Arquivo de 5 de Junho de 2009

Daniel Ricardo Barbosa

admin em 5 de Junho de 2009 @ 22:49

NOVOS ESCRITORES

daniel Barbosa - daniel Barbosa

Entrevistado: Daniel Ricardo Barbosa
Biografia por ele mesmo | É contador, técnico em manutenção de computadores, digitador, corretor de imóveis etc. Gostaria, como muitos outros, de poder dizer-se escritor, mas você conhece algum escritor que consiga sobreviver com simplicidade exclusivamente de sua verdadeira vocação? Autor do livro “Elo, Entrelinhas & Alucinações” (O Clássico e Canto Escuro), nome ao acaso em duas ou três antologias, esperançoso quanto ao breve (!!!) lançamento de seu segundo livro, classificado em diversos concursos literários sem nunca ter vencido nenhum, blogueiro pouco assíduo do sítio www.danielricardobarbosa.blogspot.com, e leitor ávido dos “clássicos da literatura” de todos os tempos, sonha um dia poder recusar o Prêmio Nobel, convites para quaisquer debates das principais feiras literárias que chuviscam por aí, e o beijo de aranha bêbada da Academia Brasileira de Letras. Pode ser contatado e agradece as mensagens, amistosas ou não, enviadas para o endereço: drb.contato@terra.com.br.
Escreve | publicou livro Elo, Entrelinha & Alucinações , O Clássico e Canto Escuro
E-mail | drb.contato@terra.com.br
Blog | http://www.danielricardobarbosa.blogspot.com/


Como você se tornou escritor? A partir de qual momento um escritor escreve? E a partir de qual momento o escritor faz literatura?
Daniel | Às vezes me pergunto se cada pessoa não nasceria com uma ou mais vocações. Tais inclinações seriam desenvolvidas de acordo com o ambiente em que se vive, oportunidades que se encontra pelo caminho, o temperamento do próprio indivíduo. Várias razões me levam a acreditar nesta espécie de “seleção natural”, que concederia os talentos específicos de acordo com as necessidades quantitativas da humanidade. O problema, hoje em dia, nesta sociedade em que o dinheiro e o poder são prioridade, é que muitas vezes as vocações inatas são negligenciadas em prol da sobrevivência ou acúmulo. Certas vocações são desprezadas a priori por não representarem campo de possibilidade para ganhos mais suntuosos e, talvez, mais fáceis de serem conquistados. Hoje encontramos carpinteiros inatos praticando cirurgia estética, açougueiros regendo nações através da economia, metalúrgicos despachando na política etc. De qualquer maneira, segundo penso, não se torna escritor: nascem escritores. E, como acontece nas demais artes, tal vocação é mais difícil de ser negligenciada. O apelo ou impulso à criação é imperioso. Pode-se até tentar passar indiferente por ele, não lhe dar ouvidos, mas as chances de se sentir profundamente infeliz o tempo todo são maiores. Tenho lembranças dos meus 5 ou 6 anos de idade com caneta e papel na mão ou lendo redações que escrevera em sala de aula da escola pública que eu frequentava, enquanto os demais alunos ouviam com grande curiosidade, durante o único momento em que eles faziam atento silêncio. Não há um momento em que o escritor passa a traçar suas linhas: ele escreve a partir de qualquer acontecimento e em qualquer época de sua vida. Ser escritor é também se tornar o registro vivo do seu tempo. E qualquer estranhamento diante o que se passa ao redor serve como mote. O resultado da observação e do registro pode ou não ser chamado de literatura. Passei a considerar meus textos como tal ao perceber que escrever era tudo o que eu queria e sabia fazer razoavelmente bem.


Escrever, como tocar um instrumento, exige tempo, dedicação e exercício. Qual “técnica” (se podemos chamar assim) você usa para aprimorar sua escrita?
Daniel | Dificilmente o escritor consegue sobreviver exclusivamente dos seus textos. Ele precisa se dedicar a outras coisas a fim de prover seu sustento. O ideal seria poder dedicar-se integralmente à vocação. Inclusive, se assim o fosse, encontraríamos literatura de melhor qualidade nas prateleiras das livrarias. Porém, a melhor maneira de aprimorar a escrita, é ler e escrever. Manter certa regularidade nestas práticas. Ler e escrever diária e exaustivamente. O máximo que o tempo lhe permitir. Ler de tudo válido um pouco e experimentar na hora de escrever. Deixar-se livre no momento da criação e não se enganar pensando em obras-primas a cada meia dúzia de linhas.


