desconhecidos da grande massa.


Voltando ao livro novo, Caixa de Desejos, você planeja levá-lo às escolas, por meio de palestras? Como você vê essa relação do escritor de livros juvenis com a escola?
Ana|
Sim, já tenho algumas palestras agendadas para falar do livro e, principalmente, do amor à literatura. A palestra tem o título “Livro: um objeto de paixão”.
Acho que a presença do escritor em uma turma de jovens, sabendo ele ser cativante, joga por terra a ideia de que o livro e seu escritor são como caras de barba, sisudos, que falam coisas chatas (rs).
Em uma palestra que dei, em maio, para turmas de oitavo e nono anos, percebi que o aparente descaso de alguns se transformava em atenção quando eu contava quando começou minha história com a literatura.
Um escritor, quando escreve para jovens, tem que rejuvenescer o coração, para se aproximar deles.


Em seu blog, há a notícia de mais livros inéditos. Você já tem alguma editora em vista para eles?
Ana|
Além dos que estão lá, há outros que comecei depois e estou dando prioridade. Ainda não os ofertei ao mercado, mas alguns já estão em flerte com a Editora Usina de Letras (rs). O que é praticamente certo é a continuação de Caixa de Desejos, que sairá pela mesma editora.


Agradecemos a entrevista e desejamos a você muito sucesso.

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Receita para ser um escritor

admin em 30 de Maio de 2010 @ 22:03

Este texto é um e-mail de resposta que escrevemos a uma pessoa que nos procurou. Acreditamos ser útil não só a ela, mas a todos aqueles que têm o interesse de dar os primeiros passos no mundo da literatura, pois isso postamos no blogue. Boa leitura!

Provavelmente você já deve ter ouvido que não existe uma receita para se tornar um escritor. Isso pode ser parcialmente verdade. Todavia, há uma série de “ingredientes” que um escritor necessariamente tem de ter. Não que isso determinantemente o faça ser um escritor reconhecido, mas sem esses “ingredientes”, com toda certeza, ele não será um escritor. Então, prefiro apontar a você os ingredientes, se o prato ficará apetitoso ou vistoso já depende do modo como se cozinha.
A questão principal é você definir: por que eu quero ser escritor? Isso pode parecer inútil à primeira vista, mas é determinante. Pois se você ama a arte de escrever vai se pautar por alguns valores que são completamente diferentes daqueles que querem ficar ricos vendendo livros. Se seu caso for o último, digo que isso é para poucos e que geralmente não estão preocupados com nada além do seu próprio bolso (desculpe-me a franqueza). Caso você ame realmente a escrita e escrever, parta do pressuposto de que nem sempre você irá conseguir sobreviver somente disso.
Bom, partindo desses pontos básicos, vamos para “ingredientes” que todos os bons escritores devem ter.
Em primeiro lugar, seu gosto pela leitura deve ser tão grande, ou maior, que o gosto pela escrita. Quem quer ser escritor necessariamente tem de gostar de ler. Leia sempre. Os clássicos, os contemporâneos… gêneros diferentes. Invista grande parte de seu tempo de escritor em leitura.
Em segundo lugar, procure livros teóricos sobre a arte da escrita. Indico a você um ótimo: Segredos da ficção: uma guia da arte de escrever (Raimundo Carrero). É um excelente ponto de partida para entender melhor o processo da escrita e da construção do texto ficcional. Dentro desse mesmo item, caso você tenha possibilidade, indico a você alguma oficina literária. A dificuldade dessas oficinas é que elas têm um preço elevado e sempre solicitam que o aluno tenha um projeto literário definido. No blogue da Ofício nós enumeramos algumas, mas a indicação do blogue não atesta a qualidade das oficinas, ou seja, estão lá apenas porque são as que catalogamos.
Terceiro ponto, escreva, escreva, escreva, escreva, escreva e escreva… não pense que seu primeiro conto já é bom. Nem o segundo, nem o terceiro, nem o quarto… Escrever é uma técnica, então é necessário aperfeiçoar sempre. Um pintor pode ser um gênio das artes, mas precisa de técnica. Além da técnica, há também vocação. O escritor nasce como um bom leitor. Lendo muito ele descobre vários escritores, vários textos, vários estilos e técnicas. O estilo indicado para você não será aquele que apresenta mais sucesso de aceitação do público, mas sim aquele que lhe for sincero. O escritor tem de achar sua voz interior, seu estilo. Sua voz tem de ser sincera para ser artística.
Quarto, é hora de sair da redoma de vidro e aparecer. É muito importante ter contato com outros escritores. Leia o livro de outros e escreva a eles para dizer o que achou, apontando qualidades e problemas. Apesar de o ato de escrever ser solitário, a escrita é comunicação. Não vá mandando seu texto a milhares de contatos de escritores esperando uma apreciação do seu texto. Todos que trabalham nessa área vivem numa rotina não muito tranquila, dessa forma só envie o seu texto a algum escritor se realmente tiver já estabelecido algum contato com ele e ter certeza de que não está forçando nada.
Quinto passo, seus amigos e familiares já estão dizendo que seu texto é bom e que você tem talento para a coisa. Agora, chegou a hora de um profissional analisar seu texto. Isso é essencial. NUNCA ache que você já está tão bom assim, que é o próprio Machado de Assis do nosso tempo. Pois as editoras recebem pilhas de textos de pessoas que se acham os novos Machados, Gracilianos etc… Envie seu texto para uma leitura crítica. Nós oferecemos esse trabalho e há muitas outras pessoas que também fazem isso profissionalmente, mas saiba, para ser leitor crítico é preciso ter uma boa experiência na área literária e no ramo editorial.
Sexto passo, depois da leitura crítica, é necessário ter muita humildade, pois um profissional sempre apontará problemas a serem trabalhados. Não ignore esses apontamentos, são extremamente importantes. Pode até não concordar com eles, mas nunca deixe de procurar entendê-los. O passo seguinte é procurar um agente literário que se interesse pelo seu texto (eles geralmente têm dificuldade em dar muita atenção a autores novos). Outra possibilidade é fazer uma edição do autor, ou seja, você edita seu primeiro livro e imprime uma tiragem para divulgar seu trabalho. É extremamente importante que a qualidade gráfica, além da literária, seja ótima, para não se tornar uma propaganda negativa para seu texto.
Sétimo, dar as caras como escritor. Se envolver em eventos literários, ir a palestra de autores, participar de blogues literários, feiras literárias. E sempre estar com exemplares de seu livro para entregar a pessoas-chave (autores, editores etc.). Se já tem um blogue, desenvolva mais o seu trabalho nele. Crie um twitter, um facebook, orkut…
Não vão faltar profissionais que te alertem sobre quanto se é difícil ser escritor. Vão até mesmo sugerir que você tente outra profissão, talvez algo distante das ingratas ciências humanas. Mas, saiba, ser escritor quase não é uma escolha, é uma obsessão. Então, se for fazer, se comprometa com essa escolha.

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1º. Congresso Internacional do Livro Digital

admin em 5 de Maio de 2010 @ 08:31

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De 29 a 31 de março de 2010 aconteceu em São Paulo o primeiro Congresso Internacional do Livro Digital, organizado pela CBL e com apoio da Imprensa Oficial.

Nesse congresso, vieram especialistas internacionais e nacionais e o foco foi a área do comércio. Foram mostradas várias estatísticas e previsões, uma delas: a de que as vendas do livro digital e o do livro em papel, em 2015, iriam se equiparar.

Uma realidade é a de que o livro digital já é lido atualmente. O número de leitores ainda é pequeno, mas tende a crescer. Os aparelhos de leitura são muitos, e não são limitados aos e-readers (como Kindle e iPad), podem ser o aparelho celular (mania do Japão), micro, TV digital.

