Arquivo de Setembro de 2009

A democratização do homem de letras: a questão das oficinas literárias

admin em 29 de Setembro de 2009 @ 13:34

narciso - narciso

    “Não escrevemos por acaso. Temos necessidade de nos deixar ao outro e essa é uma atividade eminentemente humana” (Luiz Hermenegildo Fabiano).

Fazer um curso de pintura não faz obrigatoriamente de ninguém um artista. Saber alguns acordes no violão também não garante que alguém seja músico. Mas isso não nos impede de apreciar a arte e até nos permitir apreendê-la e exercê-la para nossa ludicidade e humanização.

Não que literatura seja somente talento, como também não o é a música ou a pintura. A técnica é importante, sim, para desenvolver a arte de escrever, como já nos disse Raimundo Carrero. No século XVI, a literatura latina era descrita como “ingenium et ars”, ou seja, a perfeita junção entre talento e técnica. Em latim, Ars, a Arte, não é sinônimo de talento, mas sim de técnica. Arte, portanto, não tem relação com inspiração, inclinação ou talento, mas, propriamente, com a habilidade advinda do domínio de técnicas. A literatura, como uma Arte, é também fruto da habilidade do escritor no manejo das palavras. Como em qualquer Arte, o diferencial do artista será sua sensibilidade, sua criatividade e sua habilidade. Como nos diz Clarice Lispector, viver só se aprende vivendo; assim podemos afirmar que muitas das facetas de um artista são fruto de sua vivência. Mas a técnica pode, sim, ser ensinada e aprendida. A artista plástica aprende sua técnica nos ateliês; o músico, nos conservatórios; e o escritor, na oficina literária.

O que quero tratar aqui é a questão da proliferação das oficinas literárias ou dos cursos de formação de escritores. De modo algum postulo contra eles, pelo contrário, acredito que, em virtude do fácil acesso dos escritores amadores ao mercado editorial – graças às edições do autor e das editoras sob demanda –, o grande número de obras no mercado prejudica a qualidade, já que grande parte das publicações muitas vezes é de obras que nem sequer passaram por um crivo crítico. Assim, as oficinas, trabalhando na formação dos escritores amadores, podem contribuir com a qualidade das obras que alcançam a publicação. Mais um ponto positivo das oficinas é que o escritor passa a conhecer outros escritores, criando assim uma rede de afinidade que possibilitaria a ajuda mútua, por exemplo, pela leitura e crítica dos escritos uns dos outros.

Ao terminar a oficina, o aluno seria então um escritor? É importante então refletir que não é porque se faz uma oficina de escrita (ou curso de formação de escritores) que alguém se torna escritor no sentido pleno da palavra.

Primeiro ponto a ser considerado: o escritor é um profissional da literatura. Isso quer dizer que, muito mais que escrever, ele tem uma prática de leitura tanto de textos de ficção, quanto de textos teóricos. O que se vê atualmente é que grande parte dos candidatos a escritor não têm uma prática de leitura, ou seja, não estudam os principais textos da literatura mundial. O escritor tem de ter uma reflexão acerca do fazer literário, da importância da arte literária, da contraposição da literatura como produto de consumo e como arte. Obrigatoriamente, tem de conhecer a fundo o gênero a que se dedica a escrever e conhecer seus contemporâneos. Não estou desejando afirmar que é preciso cursar a faculdade de letras para ser escritor. Mas é preciso ir além de gravar no papel reflexões que dizem respeito somente a si mesmo e depois querer transportá-las para o grande público. Para isso existe o diário.

Segunda questão: quem pode ministrar um curso de formação de escritores? Isso é um grande problema. Muitos dos professores dessas oficinas são desconhecidos do mundo literário. A questão não está somente no fato de ser reconhecido, mas na sua formação e se ele realmente tem experiência para transmitir aos alunos. Assim, é preciso antes de ingressar em alguma oficina procurar saber quem são os professores, sua experiência no mercado editorial, sua didática, a organização do curso. Conheça o curso e estude se a proposta realmente será eficaz com você. Mario Bellatin, escritor mexicano, dirige a Escuela Dinámica de Escritores , uma escola de formação de escritores em que se é proibido escrever como exercício da escola. O grupo francês Oulipo propõe exercícios de restrição (como, por exemplo, não usar o artigo “a”, não usar adjetivo algum) como superação e aperfeiçoamento da técnica. Propostas de didática existem na maior variedade possível.

