Peek-a-boo — Onde está o escritor brasileiro?
admin em 4 de Maio de 2009 @ 14:16 | Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 4026
O que é um escritor?
“O escritor está sempre trabalhando em um livro, mesmo quando não está escrevendo” (Antonio Callado)
“You don’t live there always when you write. Mostly it’s a long hard walk. Sometimes it’s a trudge through fog and you’re scared you’ve lost your way and can’t remember why you set out in the first place. But sometimes you fly, and that pays for everything.” (Neil Gaiman)
Nascido do chão, da terra, de sementes de sabe-se lá qual árvore, aspergidas por chuviscos. Fruto de trabalho árduo e horas de solidão forçada e extremamente necessárias, em sua segunda ou terceira jornada de trabalho. Normalmente, o escritor é aquele que, ao escrever um texto, consegue destaque e ser publicado por uma editora comercial. Ou é aquele que, cansado da longa busca por uma editora comercial, decide levar ele mesmo a edição de seu livro até o fim, contratando profissionais que o façam. Escritor é quem produz uma obra literária e a transforma em livro. De outra forma, todos os que fizessem uso de lápis, caneta ou teclado e conseguissem alinhar caracteres seriam escritores. Escritor é quem faz a obra literária e a publica, seja em papel (tradição escrita), seja em palavras (tradição oral).
No Brasil não há programas que amparem o escritor, como na Escócia (http://www.scottishbooktrust.com/). O Scottish Book Trust é uma entidade fundada pelo Conselho de Arte, que é patrocinado pelo Governo Escocês. A entidade promove cursos para escritores, apóia o novo escritor com auxílio para que ele encontre a editora mais adequada ao perfil de seu livro (funciona como agente literário), bolsa de estudo, concursos literários, organiza lançamentos etc. Isso funcionaria no Brasil? Um braço do Ministério da Cultura voltado para a literatura e a formação do escritor brasileiro? Não custa sonhar…
Nisso voltamos a nossa atenção ao fato de que no Brasil não há instituições públicas ou de qualidade irrefutável que ofereçam especialização em Escrever. Isso não poderia ser feito nos cursos de Letras? Há exemplos de livros desenvolvidos dentro de mestrados ou doutorados, como foi a caso de Tatiana Levy, em A chave da Casa. (mais sobre esse assunto no artigo de Edgard Murano, “A ficção que vale por um doutorado”, Língua Portuguesa, Nov. 2008). Mas esses são movimentos raros dentro das universidades.
Como as editoras os encontram?
E quais editoras buscam autores novos? Por que tantas editoras privilegiam traduções? Seria a ineficiência em se avaliar um original ou a dificuldade de se encontrar bons autores nacionais? Seria pela facilidade comercial de já se ter um público (mesmo que estrangeiro – étrange – de fora) testado o potencial comercial ou literário da obra?
Certamente é mais fácil pegar o que já foi testado como “seguro” no mercado editorial. O lucro nas vendas é certo. Então, as grandes editoras nacionais compram o direito de tradução de uma obra bem vendida e, geralmente, de um Best-seller. Poucas editoras nacionais avaliam os originais estrangeiros pela qualidade literária, como é o caso da Cosac Naify e da Companhia das Letras. A grande maioria somente aposta nos autores internacionais consagrados ou nos Best-sellers que pipocam esporadicamente e que parecem achatar os horizontes de leitura do público adolescente e jovem.
As pequenas e médias editoras não podem, geralmente, arcar com os custos de compra de direitos de tradução e, em seguida, da contratação do profissional para traduzir o texto, então elas buscam autores nacionais que se encaixem em sua linha editorial. Cada editora tem um perfil próprio e parâmetros para avaliação. Normalmente as editoras buscam o que é original (que traz novidade), o que tem caráter prático, o que tem apelo comercial, o que é indiscutivelmente bom. Dessa forma, antes de enviar seu livro para uma editora, pesquise no site dela, tente identificar sua linha editorial e se sua obra se ajusta a ela.
Como eles encontram as editoras? O que um novo escritor pode fazer?
- Enviar sua obra para editoras cuja linha editorial englobe a de seu texto. (Uma dica é ir em uma boa livraria e anotar todas as editoras que encontrar na área em que seu próprio livro se inclua. Por exemplo, se você escreve romance de época, vá até a seção de romances de época e anote todas as editoras nacionais que publicarem textos semelhantes ao seu). Em seguida, visite o site de cada uma delas e procure as instruções de como enviar o material para avaliação.
- Fazer uma edição do autor: não indicado em tiragens grandes (lembre-se: e o estoque?), pois a distribuição (mesmo se contando com sites) seria muito difícil. Se fizer uma edição do autor, contrate serviço de distribuição ou monte seu próprio blog e venda ali o livro impresso. Auden (nascido em 1907 na Inglaterra), em 1928, fez seu primeiro livro de poemas — Poems — como uma edição do autor. Hoje essa edição particular (de somente 45 exemplares) é uma raridade.
- Faça seu blog: ultimamente as editoras vêm buscando os blogs mais acessados para pescar novos autores ou tendências. O autor pode colocar um ou dois capítulos no blog e, se a pessoa quiser, ela compra o livro inteiro com ele. Daí o autor envia o livro impresso (que ele fez como “edição do autor”) por PAC (correio normal) para o seu leitor. Se o negócio der certo, o autor fica com 100% do lucro das vendas (deduzindo, logicamente, custos operacionais e de custo de edição do livro, que aliás não são tão altos assim).
- Com certeza, o escritor deve registrar sua obra no Escritório de Direitos Autorais, na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Isso evita o plágio de sua obra. Mas, lembre-se, desenvolver idéias não é crime, então tenha cuidado para não divulgar sua obra inteira de forma livre.