Quais, então, são as vantagens e desvantagens desse novo livro? Basicamente são comerciais. Vantagens: não usa papel, então “não agride” o meio ambiente (não vamos esquecer que os aparelhos leitores são gadgets e também serão lixo um dia); o livro será mais barato. Desvantagens: o leitor do livro digital acredita que o livro deva ser muito barato ou enviado a ele de graça; pesquisas revelam que os leitores do livro digital acreditam que o conteúdo que está na internet pode ser aproveitado de graça, então eles nem ao menos consideram que enviar o livro digital ao amigo por e-mail seja pirataria.

Muito se falou sobre editoras e livrarias e distribuidoras e software e hardware… Mas, e para o escritor? Quais são as vantagens?

Acreditamos que haja, sim, vantagens ao escritor iniciante. A rede propicia que o escritor faça sua divulgação de forma eficiente e que ele consiga ainda, por ele mesmo, vender seu livro.


DIVULGAÇÃO

O escritor é seu maior divulgador. Mesmo se seu livro for editado por uma grande casa editorial, ele não será alvo da publicidade da empresa. Quem divulga o livro – SEMPRE – é o escritor.

Bem, as redes sociais virtuais são o novo ponto de encontro. Em ordem de acesso, elas são: o Orkut, Facebook , Youtube, Blog (Brasil é o quarto país em acesso a blog) e twitter (São Paulo é o terceiro maior acesso a twitter no mundo). Sem esquecer das redes de encontro de leitores, como O livreiro, Skoop, Good reads e o Clube de Leitores de Ficção Científica, para citar só alguns.

O leitor do livro digital quer ver mais do que o texto, ele quer ver uma entrevista com o escritor em vídeo do youtube, ele quer ver o trailer do livro (booktrailer), ele quer acesso a histórias que circundam o universo da história publicada em forma de livro, ele quer mais detalhes e curiosidades.

O escritor, por exemplo, pode propiciar tudo isso ao administrar sua própria rede de contatos e colocar em seu blog especialmente criado para o livro todas as informações que ele achar que seus leitores gostariam de ver.


LIVRO DIGITAL

Hoje a segurança de se publicar um livro digital é zero. Desculpem-nos a sinceridade. Mas é zero mesmo. Salvar o livro em PDF e enviar chave de acesso é inocente. Salvar o livro em EPub é quase eficiente, apenas se o leitor não souber que há na internet, de graça, programas que transformar o EPub em Word, PDF, TXT etc.

Mas, e aí? Da mesma forma que a pirataria se faz ao se enviar um arquivo por e-mail, ela também é feita ao se xerocar todo um livro. A pirataria é uma realidade e o escritor e/ou a editora tem de considerar essa “falha” no comércio do livro.

Uma facilidade que a tecnologia propicia é para o próprio escritor, que pode tentar vender por ele mesmo seu livro. O escritor pode salvar o livro dele em um dos formatos citados e negociar a venda do arquivo diretamente com livrarias virtuais, como a Gato Sabido, Cultura, Saraiva, para citar algumas nacionais; e com as internacionais Apple Store, Barnes&Noble, Amazon. Se for o escritor quem negociar isso, ele terá mais lucro certamente. Ele não pagará gráfica, nem papel, nem o frete (esquece que é o escritor quem pagava o frete na edição caseira de impressão de um livro?). Ao vender o próprio livro, o escritor ganha mais do que 10% (que é o que geralmente as editoras pagam). A única desvantagem é que ele não conta com o “selo de qualidade” que a publicação em uma editora tradicional geralmente traz.


E OS APARELHOS?

Como dissemos, o livro digital pode ser lido em diferentes aparelhos: celular, TV digital e leitor de ebook. Os aparelhos de mais destaque são o Kindle, o iPad e o iPhone. Aconselhamos que busquem informação no blog de Ednei Procópio (http://ebookpress.wordpress.com/), ele coloca informações sobre o hardware, o software e sobre conteúdo (que aliás é como o pessoal está chamado o texto que o escritor escreve).

As pesquisas mostraram que para a leitura é mais usado: PC ou laptop (47%), iPhone (11%), iTouch (10%), Blackberry (9%).

Para mais informações, há também o http://www.idpf.org/ (International Digital Publishing Forum).


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Então, o que podemos concluir de tudo isso?

Sim, é um pouco assustador. Estamos em uma fase de transição, talvez como foi a do códice ao livro papel (como brinca o vídeo do “Helpdesk medieval” http://www.youtube.com/watch?v=4ZwJZNAU-hE). Agora nada é seguro, nenhum hardware é compatível, é uma tristeza para quem vende o livro (com a pirataria a um clique), e para quem compra o aparelho leitor (que pode se tornar obsoleto da noite para o dia).

Quem ganha com isso? Bem, apesar do perigo e da precariedade, é um negócio. Ganha quem vende e recebe o pagamento. Pode ser um, podem ser cem, podem ser mil.

O que aconselhamos? Continuem a publicar. Se a decisão for por uma editora comercial, insista na publicação tanto em papel quanto digital. Caso o escritor resolva apostar na autopublicação, atenção: não tenha pressa e trabalhe bem o texto (não deixe de enviá-lo a uma leitura crítica ou para a leitura-beta de amigos). Admitimos que nunca foi tão fácil ao próprio escritor se publicar. Ele tem as redes sociais como divulgação, ele tem o conhecimento para fechar seu livro em PDF ou EPub. Então, é simples, ele faz seu primeiro livro, o avalia com profissionais de leitura crítica, e o vende em seu blog, e o divulga em sua rede social.

Conhecemos um caso bem-sucedido: Eduardo Sophr, que vendeu sozinho seu livro A Batalha do Apocalipse, usando como estratégia a impressão tradicional, envio pelo correio, venda em blog, divulgação na internet. Agora ele abriu a editora dele.

A internet também permite que o livro seja transmídia, ou seja, seja lançado ao mesmo tempo em que se cria toda uma estrutura de vídeos, entrevistas, livro digital, livro em papel, blog do livro etc., como é o exemplo do livro Último Trem, de Marco Simas, publicado em uma editora tradicional.

Se você ainda tem dúvidas (e com razão), pode também vender seu livro On Demand, ou seja, só imprime o livro caso alguém o comprar. Não precisa mais ter mil livros armazenados na sua garagem. Basta acessar gráficas grandes como a Bandeirantes e a Prol para verificar que os preços são em conta e que a gráfica ainda dá uma força ao pagar seu frete.

Sabendo quanto custa cada serviço, o escritor tem mais elementos para negociar a publicação de seu livro em editoras sob demanda (aquelas que pedem para o autor pagar uma parte da produção ou levar uma parte de seu próprio livro em consignação).

Então: para o escritor, o melhor negócio é a autopublicação ou a publicação por editora? Depende. Depende de quanto tempo ele tem para investir em correr atrás de sua divulgação, de livrarias, de pedir acertos mensais nas livrarias, de controlar seu estoque. Caso perceber que não tem tanto tempo assim, escolha uma editora em que confie.


O CONTEÚDO

O escritor ainda é quem escreve. Parece óbvio. Mas é bom frisar. O escritor é ainda a parte mais importante de todo o processo. E, admiravelmente, é a menos comentada. Vocês, escritores, não subestimem sua importância, nunca superestimem editora alguma. Vocês são a parte criativa. Vocês são quem produz o chamado “conteúdo”. Devem buscar aperfeiçoar sempre seu texto, não ter pressa, conhecer o mercado, conhecer seus futuros leitores — nem que decida que quer a arte pela arte, que não escreve para público-alvo, tenha essa decisão bem pensada e pesada.