Como diz Raimundo Carrero , “O trabalho literário exige disciplina e método”. Assim, se você deseja ser escritor, invista em sua carreira. Escreva muito, sim. Mas leia muito mais. Busque os clássicos, busque os escritores contemporâneos, busque os críticos. A literatura é uma profissão, então precisa de empenho e dedicação.

Gostaria de convidar as pessoas que fizeram alguma oficina literária ou curso de formação de escritores a relatarem a sua experiência aqui, no intuito de enriquecer a reflexão.

Saudações literárias,

Arquivado sob Mercado editorial, Crítica, Escritores | 4 comentários »

O que nos diz a crítica literária?

admin em 21 de Setembro de 2009 @ 17:51

José Castello, “O Crítico Aprendiz”, O Globo, 12 set. 2009, Prosa e Verso, p. 4
critica - critica

No artigo, José Castello discorre sobre a crítica de um texto de um autor novo, primeiro livro. Aí, a nosso ver, está a tarefa da crítica, tão bem feita por Manoel Bandeira, ler os escritores estreiantes e apresentá-los ao mundo literário. A tarefa é difícil, sabemos. Mas qual a razão de uma crítica cujo objeto são somente escritores consagrados?

Selecionamos excertos:

“…diante de um primeiro livro, o crítico se vê obrigado a exercitar, mais que nunca, o fundamento de qualquer leitura: a capacidade de se assombrar.”


“Também escrever um primeiro livro é desconstruir-se, into é, livrar-se do que ‘naturalmente somos’. Nada há de natural na literatura. Não se escreve sem, antes disso, destruir um mundo.”


“ Mais que o corpo, é a linguagem que, despida de sua ilusória bondade, passa a nos falhar. Só quando revira e torce a linguagem, um escritor começa a escrever.”


“A literatura não se interessa pela civilização e pelo progresso. Ela não é a montagem de ideais, mas, ao contrário, sua desmontagem. Nada assegura que um romance escrito no século XX seja superior (um ‘avanço’) a um romance do século XIX. A literatura é indiferente à lógica dos relógios. É extemporânea.”


“A cada palavra que escreve (que lhe sai), o escritor desmente a palavra planejada. Nos livros de estreia, ainda temerosos de se arriscar, os escritores em geral se agarram aos ideais antigos de boa educação, desenvolvimento e progresso. Ocorre que as torrentes da escrita são mais fortes. Se o autor escreve para valer, elas logo o arrastarão para fora de seu caminho. A isso se pode chamar de destino.”

Arquivado sob Literatura, Mercado editorial, Crítica | 2 comentários »

Beth Finholdt no mundo da arte

admin em 14 de Setembro de 2009 @ 21:30

NOVOS ILUSTRADORES

abertura 1 - abertura 1
Nome | Beth Finholdt
Email |
beth.finholdt@terra.com.br
Blog | http://saymourglass.blogspot.com/ e http://bethfinholdt.blogspot.com/
Minibiografia | Nasceu no Triângulo Mineiro (Uberaba) em 24 de março de 1983. Filha de artista autodidata. Seu pai sempre trabalhou com propaganda artística. Desde cedo a levava para ajudá-lo a pintar painéis e letreiros; e, a partir dos 8 anos, ela pôde pintar telas no atelier do progenitor. Iniciou sua vida profissional como costureira. Foi um longo aprendizado autônomo com bordados, tricô, crochê, tapeçaria, corte e modelagem de vestuário, crafts… Desde 2003, procurou conciliar o trabalho de pintura e desenho com a costura, mas a pintura falou mais alto. Atualmente estuda Artes Visuais na UFMG, colabora como ilustradora freelancer para editoras como a Canto Escuro (Portugal) e Hemisfério Sul (Brasil) etc.


