Arquivo de Março de 2009

Seis passeios pelo bosque da ficção

admin em 25 de Março de 2009 @ 16:54

Passear pelo livro como fazemos num bosque é o que Umberto Eco propõe nesse texto. O livro é formado a partir das conferências da semana Norton (Charles Eliot Norton Lectures), em Cambridge, em 1992-1993 .

    “Mesmo quando não existem num bosque trilhas bem definidas, todos podem traçar sua própria trilha, decidindo ir para a esquerda ou para a direita de determinada árvore e, a cada árvore que encontrar, optando por esta ou aquela direção” (p. 12).

O livro apresenta questões interessantes em relação à própria teoria da literatura e, por essa questão, vale a pena ser lido.
O autor traz à tona o conceito de Autor-modelo e Leitor-modelo. O primeiro é aquele que, hipoteticamente, entende todas as razões e porquês dos elementos escritos no texto, ou seja, tem um domínio sobre sua própria obra. Representa um possível modelo de autor que constrói propositalmente cada detalhe do texto, seus conteúdos e lacunas. Já o Leitor-modelo é aquele que, também hipoteticamente, compreende toda a complexidade da obra, ou seja, entende todos os esquemas propostos pelo autor.

Outro aspecto importante é a questão do tempo ficcional e do tempo real. Da relação entre o tempo dos acontecimentos dos fatos e o tempo empírico de leitura. O autor explora também o fato de que o tempo ficcional pode não ser linear ou lógico. Dessa forma, cabe ao Leitor-modelo estruturar o tempo exato de ocorrência dos fatos ficcionais. Eco diferencia o tempo da história (que é a linha cronológica dos fatos da obra), o tempo do enredo (que é a ordem criada para a estrutura ficcional, que não necessariamente se confunde com o tempo histórico) e o tempo do discurso (que faz referência à estratégia linguística utilizada pelo Autor-modelo).

Em outro momento do texto o autor aborda o tema da velocidade. “Se, como observamos, um texto é uma máquina preguiçosa que pede ao leitor para fazer parte de seu trabalho, por que um texto poderia demorar-se, diminuir a velocidade, não se apressar?” (p. 55).
Diferentemente do texto literário, a linguagem cinematográfica não se prende aos detalhes, parte direto ao ponto do clímax, ao que o enredo tem de mais essencial, pois o tempo do enredo se confunde com o tempo do discurso; além disso, o tempo de leitura é limitado, correspondendo ao momento em que o “leitor” está diante da tela.

Num bosque, podemos demorar e contemplar uma única árvore, ou podemos passar por todas com rápida velocidade. Os sinais de suspense são esses momentos em que o autor permite que o leitor se demore em determinado aspecto em preparação para um momento posterior mais forte. Ou seja, o autor, por meio do enredo e da estrutura linguística, determina momentos em que o leitor pode parar para inferir o que vai ocorrer adiante. O leitor sai da obra e trilha seu livre caminho imaginativo, participa da criação. Esse processo pode criar pontes de identificação entre leitor e obra, trazendo para o jogo do texto sentimentos próprios do leitor que, de certa forma, são transferidos para o imaginário da personagem.

O autor aborda, também, a questão da “suspensão da descrença”, ou seja, o leitor adentra a obra sabendo que tem de tomar o que o autor afirma como verdade, mesmo que isso possa contradizer a realidade. Diante disso, podem surgir leitores que acreditam piamente que os personagens da obra ficcional são reais, ou mesmo que os fatos presentes no enredo aconteceram na realidade. Quem espera encontrar um lobo falante, sapos que viram príncipe, ou mesmo homens que, ao acordar, se transformam em insetos?

Umberto Eco considera o mundo ficcional um parasita do mundo real, ou seja, para compreendermos os fatos desse mundo paralelo, que é o universo do enredo literário, temos de levar conosco alguns conhecimentos do mundo real, mesmo que em diversos momentos eles possam ser anulados pela suspensão da descrença.

Nas palavras do autor:

    “À parte as muitas e importantes razões estéticas, acho que lemos romances porque nos dão a confortável sensação de viver em mundos nos quais a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece um lugar mais traçoeiro” (p. 97).

O texto traz à tona a questão de que muitos fatos, para nós tomados como reais, surgiram que fatos ficcionais. É como se boatos se expandissem ao ponto de serem tomados como verdades, e nesse movimento se perde seu princípio ficcional. Isso porque as estruturas narrativas podem estar tão ligadas a fatos da realidade que tomam status de verdade. Assim, é essencial para o autor de um texto literário estabelecer bases com a realidade que cerca o enredo e, a partir daí, construir seu mundo ficcional.
Ligado a esse mesmo princípio, o autor exemplifica casos em que nós tentamos interpretar a vida real como uma obra ficcional, ou mesmo quando a ficção toma status de verdade.
Na verdade, somos introduzidos numa espécie de linha contínua, em que acreditamos em uma história que nos antecede e na qual somos inseridos e passamos a fazer parte, como numa ficção.

    “De qualquer forma, não deixamos de ler obras de ficção, porque é nelas que procuramos uma fórmula para dar sentido a nossa existência” (p. 145).

Eco, Umberto (2006). Seis passeios pelo bosque da ficção. São Paulo, Companhia das Letras.

capa do livro  - capa do livro Seis passeios pelo bosque da ficção
Emberto Eco - sobre o autor

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