Como o livro digital está aí, você deve também buscar uma editora que o ofereça (ou você mesmo o oferecer), mas com qualidade: tanto na produção quanto na divulgação. A editora, por menor que seja, tem de ter uma estrutura mínima para a divulgação de seu livro. E você, tenha sempre em mente, irá, sim, investir um pouco de seu tempo nas redes sociais. E, por que não, também buscar leitores em sua cidade, nas bibliotecas, nas escolas, em saraus. E, vale a pena lembrar, investir em leitores é sempre um bom negócio para o bolso e para o espírito.

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sorteio de livro pelo boletim

admin em 2 de Maio de 2010 @ 22:56

Anunciamos que já sorteamos os dois livros da escritora Cida Sepulveda entre os assinantes de nosso boletim. Agradecemos a gentileza da escritora, que fez questão de autografar os exemplares.

Coração Marginal vai ser enviado a Marcos, de Santos, @abussafi. Parabéns, Marcos!

Fronteiras foi sorteado e quem ganhou foi Elizabeth M., que ainda não entrou em contato com a gente. Aguardamos por um mês, Elizabeth, ok?

Saudações literárias!

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Entrevista com Cida Sepulveda

admin em 19 de Abril de 2010 @ 21:00

  • Nome | Cida Sepulveda
  • Biografia | Paulista do interior, ex-bancária, formada em Letras pela Unicamp, professora de Língua Portuguesa da Rede Municipal de Campinas, três livros publicados e algumas participações em antologias, escreve resenhas para o Rascunho, um filho e uma filha maravilhosos.
  • Site | www.revistavagalume.com.br
  • E-mail | cida.sepulveda@uol.com.br
  • Livros publicados Sangue de romã, Poemas,
    Coração Marginal (link no Rascunho)
    , Fronteiras – Poemas

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Em nosso blog, falamos bastante sobre o escritor estreante, suas dificuldades em ser publicado por uma editora e ter o sonho do primeiro livro impresso. Hoje convidamos uma escritora já publicada e reconhecida para conversarmos. A obra de Cida Sepulveda foi chamada por Manuel de Barros de “Milagre estético” e foi resenhada por Nelson de Oliveira, entre outros.


Como é ser uma escritora já reconhecida? É mais fácil agora a publicação de novos livros?
CIDA |
Caros e caras, sou reconhecida apenas pelo poeta Manoel de Barros que muitos elogios me fez em várias cartas que me escreveu e também na apresentação do meu livro Coração marginal. O reconhecimento dele me abre portas em relação às pessoas que o conhecem, mas não no mercado editorial. A publicação do livro foi um parto a fórceps. Não espero mais facilidade para publicar o próximo livro que está quase pronto. Mas pode ser que eu tenha sorte. Entretanto, me deixa feliz ser lida pelos meus alunos do ensino fundamental do Parque Oziel. Eles leem mesmo e fazem comentários surpreendentes.


O escritor depois de publicado e reconhecido por seus leitores e críticos ainda tem novos desafios? Quais?
CIDA |
Cada texto é um novo desafio. Só assim criamos de verdade. Ao artista que se alimenta do fazer artístico, não basta reproduzir o já feito. Ele tem que sentir mudanças em seu trabalho, ainda que pouco perceptíveis a leitores menos atentos.


Falando em crítica, qual foi sua experiência em ler críticas de seu livro na mídia?
CIDA |
Foi excitante. Recebi muitos elogios de vários autores importantes. Álvaro Alves de Faria escreveu sobre meu livro de poemas Sangue de romã, no Rascunho, com muita propriedade, realçando as colocações do prefácio do filósofo Roberto Romano. Paulo Bentancur escreveu uma resenha no Estadão cujo título é O nascimento da Vênus bruta. Manoel de Barros me compara, em termos de importância, à Clarice Lispector. Maurício Melo Júnior, do programa Leituras da TV Senado, fez uma entrevista inesquecível comigo. Margarida Patriota me entrevistou no programa Autores e Livros da rádio senado. Marco Antunes, coordenador de literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, da Câmara Federal, fez um Sarau homenageando quatro damas da literatura, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Alfonsina Stormi e Cida Sepulveda… Que mais posso desejar?


Não sei se podemos falar sobre isso, mas houve um fato delicado em sua vida literária. A Academia Campinense de Letras insistiu em chamá-la para participar da academia mas depois retirou o convite. A alegação para isso nos soou como estranhamente antiliterária e até retrógrada. Pode nos falar sobre isso?
CIDA |
Posso e devo. Na época me calei porque fiquei revoltada e não queria usar meu precioso tempo com estupidez. Na verdade, o caso aconteceu com a Academia Campineira de Letras. O presidente, Sérgio Caponi, me interpelou pedindo que me candidatasse a uma cadeira. Eu respondi que não me interessava por esse tipo de prática. Ele insistiu, disse que a Academia precisava de meu nome, caso contrário, seria criticada no futuro, por ter deixado passar uma artista do meu porte. Tanto insistiu que eu disse: tudo bem. Ele, então, respondeu que era necessário pagar algumas taxas. Recuei de novo. Falei: não gasto dinheiro com isso. Não ganho dinheiro com literatura. Ele deu um jeito de me poupar as taxas. Com timidez em relação à situação fiz a inscrição. Soube logo depois que alguns membros da Academia se revoltaram contra a candidatura, me taxaram de pornográfica, profana. Disseram que fariam campanha difamatória contra meu livro. Um horror! O presidente, envergonhado, me pediu que retirasse a candidatura, para que o evento não manchasse a reputação da Academia futuramente. A Cecília Prada, que então nem me conhecia, presenciou a tal campanha. Eu não estava presente nas vezes em que me “condenaram”. O que sobra disso é nojo.


Além de escritora, você ainda desempenha vários importantes tarefas: é crítica e resenhista do jornal Rascunho, é professora, mantém o site da revista eletrônica Vagalume. Essas diversas atividades complementam-se? Elas ajudam a compô-la como escritora? Qual delas é a mais desafiadora?
CIDA |
Fazer resenhas para o Rascunho me agrada muito. Acho que a crítica literária no Brasil está praticamente extinta. Aproveito o espaço que o Rogério Pereira, editor do Rascunho, me cede e faço a minha crítica ou divulgo gente que considero importante ao cenário literário brasileiro. A Vagalume surgiu como um espaço onde eu me divulgaria e ao mesmo tempo contracenaria com outras vozes literárias. Não gosto de ter um blog, de ter voz egocêntrica. Desejo o diálogo. Acredito na comunidade, por mais individualistas que sejamos. Sim, todas as atividades ligadas à Língua Portuguesa me compõem. Adoro trabalhar como professora do ensino fundamental do município. Trabalho com textos o tempo todo, brigo para que leiam, interpretem, aprendam a gostar da própria Língua.


Sobre escrever, você se dedica tanto a contos quanto a poemas. Há o momento para a poesia e outro para a prosa, ou elas se entrecruzam?
CIDA |
A prosa poética que venho desenvolvendo desde o livro Coração Marginal tem prevalecido na minha produção artística. O poema, em sua forma tradicional, creio, está ganhando outras formas. Na verdade, os gêneros se fundem e acredito que não temos mais fronteiras tão definidas quando falamos em criação artística que envolve pesquisa de linguagem — estudos, como se diz nas artes plásticas. A poesia não está presa a gêneros.


De sua autoria, qual é seu conto e qual seu poema preferidos?
CIDA |
Na verdade, há vários, tanto poemas como contos. Do Fronteiras, cito o poema “A escola”.


Pode transcrever aqui um de seus contos ou poemas?
CIDA |
Um conto surreal que me agrada muito:

Todas as laranjas

Teresa chupou todas as laranjas do pé. As verdes doeram mais. A tarde avançava ilimitada pelas redondezas. O laranjal se estendia até a nascente, beirando o rio. A mina, incrustada na rocha, vazava um olho, o outro se continha para novas gerações. O rio ia pesado de sujeira e tédio. A água límpida da nascente provocava certo constrangimento.