Fale sobre suas atividades como ilustradora
Beth | Ainda estou me familiarizando com o universo da ilustração. Procuro conhecer o trabalho de diversos colegas, pois acho fundamental se inteirar com o que está a nossa volta. Meu trabalho é mais artesanal, baseado em desenho e pintura.

3n beth - 3n beth

Como ilustradora, você fez trabalhos para o mercado editorial, como capa, ilustração interna de livro, revista? Conte-nos sua experiência nessa área
Beth | O autor Daniel Ricardo Barbosa me incentiva muito a estudar artes de uma maneira ampla. Em 2003 me apresentou o projeto de seu livro Os Nomes na Máquina, que achei fantástico, e propôs que eu fizesse as ilustrações internas e a capa. O mesmo se deu com a capa do livro Elo, Entrelinhas & Alucinações – publicados em 2008 e 2009 respectivamente e em ordem inversa. É muito bacana trabalhar a ilustração a partir da interpretação de um texto e espero fazer isso mais vezes.

345 beth - 345 beth

A escrita e a ilustração são linguagens distintas. Por isso cada uma tem suas particularidades. De acordo com sua experiência, o que é positivo e o que pode ser negativo na união dessas duas formas de linguagem? Fale também de seu contato com escritores e editoras
Beth | Para mim a escrita e a ilustração não são linguagens distintas, mas sim complementares. Elas têm a mesma origem e finalidade. Creio que a ilustração aliada ao texto aborda o expectador de uma maneira mais abrangente e vice-versa. Obviamente existem fatores culturais e sociais que direcionam a leitura que se faz tanto do texto quanto da ilustração.

Cancao beth 1 - Cancao beth 1

Conhece a SIB (Sociedade Brasileira de Ilustradores do Brasil) e a AEILIS (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil)? Acha importante que o ilustrador se filie a sociedades e comunidades de ilustradores?
Beth | Ainda não conhecia as instituições. Acho importante a existência dessas associações para a troca de experiências e apoio ao profissional de ilustração.

An  nimo beth - An  nimo beth

Comente sobre seu estilo de ilustração e influências
Beth | Acho que ainda não tenho um estilo de ilustração definido. Minhas influências não vêm necessariamente das HQ’s. As referências são da natureza e do dia a dia. Penso que o estilo de um artista é mutável, depende de pesquisas em que se trabalha, influência de cores, trabalhos de outros colegas, momento histórico e político…

Elo Imagem beth - Elo Imagem beth

Vi algumas de suas ilustrações e devo admitir que me lembrei muito do traço futurístico na animação Aeon Flux. Você pretende ampliar seu trabalho como capista de livros de ficção científica?
Beth | As minhas influências em ficção científica advêm principalmente de filmes como Jornada nas Estrelas, Matrix e livros como Spharion, de Lúcia Machado de Almeida e Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne. O mundo das HQ’s não me influencia diretamente. Até porque ainda não tive muito contato com ele. Mas fico feliz pela associação. Desde que o projeto me interesse, apresente-me alguma proposta que me desperte a atenção, estou aberta a trabalhos sobre qualquer tema – inclusive ficção científica.

 seis  2001beth -  seis  2001beth

Qual foi seu trabalho mais interessante?
Beth | Todos os trabalhos são interessantes, oferecem um desafio e trazem aprendizado. Foi muito bom fazer as ilustrações para Os Nomes na Máquina, pois cada desenho interpretava o universo de um personagem. Mas gosto igualmente de desenvolver ideias com pintura e diversos materiais.

Casa da praia - Casa da praia

Qual seu conselho aos ilustradores que estão iniciando a carreira agora?
Beth | Trabalhar com algo com que se tenha afinidade, em qualquer que seja a área de atuação, é fundamental. Aquele entusiasmo que sentimos se transferirá automaticamente para o trabalho.


Beth, agradecemos pela entrevista e desejamos muito sucesso!