- O escritor pode buscar uma pós-graduação em Letras. A melhor forma de se tornar um bom escritor
é lendo os clássicos e estudando teoria literária e linguística. Pode-se tentar o rumo acadêmico, em uma graduação ou pós-graduação, ou ser autodidata (o maior de nossos exemplos foi Machado de Assis). - Nunca desistir. Paulina Chiziane, escritora de Moçambique, disse que ela escreve somente nos fins de semana, pois tem de trabalhar. Paulina já escreveu cinco livros e os publicou pela editora Caminho, em Portugal (site). Tempo é, sim, uma questão muito importante, mas, se a necessidade de escrever é realmente urgente, há que se organizar todas as tarefas a fim de se “criar” tempo (bem-vindo ao clube).
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8 comentários para “ Peek-a-boo — Onde está o escritor brasileiro? ”
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Rodrigo 5 de Maio de 2009 @ 08:19 1
Realmente os profissionais do livro deveriam se empenhar no sentido de incentivar as produções nacionais. O que ocorre é um mascaramento em que se diz valorizar a cultura e o que se valoriza é somente o lucro. Não sendo anticapitalista ou antilucro, mas é possível aliar uma coisa a outra. Vender best sellers internacionais e, ao mesmo tempo, investir em novos escritores brasileiros.
Luiz 8 de Maio de 2009 @ 17:15 2
Um belo texto. Só discordo da parte que para ser escritor você precisa cursar Letras. Se fosse assim, todo crítico literário e professor de Literatura seria escritor.
Regina Vieira 26 de Maio de 2009 @ 18:29 3
Acho fantástica a idéia de o autor divulgar a sua obra. Talvez tivessemos de encontrar um ferramenta de busca para blogs ou livros classificados por gênero. O ebook, atualmente, já ajuda bastante. É preciso ampliar mais essa idéia.
admin 26 de Maio de 2009 @ 22:27 4
Também vejo que o maior problema do escritor seja a divulgação e distribuição de sua obra… Mesmo que o livro (digital ou impresso sobdemanda) fique em algum catálogo virtual na internet, como o leitor irá saber de sua existência? talvez pela boa e velha propaganda “boca a boca”, twitter a twitter, e-mails… Vamos pensando.
Alexandre Lobão 5 de Junho de 2009 @ 16:19 5
Realmente não tem jeito: o gado só engorda sob o olhar do dono.
Façam as contas: uma editora de pequeno ou médio porte tem centenas, e eventualmente milhares de livros em seus catálogos. Um distribuidor atende a cerca de 30 editoras (não sei se é média, falo por um que conheço).
Publicar e vender livros é um negócio, portanto, para continuarem ativos os editores, distribuidores e livrarias vão, obviamente, dar destaque ao que vende mais. Cabe ao autor quebrar o ciclo vicioso de vender pouco por não ser conhecido, e conseguir chegar ao ciclo virtuoso oposto.
É possível, mas preparem-se para uma CARREIRA, uma vida de trabalho. Com raras exceções, raríssimas, ninguém fica conhecido com nos primeiros livros…
Francisco Rodrigues Júnior 27 de Junho de 2009 @ 02:39 6
Sou escritor.
Lancei o meu primeiro romance em 2006, vejo-o em todos os sites de busca nas melhores livrarias do país e até agora não recebi um centavo. Não sei o que aconteceu. Fiquei frustrado e bloqueado, quando penso em escrever outros livros. Tenho alguns em minhas gavetas, acho que deixarei para a minha família, quando eu morrer. Será se os americanos escrevem melhor do que nós, brasileiros? Ou a nossa cultura ainda é falha e não dá para fazer literatura com temas exclusivamente nossos… CONFIRA O MEU ROMANCE NOS SITES DE BUSCA “MISTÉRIO SOB AS LUZES DA ARCÁDIA” e você verá que não estou mentindo… Se alguém quiser lê-lo é só entrar em contato comigo. Comprei alguns para um pequeno lançamento e nada deu certo… não tive grana e nem ajuda de ninguém para o evento. Alguns que leram gostaram do romance e até opinaram no site da livraria Cultura. INCRÍVEL, NÃO? SE QUISER LÊ-LO, ENTRE EM CONTATO. MEU E-MAIL É magnus2@uai.com.br. UM ABRAÇÃO!
admin 29 de Junho de 2009 @ 14:51 7
Oi, Francisco,
Sobre a questão da venda de seu livro, é realmente curioso. Recomendo que você entre em contato com a editora que fez seu livro e peça o relatório de venda e de consignação de seu livro, para quais livrarias a editora enviou (fisicamente) seu livro, quantos exemplares foram destinados à divulgação, para quais mídias (jornais, revistas, captadores de notícias) foi enviado seu livro, onde a editora colocou a propaganda de seu livro etc.
Você, como autor, já fez sua parte — ou seja, escreveu um livro –, agora é a parte da editora. Se não está ocorrendo venda, há que se perguntar se a editora que você escolheu está cumprindo seu papel. Senão, por que ela decidiu editar seu livro? (Uma editora não é uma gráfica ou uma “compositora de livros”, ela é a casa de profissionais especializados em texto e no mercado livreiro). Aproveite essa experiência para reavaliar a sua editora e, talvez, reavaliar sua obra. Uma dica, envie seu livro para seus amigos lerem e te enviarem sua opinião, depois envie o livro para uma leitura crítica. Mas, acho ainda, vale a pena você conversar francamente com a sua editora e com os profissionais que editaram seu livro. Acho que ajudar um escritor é não somente publicar o livro, mas também possibilitar auxílio a esse escritor e estar disponível para conversar, discutir sobre o texto, realizar reuniões etc.
abraço
Ofício Literário » Oficina Literária 22 de Setembro de 2009 @ 16:16 8
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