Deitou-se ao lado da correnteza para sentir-se indo sem sair do chão. O som das águas, das pedras, dos insetos, da pele triscando em folhas secas zunia com insistência arcaica. Girou a cabeça para os lados com força, sentiu a musculatura do pescoço travar-se. Nos pés subiam formigas. Enrijeceu o corpo para não ser percebida – como estátua, o mundo lhe daria outras acepções.

A barriga estufada formava cadeia de morros onde as formigas encontrariam desde abrigos até deslizamentos fatais. Da boca escorriam líquidos e jorravam bagaços ainda frescos. Sentiu molhar as orelhas e arder as faces, mas não se mexeu. O sol não se dissipava, embora as horas completassem ciclos vitais.

Teresa teve o primeiro arranhão à meia-noite, em total consciência. Ele chegou a pé, tirou o canivete da cinta e cortou-lhe os cabelos tímidos. Ela parou de respirar. Seus olhos se encontraram com os dele. Teve medo, mas o encarou. Ele a devorou por dentro e por fora.

No local do crime, o povo enfiou uma cruz rústica onde gravaram o nome e a idade da vítima. O rio inundado pela tempestade lavou o sangue e o cheiro da laranja. O silêncio desbastou mágoas remanescentes. O assassino saiu ileso. Se meteu nos laranjais que refloriam iludidos. Construiu um casebre de papelão e arame nos cafundós, recanto onde o rio se contrai e vira fio de lama, e os matagais encobrem pecados.


Agradecemos a entrevista e desejamos a você muito sucesso.

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Entrevista com Alexandre Eduardo Weiss

admin em 20 de Março de 2010 @ 17:04

Eu 2 - Eu 2

  • Nome |Alexandre Eduardo Weiss
  • Biografia | Nasceu em 06 de abril de 1956, na cidade do Rio de Janeiro. Formou-se em Design pela PUC-RJ em 1979. Foi professor da UFPB – Universidade Federal da Paraíba –, ajudando na formação do Curso de Design, campus Campina Grande. Voltou ao Rio no começo dos anos 1980 e foi professor de Projeto de Design na Faculdade da Cidade, hoje: Universidade, e de Design Gráfico na PUC-RJ. Abriu seu escritório de Design com um sócio em 1983: a Visual & Produto, que, com o fim da antiga sociedade, a partir de 1992 passou a se chamar AW Design. Em paralelo, produzia quadros a óleo e técnicas mistas, tendo participado de exposições coletivas e foi premiado em concurso. Em 2007 publicou seu primeiro trabalho como escritor: o romance ficção Nas Terras de Zar, com uma tiragem “do próprio bolso” de 100 exemplares. Depois dessa experiência inicial, passou a escrever contos e poesias; alguns deles publicados no Portal Literal. Simultaneamente continua ilustrando, pintando e fazendo projetos de design.
  • Blog | http://brotosdebambu.blogspot.com/ - blog de textos
    http://desenhareupreciso.blogspot.com/ - blog de desenhos e pinturas, alguns com texto.
  • Escritório de Design | AW Design
  • E-mails | lazullirio@yahoo.com.br e awdesign87@gmail.com

O Navio - O Navio

Recentemente você ganhou o concurso de contos do Portal Literal. Como foi esse processo? Conte um pouco
ALEXANDRE |
Já escrevia há algum tempo e este foi o primeiro concurso do qual participei. Foi em maio de 2009. Tomei conhecimento do concurso pelo Portal Literal: “Seu Conto numa Revista”. O concurso era destinado aos interessados, que deveriam publicá-lo no Portal Literal, e como prêmio ao vencedor – por votação interativa – este teria seu conto publicado na revista O Caroço, do blog homônimo: http://ocaroco.wordpress.com/. Escrevi um texto especialmente para o concurso: “O Branco e o Preto”. O processo de criação do texto foi objetivo: me concentrei em criar um texto pro concurso, dentro dos parâmetros definidos pela redação do Portal. Trabalhei por uns dois ou três dias no texto e publiquei. Após um mês de acompanhamento da votação e espera do resultado, tive a felicidade de ser o vencedor e a decepção do conto nunca ter sido publicado na revista. Acho que a revista não vingou. Não recebi explicações nem do blog nem do Portal Literal. De qualquer forma fiquei muito feliz por ter sido escolhido pela maioria de votos e, com isso, estimulado a continuar escrevendo. Foi muito legal acompanhar a votação, receber os comentários que iam sendo publicados pelas pessoas que acompanharam o processo e votaram no concurso, ler os textos que concorriam – alguns muito bons – e ver meu conto vencedor.
Puxa, Alexandre! Não sabíamos que o conto não foi publicado! Era realmente um dos diferenciais do concurso! E você nem ter recebido resposta sobre essa questão não foi legal! Vamos tentar falar com o pessoal do Portal, talvez eles possam ajudar http://www.portalliteral.com.br/blogs/concurso-o-vencedor
Natureza Viva 1 2 - Natureza Viva 1 2

Ainda sobre esse conto, você se inspirou em algum contista ou romancista para escrever?
ALEXANDRE |
Acho que somos influenciados pelos escritores e estilos que mais admiramos. Devo receber influências constantemente de várias partes e de artes diferentes, muitas vezes de forma inconsciente. Lógico que procuro sempre ser o mais original possível, sair do lugar comum, do vulgar, ter meu próprio estilo, minha marca. Tento escrever com a essência do que quero dizer. Para escrever este conto me baseei na indiferença com que se trata os excluídos, os que não têm acesso à cidadania: pessoas sem teto, sem identidade. Na violência do ser humano, na dignidade dos animais.
Dois Irm   os - Dois Irm   os

Já ouvi que todo escritor tem sempre um tema que o persegue. É o seu caso?
ALEXANDRE |
O tema mais forte para mim é a finitude do ser humano, nossa consciência da morte – que é o cerne da filosofia. Trabalho com os assuntos do momento que vivemos: as distorções da realidade, a coerção social, o que é – o real – muito distante do que parece ser – a realidade; o existencialismo; os paradoxos de nossa época; o sofrimento da humanidade e a degradação acelerada do meio ambiente. A perversidade do sistema. Procuro externar meus sentimentos, prender a atenção do leitor, criar climas e situações inusitadas; gosto de ficção científica e textos com realismo impactante. Procuro abrir os olhos de quem lê. Mostrar o que considero “real”, cutucar a consciência. Gostaria de ser crítico, sutil, dissimulado e corrosivo. “Ser um terrorista disfarçado de diplomata”, como já se disse em relação aos contistas. Gosto também de histórias com doses de terror e violência, tanto física quanto emocional. Acho que quero acordar as pessoas. Em outros momentos escrevo poesias de teor romântico. Sou muito eclético. “Uma metamorfose ambulante”. Sou espiritual e cético.
Casal no Corcovado - Casal no Corcovado