Arquivado sob Design, Entrevistas, Escritores | 4 comentários »

Camila Fernandes

admin em 2 de Setembro de 2009 @ 13:02

NOVOS ESCRITORES
foto mila 1 2 3 4 5 6 7 8 - foto mila 1 2 3 4 5 6 7 8

Entrevistado: Camila Fernandes
Biografia por ela mesma | Paulistana, 28 anos, ilustradora, revisora de textos e escritora. Trabalhou por 6 anos como desenhista freelancer, deu aulas de computação gráfica e atualmente presta serviços à Mauricio de Sousa Produções, colorizando livros e revistas. Ainda atua como freelancer nas horas vagas, fazendo capas de livros e revisando textos.
Escreve | Escreve principalmente fantasia, mas prefere não se limitar a gêneros. Participou como contista de 7 antologias: Necrópole – histórias de vampiros (2005), Necrópole – histórias de fantasmas (2006), Visões de São Paulo – ensaios urbanos (2006), Necrópole – histórias de bruxaria (2008) e dos volumes I, II e III da coleção Paradigmas (2009).
E-mail | camilailustradora@gmail.com
Blog | www.camilafernandes.wordpress.com/ (textos)
Site | www.milaf.wordpress.com/ (ilustrações)
Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=17040084698518307776&rl=t/
Twitter | http://twitter.com/milaf/

Um gosto de Sampa
gostodesampamilafOK 1 2 - gostodesampamilafOK 1 2
Mila F.


Camila Fernandes, nome de batismo, é a escritora. Mila F., a ilustradora. Por que a escolha de nomes diferenciados para cada trabalho? Há alguma questão da influência do nome da escritora no trabalho de ilustração?
Camila | Eu assinava meu nome completo em minhas ilustrações e achava que ele ocupava espaço demais. Não queria reduzir para algo impessoal como C. Fernandes ou CF, então encurtei para Mila F. Tem funcionado, apesar de alguém sempre me perguntar se sou parente da Christiane F.


Como é conciliar o trabalho de revisora, ilustradora e escritora? Como é sua rotina?
Camila | É meio louca. Ilustrar e escrever são duas vocações; a primeira, sigo por profissão, a outra, por teimosia. Revisar textos é uma tarefa adicional que acabou surgindo por conta da minha paixão pelas letras. Por cerca de 6 anos atuei como ilustradora freelancer. É raro um profissional desse tipo ser disciplinado e a maioria de nós têm relógios biológicos ajustados para fusos horários mutantes. Eu trabalhava em casa, trocava o dia pela noite ou tinha uma semana inteira sem serviço nenhum para numa sexta-feira à tarde receber um projeto grande a ser entregue na segunda-feira de manhã. Eu bem que tentava existir em horário comercial, mas sempre fui da noite. Nessa época, tinha mais tempo livre para escrever, mas hoje vejo que o usava muito mal. Uma vida divertida, mas, como tudo o que é livre, muito incerta. Os trabalhos se alternavam entre revisão de livros e ilustrações para publicidade, especialmente endomarketing; daí quase nada do que eu fiz estar à vista do lado de fora das empresas, infelizmente. Por dois anos também dei aulas de Photoshop e Pintura Digital na Cadritech, ótima escola de arte digital. Hoje meus horários são mais normais na marra, já que trabalho de dia no estúdio de arte da Mauricio de Sousa Produções. Fora isso ainda faço alguns freelancers, escolhendo-os com mais critério, já que o tempo agora é curto, e aulas de dança 3 vezes por semana. No meio de tudo isso, não sei como, ainda encontro tempo para dizer que sou escritora. Não posso dizer que escrevo disciplinadamente, todo dia, como uma profissional. Eu escrevo quando dá: obsessivamente.