Há alguma hora ou momento preferidos para escrever? Escreve em silêncio ou com música?
Daniel | Gosto de escrever durante a madrugada. É quando o silêncio paira e posso fazer um “apanhado” do dia. A partir daí as ideias surgem. No entanto, costumo andar sempre com caneta e bloco de anotações no bolso, pois podem se fazer necessários a qualquer hora. Na maioria das vezes escrevo ouvindo músicas cantadas em inglês. Já tentei escrever ao som da MPB, mas não há distanciamento o suficiente no que se refere ao idioma e acabo me desconcentrando. Mais raramente ouço também música instrumental enquanto escrevo.


Quais são suas obras e autores prediletos?
Daniel | São tantas obras e autores! Entre eles posso destacar: Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo e Duas ou Três Graças), J. D. Salinger ( O Apanhador no Campo de Centeio), Dostoievski (Crime e Castigo), Stendhal ( O Vermelho e o Negro), Mario Vargas Llhosa ( Tia Júlia e o Escrevinhador), F. Scott Fitzgerald ( O Grande Gatsby), Franz Kafka ( O Processo ), Albert Camus ( A Queda e O Estrangeiro ), Robert M. Pirsig ( Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas) etc. Quero citar 5 autores que me espantam por seu pensamento e/ou literatura ousada, moderna, arejada. O filósofo Jean Baudrillard pela atualidade do seu pensamento. Dois autores portugueses que também trabalham ou já trabalharam como editores, e sempre me surpreendem, de maneira positiva, com suas obras e leituras do mundo: Vitor Vicente e Rui Caeiro. E dois brasileiros: Patrícia Melo e Joca Reiners Terron (o livro Sonho Interrompido por Guilhotina é ao mesmo tempo o alento e o desassossego).


Dentre suas obras favoritas, comente uma. O que a diferencia das demais no universo da literatura?
Daniel | Gosto muito dos chamados “Romances de Formação”. Dentre eles O Apanhado no Campo de Centeio, a história de um adolescente controverso, que não consegue se adaptar à sociedade, àquilo que o cerca, e não enxerga perspectivas a não ser viver só numa choupana próximo à mata, parece-me bem atual. Posso separar minhas leituras entre antes e depois de certos livros. O Apanhador… talvez seja o “marco” mais nítido e significante. Suas questões, abordadas com simplicidade e de maneira tocante, perduram e talvez se encaixem até mesmo com maior probidade no mundo atual.


Conta a lenda que Fernando Pessoa escreveu poemas de Alberto Caeiro de uma só vez, como mais que psicografando do que escrevendo. Umberto Eco, por sua vez, diz que faz pesquisas sobre o tema que quer escrever. E você? Como escreve? Qual é o seu processo?
Daniel | Pesquisas são fundamentais para que a obra não se perca no vazio. Isto não quer dizer que sempre será necessário interromper o fluxo criativo para fazê-las. Até porque a “bagagem cultural” do autor há de ser pesada e volumosa. Quase sempre ela supre a necessidade da hora. No mínimo torna as notas mais concisas para futuras pesquisas. No meu caso, cada obra exige particular processo. O que nunca muda: sempre escrevo “à moda antiga”: uso lápis e papel e só depois de ter o texto “pronto” o transcrevo para o computador. Textos que vêm na “íntegra”, como no caso do Alberto Caeiro, geralmente precisam de poucos “ajustes”. Nos demais casos, mesmo após transcrever, costumo reescrever algumas vezes antes de me cansar e riscar o ponto final.


Depois de escrita uma obra, ela fica na gaveta? Ou é imediatamente enviada a uma editora?
Daniel | Certas obras precisam de maior amadurecimento por parte do autor, para que proponham com competência suas questões e desígnios aos leitores. É imprescindível tolher a vaidade ou mesmo a ansiedade por ver a obra publicada e deixá-la descansando na gaveta. Só envio o original para as editoras quando consigo fazer uma leitura crítica isenta e a obra me parece íntegra.