Você escreve somente contos ou também novelas e romances? Você coloca suas obras em blog?
ALEXANDRE |
Escrevo romances também, como Nas Terras de Zar, minha primeira experiência literária – disponível para download gratuito no Portal Literal. Estou trabalhando em outros textos que podem vir a ser novelas ou romances. Sonho em escrever para o Teatro. Escrevo, ilustro e pinto várias coisas simultaneamente. Gosto de elaborar e desenvolver personagens, suas visões particulares do mundo, o caráter, e outros aspectos que os definem como pessoas. Meu processo criativo é bem aleatório e me inspiro tanto nos acontecimentos do dia a dia quanto nos arquivos da memória, ou ainda em fatos e questões que fazem parte da História da Humanidade; acho que isto me dá uma sensação de liberdade e ajuda a externar melhor meus sentimentos que mudam e variam conforme as circunstâncias. Vislumbro um fio inicial, uma ideia, um rumo, e vou puxando e desenrolando o que vai saindo deste emaranhado; deixo fluir e depois vejo o resultado; dependendo do caso, trabalho no desenvolvimento do texto buscando atingir o que considero que esteja de acordo com a motivação inicial de criá-lo. Sou perfeccionista e meticuloso, cada vez que releio um texto encontro coisas a serem buriladas, um detalhe aqui outro ali, pequenos ou grande ajustes. Tenho dois blogs: um de textos – Brotos de Bambu – e outro de artes plásticas – Desenhar Eu Preciso. Dependendo do momento, trabalho mais em um do que no outro. Me faz bem esta alternância do escrever para o desenhar/ilustrar, e vice-versa.
M   sico - M   sico

Como você vê hoje a divulgação da criação literária em blog? Há o medo do plágio? Há o reconhecimento do público? É importante o escritor buscar colocar suas obras em sites públicos, como o Portal Literal?
ALEXANDRE |
Acredito que sim. O Portal Literal, por exemplo, permite que pessoas que estão começando a trilhar o caminho da escrita possam ser lidos, criticados, aconselhados, e isso ajuda no desenvolvimento do exercício de escrever. O contato com outros textos, outras pessoas, é muito bom. Não tenho medo do plágio. Não me preocupo muito com isso. Confesso que me sentiria, de certa forma, orgulhoso por estar sendo copiado. Evidentemente, vaidade a parte, entraria com uma ação de plágio contra o safado. Acho muito importante ter este canal de contato rápido e direto com o público. Creio que os e-books e os blogs vieram pra mudar o cenário da publicação de textos, antes monopólio das editoras. Hoje há uma proliferação de blogs, portais e revistas eletrônicas, que permitem muito mais exposição do trabalho artístico, científico etc… Evidente que nem tudo é de qualidade, mas este também é outro aspecto interessante: o que é qualidade? A internet, sem dúvida, mudou a forma de escrever e ser lido. Podemos participar de oficinas de texto sem sair do local físico. Isto é ótimo. Quanto aos blogs, há vários exemplos de sucesso e qualidade. Os que têm talento e dedicação no fazer artístico-literário se estabelecem. É uma excelente forma de criar e ser visto. Posso ler o Ofício Editorial sempre que quero, assim como outros sites e blogs que me interessam, jornais, revistas, documentários etc… Essa facilidade de acesso ao que se produz quase instantânea é maravilhosa. A possibilidade de integração e interação com pessoas em qualquer parte do mundo é fenomenal.
Mata Virgem 1 - Mata Virgem 1

Como você lida com a crítica?
ALEXANDRE |
Acho que a crítica faz parte da arte. Toda manifestação artística atrai ou gera uma crítica. Claro que prefiro a crítica inteligente, profunda e atenciosa. Mas a liberdade de ser lido e criticado por muitos leitores só aumenta a aprendizagem e a responsabilidade do ato criativo. Vide o exemplo do caso – com risco de morte – das charges publicadas que foram consideradas ofensivas a uma religião. Acho que todo escritor “precisa” da crítica. A crítica permite enxergar o trabalho sob perspectivas diferentes. Gosto muito de ler críticas ao meu trabalho. Sempre aprendo alguma coisa. Sou iniciante no fazer literário. É fundamental, pra mim, ser criticado, no bom sentido. Me sinto nos primeiros passos de uma longa caminhada.
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Além de escritor, você trabalha com Design, não? Como é essa relação? Um trabalho tem comunicação com o outro?
ALEXANDRE |
O design, notadamente o design gráfico, me permite editorar o que escrevo. Como trabalho com editoração de texto há mais de trinta anos, posso publicar o que faço com o conhecimento das técnicas de diagramação, das características e propriedades específicas das famílias tipográficas, das regras de combinação de cores, figura e fundo, e lay-out. Sou designer, escritor e artista plástico; estas são técnicas que se complementam. A arte está presente em todos os projetos e trabalhos que realizo.
Profundo e Abstrato - Profundo e Abstrato

Como é seu processo de criação textual? Difere da criação em arte visual?
ALEXANDRE |
Escrever e ilustrar às vezes estão interligados. Os processos são mais ou menos semelhantes. Tenho liberdade para pintar, desenhar, ilustrar e escrever. Acho que esta liberdade é que me dá prazer. Trilhar caminhos menos usados. Encontrar novas possibilidades. Buscar ideias diferentes, externar outros sentimentos. Neste momento, entre outras coisas, estou trabalhando num projeto de literatura para o público infantil no qual a ilustração e o texto emergem simultaneamente na minha área de trabalho. São complementares e estão intrinsecamente ligados. É muito bom, para alguns trabalhos, ter esta polivalência.
A linguagem e o texto podem estar ou não associados a uma imagem, um cenário, uma ilustração. O texto descreve formas, cenários, detalhes físicos de paisagens, pessoas. Já a pintura, o desenho e a ilustração mostram uma cena, uma paisagem, uma pessoa. Às vezes estão relacionados, noutras não. Vejo a imagem e ouço o texto, visualizo os personagens, tento colocar isto no momento de realizar, escrever e ilustrar o que estou fazendo. Depois trabalho no processo de aperfeiçoamento do que faço. Corrijo algumas coisas, melhoro a diagramação, dou destaque ao que é importante, enfim, quando trabalho uso todas técnicas simultaneamente. Em perfeita e natural sincronia, em prol da qualidade e da melhor exposição do que produzo.
Auto Retrato - Auto Retrato

Você acredita na profissionalização do escritor no Brasil, ou seja, na possibilidade de o escritor ter somente a escrita como profissão? Acha que cursos universitários públicos dirigidos à escrita criativa ajudariam nesse processo?
ALEXANDRE |
Acho muito difícil a profissionalização do escritor em países onde a arte não é significante para a sociedade como um todo. Veja os exemplos que temos: com raras exceções, o escritor tem atividades paralelas: jornalismo, serviços públicos, ensino etc… A arte é pouco valorizada no Brasil. Aqui temos que fazer muito esforço para sobreviver e criar de uma forma consistente; a maioria dos escritores brasileiros – e de países com grandes desigualdades sociais – estão trabalhando em atividades paralelas, assim como os artistas plásticos e designers. Os cursos universitários públicos de literatura são uma ótima ideia, mas necessitariam de um respaldo por parte dos órgãos públicos – ou de partes da sociedade e da iniciativa privada – no sentido de se criar uma estrutura que permita que esses escritores ali formados possam ter condição de trabalhar e viver disso, o que hoje me parece um tanto distante de acontecer. Com o design acontece coisa semelhante: hoje se formam muito mais designers do que o mercado suporta, e isto é muito frustrante para todos que estão envolvidos com as artes de um modo geral, considerando o design como forma de expressão artística também. O mercado não absorve noventa por cento dos profissionais formados. Este foi o principal motivo que me levou a abandonar a carreira docente. Gosto muito de ensinar, sinto que tenho um dom para isto, mas não suportava mais perceber a angústia nos alunos quanto à falta de mercado. Isto me fazia sentir uma dor muito grande: formar profissionais para serem atirados na rua deserta, abandonados à própria sorte, uma coisa desumana. Precisamos batalhar neste campo, não desanimar, insistir, lutar para criar mecanismos e formas que permitam que um dia este sonho de uma realidade em que artistas possam trabalhar com dignidade naquilo que mais gostam se realize.


Agradecemos pela entrevista. Informamos aos leitores que as imagens desta entrevista são de autoria de Alexandre.