O processo criativo para a ilustração é muito diferente do para a escrita?
Camila | Para mim, são processos semelhantes, que envolvem suar bastante em cima das ideias, reescrevendo ou redesenhando partes até obter o melhor resultado. Surge um tema para um conto ou desenho e, à medida que esse embrião se desenvolve na mente, percebo quais são as lacunas que precisarão ser preenchidas com pesquisas. Ou o contrário: de um trabalho encomendado surge a oportunidade de explorar certo tema, sem argumento ou conhecimento prévio. Daí, parto direto para a pesquisa, começo a devorar referências e as idéias vão porejando na marra. Por exemplo: para ilustrar um guerreiro viking, precisarei conhecer seu biotipo, suas vestimentas, as armas que usava. Para escrever sua história, a pesquisa incluirá também a época em que viveu, os costumes de seu povo, suas ambições e os obstáculos que tinha de transpor para viver. Sou mais compulsiva na escrita que na ilustração: preciso me deter para não retocar demais.

Japonesas
japonesasmilafOK - japonesasmilafOK
Milla F.


Como é sua relação com a escrita? Quando começou a escrever contos e como é esse processo?
Camila | Como toda criança CDF eu escrevia boas redações. Quando adolescente, passei a escrever de maneira obsessiva. Tenho até alguns romances encalhados dessa época, o tipo de projeto faraônico que todo escritor novato possui. Hoje, mal consigo ler o que então produzia. Espero daqui a 10 anos não dizer a mesma coisa sobre o que escrevo agora, mas, se o fizer, ao menos será um sinal de que evoluí. Escrevi meus primeiros contos lá pelos meus 19, 20 anos. Depois, as facilidades da Internet me encorajaram a expôr meus escritos em comunidades dedicadas a literatura, onde eu podia fazer e receber críticas de outros autores, o que muito aprimorou o meu trabalho. Percebi que o conto era mais que um ótimo exercício para desenvolver estilo e ritmo de forma a um dia escrever um romance; era também uma forma literária legítima e atraente. Em 2004 passei para o papel lançando o NecroZine, publicação que criei junto com Alexandre Heredia, Gian Celli, Giorgio Cappelli e Richard Diegues. Era distribuído gratuitamente em eventos, na versão impressa, e na Web, em PDF, com a intenção de divulgar o nosso trabalho e reconhecer o terreno difícil onde pisávamos na época, o da literatura de terror. Com os mesmos parceiros publiquei meu primeiro livro, a coletânea Necrópole – histórias de vampiros. Creio que sempre tive um forte desejo de me comunicar, de contar histórias e exorcizar demônios. Encontrei minha via de expressão primeiro no desenho, depois na escrita – nessa, talvez, com maior intensidade. As motivações e os propósitos podem até mudar, mas a mania fica.


Do que já ilustrou e escreveu, quais são seus trabalhos prediletos?
Camila | Difícil dizer. Mas tenho um carinho especial por meu primeiro conto publicado em livro, “A casa dos loucos”. Foi minha primeira experiência com um texto encomendado, isto é, definido dentro de um tema e com tamanho limitado. Sonhei com algumas imagens loucas, a casa antiga, o quarto estranho e lisérgico, os personagens e sobretudo as sensações que tentei transportar para o conto. Nas ilustrações, gosto muito dos esboços que fiz em um sketchbook que eu carregava para todo lado. Normalmente, são retratos de personagens das minhas histórias. A absoluta falta de compromisso desses desenhos lhes dá uma espontaneidade que nem sempre consigo levar para meus trabalhos “sérios”. Esse é meu verdadeiro estilo, minha cara.