Sobre editoras, qual foi seu percurso? Como um autor “estreiante” é recebido nesse mundo?
Daniel | Neste mundo em que cada vez mais as tendências mercadológicas e modismos ditam o que se deve publicar, o autor estreante é muito mal recebido. A não ser que seja um autor que se coadune às modas, tenha dinheiro para bancar a publicação de suas obras, ou dê a sorte de encontrar alguém com coragem para investir no novo. Durante quase 6 anos trilhei um caminho árduo de contato com intermediários, estagiários, assistente, editores. Se não fossem as amizades que se firmaram com os contatos e as palavras de incentivo que estes amigos despretensiosamente me dedicaram, fatalmente eu teria desistido. Por fim agradeci pela sorte: encontrei alguém do ramo pouco ou nada ligado à “modismos e finanças”, mas ao novo, à polêmica, à “boa literatura”, cujas circunstâncias permitiam e a coragem incentivou para que publicasse o Elo, Entrelinhas e Alucinações – meu primeiro livro. Hoje este editor, inclusive e acima de tudo, é meu amigo.


Escrever é preciso? Escrever é uma necessidade?
Daniel | Escrever é preciso por ser uma necessidade.


Qual sua recomendação ao jovem escritor?
Daniel | Leia e reze sempre nem que seja à própria sombra. Você vai precisar das duas coisas. (risos.)


“Cansada de se arrastar pela casa e fechar as janelas que o vento insistia em abrir”. Assim é a primeira frase de seu livro, Elo, Entrelinhas & Alucinações. A primeira frase é importante?
Daniel | Certa vez li uma matéria que relatava a preocupação de certos autores com a primeira frase de suas obras. Nesta matéria havia citações do que supostamente seriam as “melhores primeiras frases de todos os tempos”, além de se referir a autores como Gabriel Garcia Marquez – que costumavam levar alguns meses pensando na primeira frase dos textos em que estavam trabalhando. Fiquei impressionado: dou a mesma importância a qualquer frase ao longo de um texto. Todas elas têm que ser capazes de interessar ao leitor. No entanto gosto de começar os textos como se pegasse o “barco andando”. Passo a descrever a “paisagem” do momento em que tomo parte da “travessia” e não como se fosse desde sempre uma consciência atemporal, onipresente, ilimitada. Quem estava ali antes de minha chegada já tinha vislumbrado coisas muito interessantes e belas. As personagens já tinham vida antes da minha intrusão e durante certo período eu apenas tenho a oportunidade de participar e descrever acontecimentos. Qualquer primeira frase que destoasse do texto, por ser de maior impacto, faria com que eu tomasse de assalto e não adentrasse suavemente na vida destas personagens e conseqüentemente do leitor.


Do que fala o livro?
Daniel | Elo, Entrelinhas & Alucinações é a história de um país fictício que durante séculos ficou completamente isolado do mundo. Certos eventos levam o mundo a se interessar por esta nação singular e as mudanças que acontecem são descritas com ironia e bom-humor. Trata-se de uma tentativa de entreter o leitor ao mesmo tempo em que ele é levado a certos questionamentos e reflexões. Uma sátira a nossa sociedade capitalista e à sua capacidade de degenerar todos os elementos.


Como foi seu processo de escrita nele?
Daniel | O processo de escrita do Elo, Entrelinhas & Alucinações, na verdade, foi me libertar de qualquer tipo de processo (risos). Após tantas portas que me foram fechadas ante as minhas tentativas de publicar, eu havia desistido deste sonho com ares de utopia. Decidi escrever uma última vez e apenas para mim. “Tomar aquele barco”, não mostrar o resultado a ninguém, e nunca mais lutar contra a correnteza. Dei total liberdade para escrever o que me viesse à cabeça. E como estava deveras revoltado, descrente, irritadiço… Talvez por isto eu receba alguns e-mails perguntando por que o livro às vezes soa tão ácido. Tão crítico que chega a provocar a risada. Trata-se de um livro fora dos “padrões” que geralmente o “mercado literário moderno” exige dos autores. Bastante extenso, porém, escrito em apenas um mês, e de leitura fácil e rápida. Não são todos os dias em que isto acontece: muitas vezes se faz necessário anos de trabalho assíduo até que se chegue ao ritmo e fluência desejável.


Agradecemos muito pela entrevista e informamos que quem quiser conversar com Daniel ou adquirir seu livro pode escrever e-mail a ele: drb.contato@terra.com.br
alucinacoes - alucinacoes

Arquivado sob Entrevistas, Escritores | 1 comentário »