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Prêmio Literário | o escritor, o leitor, o mercado | Parte II

admin em 12 de Março de 2010 @ 15:05

premio2 - premio2
Prêmio Literário e Concurso Literário

Por que o Brasil não tem um grande prêmio literário para obras já publicadas? Por que há poucos concursos literários para o escritor inédito?

Já conhecemos nossos obstáculos: poucos leitores, alto preço do livro, editoras prestigiando traduções de bestsellers, pouquíssimo espaço para o novo escritor, escritor obrigado a ser multitarefa. Esse é o primeiro passo, identificar os problemas.
E as soluções? Perguntamos a vários escritores, críticos, leitores e colocamos aqui excertos:


  • Sérgio Rodrigues | “Essa questão dos prêmios é complexa. Para mim tem a ver com diversos fatores: uma certa babelização de nossa crítica, seu descompasso consigo mesma e com os leitores (não existe consenso sobre quase nada, nem mesmo uma linguagem comum pela qual avaliar produtos literários), além de uma certa tendência bem brasileira ao compadrio etc. Idéia incipiente: um prêmio em que todos os jurados fossem escritores atuantes e reconhecido.”
  • Roberto de Sousa Causo | em artigo de 15 nov 1998 | “Um prêmio como este [O NOVA, para FC] tem o potencial de chamar a atenção de autores, artistas e editoras, de movimentar a opinião de fãs e leitores, de gerar apreciações críticas e de promover a discussão dos rumos desses gêneros no Brasil. Fica, porém a lição do Nova, de que a política literária no fandom é feroz e freqüentemente desproporcional” | Somente um parêntesis, nos EUA há o Hugo Awards, prêmio específico para obras de ficção científica e fantasia. Afirma-se que escritores desse gênero dificilmente seriam contemplados em Prêmios abertos ao romance em geral. Assim, o que parece mais sensato é realmente que se tenha uma premiação específica para FC e Fantasia. Um grande candidato à indicação (e composição) do júri seria o Clube de Leitores de Ficção Científica.
  • Rodrigo Gurgel | “Quanto ao formato do prêmio, creio que o ideal seria escolher um gênero — o romance, por exemplo –, não importando se os originais inscritos são romances históricos, de ficção científica, sagas juvenis, ou dedicados a qualquer outro tema. Penso assim apenas por um motivo: segmentar dificulta a organização e o trabalho em geral. No que se refere aos ‘fomentadores’, eu escolheria uma entidade suprapartidária e que, na medida do possível, estivesse longe da influência de igrejinhas e modismos. “
    Rodrigo Gurgel lembra ainda que o nosso é um país jovem na tradição literária e livresca, e que, por isso, é natural que estejamos caminhando para instituir com mais solidez a literatura como profissão.
  • Nelson de Oliveira | sobre concursos literários: “Os três métodos eleitorais mais usados hoje em dia são: 1) o candidato com mais votos vence; 2) realiza-se um segundo turno entre os dois candidatos mais votados; 3) cada eleitor lista três candidatos, sendo que o primeiro da lista recebe três pontos, o segundo dois e o terceiro um. Esses três métodos são bastante consistentes, mas cada um reflete apenas uma verdade. Dependendo do método escolhido, o resultado da votação poderá mudar totalmente.” … “Enquanto não inventarem um concurso para leitores, vou esperar que aumentem o número de bons concursos para autores iniciantes. Bons concursos!” … “O mundo é cruel com os autores iniciantes. Eu havia trabalhado cinco anos em minha primeira coletânea de contos. Havia escrito, reescrito, datilografado e corrigido quarenta e cinco contos que juntos somavam quinhentas páginas. E esse primeiro conjunto de contos, mesmo dividido em livros menores, estava sendo recusado mês após mês, editora após editora. Em 1995 eu já estava prestes a desistir da literatura quando veio o resultado do Prêmio Casa de las Américas. Se não fosse por esse prêmio, teria parado de escrever, tenho certeza.”
  • Raimundo Carrero | “As editoras estão mais atentas, estão procurando os escritores consagrados ou jovens. Para quem, como eu, está há trinta e cinco anos no mercado, este é um passo importante. E acredito muito em melhoras. Quando comecei, ninguém podia viver de literatura. Hoje já é possível. Humildemente, mas pode. Muito humildemente. E as editoras estarão profissionalizando os escritores na hora em que eles venderem mais. Estão, assim, surgindo revistas, vídeos, youtube, orkut. Se os jornais negam espaços aos escritores, a mídia não conservadora sai na frente. Quanto a isso eu sou muito otimista.
    Os leitores estão se aproximando mais dos escritores. Há boas perspectivas. As novas mídias ajudam muito. Aqui em Pernambuco, onde são poucos os prêmios literários, faço uma Oficina de Criação Literária na Rádio CBN, às tardes de segundas, quartas e sextas-feiras, tem grande audiência. Não sei se vendo mais, ainda não verifiquei. Mas, com certeza, os leitores estão mais próximos.”


Desses depoimentos notamos que estamos todos vivendo as mesmas dificuldades nesse caminho literário, mas também fica a sensação de muito otimismo e a certeza de que essas questões estão, sim, sendo pensadas por todos da área literária. Então, continuemos debatendo, prestigiando os escritores em nossos blogs, divulgando eventos, participando de eventos e exigindo, de quem nos é próximo exigir, a criação de Prêmios e Concursos literários.

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Prêmio Literário | o escritor, o leitor, o mercado | Parte I

admin em 10 de Março de 2010 @ 14:06

road - road

Recentemente conversamos com alguns escritores e críticos sobre a questão do Prêmio Literário. Lembramos de vários prêmios internacionais de grande repercussão e seriedade, como o The Man Booker Prize, o Goncourt, o Hugo Awards e outros.


Vimos que no Brasil há alguns bons prêmios, como o Portugal Telecom, o Prêmio São Paulo, Prêmio Machado de Assis (da ABL) e outros. E a questão que formulamos é por que no Brasil não há grandes prêmios literários, com incentivo a escritores inéditos, escritores já publicados, leitores?


O nosso propósito inicial é lançar essa questão a todos nossos leitores e aguardar suas cogitações, seus pensamentos, suas críticas. Pensar sobre isso pode não mudar o cenário, mas já será um início.

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Balanço sobre o Concurso

admin em 20 de Fevereiro de 2010 @ 17:54

balanco - balanco
O concurso de contos que promovemos no ano de 2009 foi muito proveitoso. Conhecemos muitos de vocês, mantivemos um diálogo rico, tivemos o privilégio de ler seu texto. Agradecemos a confiança depositada em nosso trabalho e agora iremos compartilhar algumas das mais importantes questões que pudemos traçar durante essa experiência.


    I. Sobre Concursos Literários: Gente, concurso literário tem de ser

  • gratuito, não pode ter “taxa” de inscrição.
  • não propor que o autor pague seu livro como parte do prêmio, isso é sinônimo de arapuca.
  • divulgar short e long lists, desconfie se a long list tiver mais do que 10 indicações.
  • divulgar nome dos juízes.
  • ter critérios publicados em edital/site.
  • ser aliado a programa de fomento de leitores (como encontros em feiras, workshops, divulgação de entrevistas, bate-papo do escritor com leitores) ou propor participação de leitores em resultado.


    II. Regras no edital: O Prêmio SESC deste ano divulgou que 20% dos inscritos foram desclassificados por não atenderem às normas do edital. É muito importante saber ler regras e aplicá-las. Um escritor não pode ser desclassificado simplesmente por não saber colocar o texto em entrelinha 1,5, ou saber qual é a tipologia em que o texto deve ser formatado.
    Em nosso concurso não desclassificamos ninguém por formatação textual. Nós lemos todos os textos. Mas, gente, sério, leiam e sigam o edital. Um escritor há que ser proficiente em compreensão textual.


    III. Norma culta: O escritor há que conhecer as regras gramaticais para transgredi-las. Tenha uma boa gramática em casa para consulta. Sugerimos o Dicionário de questões vernáculas para dúvidas mais pontuais.


    IV. Gênero literário: O concurso era de contos e recebemos algumas crônicas e poemas. Para se aprofundar na questão dos gêneros literários, indicamos o A criação literária, de Moisés Massaud.


    V. Geral:
  • Evitar frases feitas, a não ser que elas tenham um propósito claro no texto.
  • Tom: o tom de sua escrita deve se guiar pela história: formal x informal. Não misturar termos formais e informais sem consciência disso.
  • Humor, drama, conflito são elementos importantes, explorá-los.
  • Encadeamento: se o leitor brecar a leitura, acabou. Testar isso com sua própria leitura em voz alta.
  • A todo custo: não seja previsível em um conto!
  • Sonoridade: Evitar eco e rimas despropositais: “a criação da armação era pura danação”. Sério, agradecemos por não ganhar a vida por nossos exemplos brilhantes.
  • Ideias são boas quando inéditas: ler muito para poder identificar o que já foi dito, o que já foi imaginado e proposto.
  • Evitar comparações, adjetivações batidas, como “formosos lábios”. Adjetivos e advérbios em excesso podem ser um ponto fraco no texto.
  • Evitar muitas explicações. Em vez de explicar, sugira. Use a sutileza.
  • Não abrevie a narrativa a fim de conquistara surpresa do leitor. Desenvolva o texto.
  • Se quiser períodos extensos, tenha certeza de não se perder neles.
  • Há finais enigmáticos e finais incompreensíveis. Cuidado.
  • Separar por asteriscos partes do texto: *** . Não é ideal para um conto, uma vez que já é uma narrativa muito curta. Ela pode interromper o fluxo de leitura e irritar o leitor.
  • O desenvolvimento é importante, mas um conto se sustenta só pela exploração da forma? Achamos que não. Muito bem escrito, mas sem gancho, sem ideia sedutora, evite.
  • Mesmo os textos recusados têm belas frases. Não deixar de desenvolver o texto por apostar em frases de efeito.
  • Não se esforce apenas para ter uma frase de efeito ou uma ideia brilhante, esforce-se para desenvolvê-la.
  • Não narre fatos. Um conto não é uma lista de fatos ou ações. Um conto deve ser o desenvolvimento de uma premissa. Desenvolvimento lento e desfecho rápido, levar o leitor até o clímax. O escritor não conta uma história apenas, ele manipula as emoções do leitor. Ele conduz o leitor pela mão para depois deixá-lo só.
  • O escritor não escreve para explicar algo, ele escreve para que nunca haja certeza, para que se instaure a dúvida e para suscitar no leitor, com muito trabalho e competência, a desconfiança.



Em uma oficina que frequentamos, o escritor Marcelino Freire resumiu a condição do escritor. Parafraseando-o: o escritor não é aquele que tem ideias. Todos nós temos ideias. O escritor é aquele que tem as palavras.

Ousamos continuar. O escritor não é também quem publica livros. Quem faz isso é o editor, uma empresa, um comércio. O escritor é quem escreve. Antes de se preocupar com lançamento, festa, reconhecimento, preocupe-se com a arte.

A profissão do escritor no Brasil é algo novo. Nosso país é uma Nação jovem. Sem percorrer meandros marxistas, esperamos que mais e mais profissões no ramo das Artes sejam reconhecidas e valorizadas. Enquanto isso não acontece, desejamos aos escritores muita força e determinação para seguir o caminho literário e torcer para que no país surjam programas sérios para a formação de leitores proficientes, que são o motor e o destino de nossos livros.

Continuem a escrever e se apliquem a escrever. Além disso, passem a exigir programas sérios de fomento da leitura, encontros de escritores e leitores (não apenas o mercado de peixe das feiras de livro), debates e prêmios literários sérios e amplamente reconhecidos.

Iremos manter uma página com dados de concursos, em http://blog.oficioeditorial.com.br/concursos-eventos-e-oportunidades/ . Se souberem de concursos legais, enviem-nos o link. Participem de concursos, discutam os concursos.


Saudações a todos,


Ofício Editorial

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Entrevista com Tatiana Alves Soares Caldas

admin em 10 de Fevereiro de 2010 @ 06:00


O conto “Relicário”, de Tatiana Alves Soares Caldas, foi o primeiro colocado no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ela e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Tatiana para que vocês possam entrar em contato com ela e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para a escritora.

tatianajpg - tatianajpg


  • Nome | Tatiana Alves Soares Caldas
  • Biografia | Poeta, contista e ensaísta. Doutora em Letras pela UFRJ e professora do CEFET / RJ. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido mais de duzentos prêmios. É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e ao Clube dos Escritores Piracicaba. Publicou os livros O Legado de Cronos (contos), D’Além-mar: estudos de Literatura Portuguesa (crítica literária) e Harpoesia (poesia).
  • E-mail | tatiana.alves.rj@gmail.com
  • Facebook/ Orkut | tatiana.alves.rj@gmail.com


Conte a sua relação com a escrita
Tatiana |
Minha relação com a escrita sempre foi de paixão, bem como a leitura: os livros, desde sempre, funcionavam como uma válvula de escape de uma realidade sem grandes atrativos. Os livros – e desde pequena os recebia de presente – sempre foram a minha atividade favorita. Depois, quando comecei a escrever, descobri que havia algo que me impelia a fazê-lo. Até hoje sou assim. Posso passar um bom tempo sem escrever, mas quando me vem uma ideia, não sossego enquanto não a transformo em palavras.


A escrita tem relação com sua profissão?
Tatiana |
Sim. Toda a minha formação é em Letras, e meu mestrado e doutorado são em Literatura. Falar sobre Literatura e viver disso é muito gratificante. Não fiz Letras para ser professora, mas para pesquisar. E acabei me tornando professora para ter pessoas para me ouvir falar de Literatura. (risos)


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Tatiana |
Não tenho uma rotina para isso. Às vezes, passo semanas sem produzir nada; em outras épocas, escrevo compulsivamente. Acredito em inspiração, embora saiba que o trabalho em cima do texto é tão importante quanto a ideia original.
Escrevo na praia, na cama, antes de dormir, em algum lugar onde possa me isolar, quando vem uma ideia boa. Quando é impossível fazê-lo, anoto as linhas gerais, e depois desenvolvo. E o processo é bem diferente para poesia e para prosa: quando tenho um insight com um jogo de palavras ou uma rima inusitada, sei que aquilo se transformará em um poema. Já para os contos, vem uma história na minha cabeça: pode ser uma característica de um personagem, pode ser uma ação, ou mesmo um desfecho. E aí sei que dali sairá um conto.


Quais são seus escritores favoritos?
Tatiana |
Guimarães Rosa, incondicionalmente. Na minha opinião, um escritor inigualável. Amo demais Clarice Lispector, Machado, Florbela Espanca, Mia Couto e Saramago. De outras línguas, gosto de Poe, de Baudelaire, e de Oscar Wilde. Também sou leitora voraz de ficção científica, terror e romances policiais. Nessa linha, gosto de Stephen King e Mary Higgins Clark.


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Tatiana |
Como eu disse, às vezes tenho uma ideia solta. No caso específico de “Relicário”, as palavras da avó e o nome da cidade surgiram na minha mente, do nada. Estava pensando sobre o papel da mulher, e surgiu isso. Aí, resolvi pensar a figura da mocinha reprimida em uma cidade moralista e conservadora. Não sabia como terminar, pois o texto escapa pelos meus dedos, e dificilmente ele termina como eu imaginava. Às vezes começo sem ter a menor noção de como vai terminar. Em “Relicário”, ele terminava com a volta da santa. Mas não fiquei satisfeita com o resultado, e então acrescentei um último parágrafo para salvá-las (risos).
Demoro às vezes muito tempo até ter uma ideia, mas escrevo rápido. Um conto de duas, três laudas leva, em média, duas horas para ser escrito. Não costumo reescrever um texto, não. Pode ocorrer de, passado algum tempo, eu achar que determinado termo ficaria melhor do que outro, ou mudar o título, mas é difícil. Geralmente fica como foi feito, no embalo. Se eu começar a mexer, acho que estou descaracterizando o texto, e dificilmente aprecio o resultado.
Quando peço para alguém ler, é só para mostrar mesmo, mas já o considero pronto. Não mostro a ninguém antes de terminar. Acho que se eu me dispusesse a mudar, seria um trabalho sem fim, pois sou perfeccionista e muito crítica. Então, quando acabo de escrever, liberto-me daquele texto. Se puder publicá-lo, aí a alforria é definitiva (risos).


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Tatiana |
Atribuo 50% a cada um. Uma ideia inovadora pode se perder se não for bem desenvolvida, mas não acho possível fazer um texto primoroso sem uma ideia maravilhosa como ponto de partida.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Tatiana |
Como leitora e como professora de Literatura, considero que um texto de qualidade é aquele em que as imagens não são óbvias, em que há um trabalho com a linguagem. No caso de poesia, gosto de textos que dialoguem com outros, ou que mostrem que as palavras que ali estão foram tão bem empregadas que não haveria outra capaz de despertar a sensação que aquele texto provocou no leitor.
No caso da prosa, gosto de personagens bem construídos, coerentes, de um enredo instigante, de um final não previsível. Gosto de textos que me surpreendam.
Com relação aos meus textos, leio como se fosse alguém de fora, que não conhecesse a obra. E aí detecto eventuais defeitos. Isso logo depois de escrever. Depois de uma mudança ou outra, como disse, nunca mais mexo nele. Do contrário, não teria tempo para escrever outros. (risos)


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Tatiana |
Que o gosto é algo totalmente pessoal e subjetivo. Quando envio mais de um texto para um mesmo concurso, frequentemente acontece de ser premiado justamente aquele em que eu menos acreditava. No meu primeiro livro de contos, tentei reunir textos que versassem sobre uma mesma temática, para conferir unidade à obra. Um deles acabou entrando por sugestão do meu marido, mas eu estava decidida a não o incluir. Foi de longe o conto mais elogiado por quem leu o livro.

Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“A escritora declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de sua autora”.


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“Relicário”
Pseudônimo: Maria

Maria abriu cuidadosamente o relicário, mirando os olhos da imagem que ali ficava guardada. Ajoelhou, como fora ensinada a fazer, e principiou a entoar mecanicamente mais uma de suas preces. Emendava uma oração na outra, sem jamais obter o alívio desejado. A santa olhava, impassível, nada podendo fazer diante daquela situação. Seu olhar continha uma espécie de tristeza, uma quase resignação, que não ajudava muito a confortar a devota que a ela se dirigia.

“Mulher só sai de casa três vezes na vida: para ser batizada, para casar e para o próprio enterro” . As palavras da avó ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendita sois vós entre as mulheres. Por que, então, tantas renúncias, ó mãe?

Persignou-se, acendeu uma vela e saiu do cômodo. Em alguns segundos retornou, e trancou o relicário, evitando o olhar da santa. Em seguida, cerrou as janelas, não sem antes respirar a brisa fria que vinha de fora. Cheiro de gente, de rua, de vida. Calçou os chinelos gastos e pôs-se a ler.

Época de novena era assim mesmo. As outras vinham à sua casa rezar o terço durante vários dias. O motivo agora era a candidatura do pai de uma delas, prefeito da cidade. A novena, contudo, não parecia ajudar na reeleição do sujeito, cuja popularidade caíra vertiginosamente desde que fora visto saindo de uma casa de tolerância na cidade vizinha. Era caso perdido. E eleição também.

Pediram, então, a imagem da santa. Que percorreria a cidade, numa procissão improvisada e direcionada. Depois, passaria alguns dias na casa de cada devota integrante do grupo de oração, para recuperar a nódoa na imagem do sujeito. Maria, que não se interessava por política mas não podia negar o favor, cedeu, embora a contragosto.

No dia seguinte, bateram à porta bem cedo. Duas mulheres pertencentes ao grupo vinham buscar a Virgem, padroeira de Santa Maria da Renúncia. Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na tentativa de protelar a retirada da imagem de sua casa, pegou cuidadosamente o relicário. O grito foi uníssono. A santa havia desaparecido. Como podia uma coisa dessas? Como ela podia ser tão desalmada e ingrata a ponto de forjar o roubo da imagem em vez de cedê-la para tão nobre propósito? As beatas do lugarejo saíram, indignadas.

Os dias escoavam-se sem que a imagem aparecesse. O relicário aberto assemelhava-se a uma casca sem noz, a uma caixa sem presente. E Maria adoeceu com a falta da santinha. Ninguém mais a essa altura duvidava que a santa tivesse sido de fato roubada, embora nenhum forasteiro tivesse sido visto nos arredores na semana do desaparecimento.

De resto, tudo parecia normal em Santa Maria da Renúncia. Ou até melhor. Nem parecia inverno. As rosas desabrocharam antes do tempo, o gado – sempre tão passivo – ficou mais agitado, e a brisa que soprava no fim da tarde trazia agora um ardor inesperado. O frio, marca característica do lugar, fora repentinamente substituído por um calor sem precedentes, como se uma espécie de sezão assolasse o local. As mulheres, que antes permaneciam em casa, aquecidas, queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se, não mais ao milho, mas à contemplação alheia. Ombros e decotes foram vistos por ali, e madonas renascentistas surgiam a cada beco.

Maria mirava o relicário, agora um santuário de ausência, e pranteava a saudade que sentia de sua companheira de infortúnio. Adoecera na semana em que a Virgem sumira. Febres inexplicáveis atormentavam-na dia e noite. Certa vez, foi encontrada vagando perto da cachoeira, roupa molhada colada ao corpo. Delírio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre. E havia um moço que nada dizia, mas o sorriso em seus olhos fazia a maior prece jamais entoada em louvor à santa. Ou ao roubo.

Os ardores de Maria eram agora conhecidos e tolerados por todos no lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha. Uma alma pura que se perdera longe da proteção da santa. Bebia o vinho do pai, brindando à santa ausente. Rodopiava como se não soubesse mais o que era linha reta, e sua saia alçava voos de serpente alada. Gargalhava como se nunca houvesse frequentado colégio de freiras, e deitava-se no chão, mirando inexistentes estrelas que cintilavam proibidos latejos em sua cabeça. Em seu peito. Em seu ventre.

Dois meses depois, Maria foi despertada pelo olhar da santa, dentro do relicário. Incrédula, abriu-o, indagando, mentalmente, quem a havia roubado. Nenhuma resposta. Havia fugido, então? Um meio sorriso pareceu se desenhar no rosto da imagem. Devia estar mesmo louca, como todos julgavam. Tinha de anunciar o retorno da Virgem. Gritar. Sua protetora voltara. Abriu a janela, sentindo o vento frio de sempre agredir-lhe o rosto. A imagem, trancada no relicário, assumira o tom triste de antes.

Não pensou duas vezes. Abriu o relicário, piscando levemente, e voltou a dormir. Ambas sabiam que a santa não mais estaria ali quando Maria acordasse. Nem ela.

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