Pelo o que li de seus contos, percebi que você orquestra as personagens para que elas cumpram o destino mais apropriado à narrativa. Como é sua relação com a construção das personagens?
Camila | Dizem que quando você cria um personagem e lhe dá dimensões realistas a história se desenvolve naturalmente a partir dele e à sua volta. Deveria ser assim, mas nem sempre é. Eu imagino uma situação e faço uma pergunta: o que eu faria no lugar desse personagem? E se ele for alguém muito diferente de mim, como agiria? Se eu quiser escrever um conto sobre um assassinato, penso em quem morreu, quem matou e por quê. Que tipo de pessoa faria isso? Alguém normal, pressionado pelas circunstâncias e depois arrependido? Ou uma criatura imoral procurando eliminar um obstáculo? Se eu tiver uma situação de grande perigo, posso optar por um perfil heróico, que enfrentará a ameaça, ou pelo mais fraco, que irá se acovardar e fugir do problema. Às vezes, a opção mais improvável dá o resultado mais interessante. Brincar com os excessos e as falhas do caráter humano é um dos exercícios mais enriquecedores para o trabalho de um escritor. Frequentemente escrevo do ponto de vista do vilão. Tento ignorar concepções maniqueístas e não fazer com que meus protagonistas sejam apenas heróis ou covardes o tempo todo, afinal, não há nada mais chato do que personagens rasos, perfeitinhos. Você pode começar pelo personagem e ver a que tipo de situação sua personalidade irá levar ou começar pela premissa e encaixar as pessoas certas nos papéis vagos. Não precisa fazer sempre o mesmo caminho ou fórmula. Basta usar a criatividade sem perder a coerência.

Nicolae
nicolae03peqmilafOK - nicolae03peqmilafOK
Mila F.


Quando escreve, pensa em transmitir ao leitor uma mensagem definida? Você percebe se há alguma crítica/pensamento recorrente na base de suas histórias?
Camila | Não tenho a intenção de moralizar ninguém. Mas sempre que posso insiro alguma crítica bem sutil a comportamentos compulsivos da modernidade, como a vaidade desmedida, a competição social, males dos quais eu própria não escapo… Mais que um pensamento recorrente, a angústia e a insatisfação são combustíveis recorrentes para meus personagens. Creio que também exploro o sensual e o sensorial em quase tudo, talvez por eu própria sentir quase tudo na vida em excesso.


Nelson de Oliveira diz que a boa prosa é a que incomoda o leitor. O que você acha?
Camila | Concordo. Li recentemente esse trecho de uma entrevista com o Nelson no próprio Ofício Editorial e me entusiasmei com sua visão. Mas talvez eu trocasse a palavra “incomodar” por “causar”. Incomodar tem uma conotação algo negativa. Já causar, bem, pode-se causar qualquer coisa, desde intensa dor até intensa alegria. Gosto das obras que mexem com o que há de pior em nós, mas também dos que nos elevam e nos fazem acreditar em pessoas e mundos melhores. Os bons livros têm esse poder de nos tirar do lugar, manipular nossos sentimentos e verdades, nos sacudir por dentro. As melhores histórias marcam para sempre quem as lê.


Quais são seus autores e livros prediletos?
Camila | Não sou uma leitora fiel, minhas paixões nessa área mudam bastante. Mas posso listar as obras que mais derrubaram paredes na minha vida: Os Doze Trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brönte, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, O Físico, de Noah Gordon, a trilogia As Crônicas de Arthur, de Bernard Cornwell, e a saga Estação das Brumas, de Neil Gaiman, na extinta revista Sandman.


Em seu blog, você revela que está trabalhando em um livro solo. Fale sobre isso.
Camila | O livro é Reino das Névoas – contos de fadas para adultos. São sete contos inspirados na essência dos contos de fadas originais. Isto é, narrativas bastante antigas, que, antes de passar pelo polimento nas mãos de autores como Perrault, Andersen e os Irmãos Grimm, eram cheias de violência, traição, sexo, morte e até canibalismo. Os contos de fadas eram a novela do povo antes da invenção da censura e da televisão. Eram contados ao pé do fogo e destinados a entreter, ensinar e chocar, mexendo com os interesses mais mórbidos do ser humano. Meus sete contos são histórias novas, mas que se assemelham às antigas por falarem não só de heroísmo e glória como também de ambição, medo e brutalidade. Claro que há também contos belos, edificantes, bem-humorados. Mas é uma leitura adulta, para deixar longe das mãos das crianças. Cada conto terá uma ilustração de abertura. É um velho sonho meu escrever e ilustrar um livro, afinal, por que dividir se a gente pode juntar tudo? Há outros planos para livros, mas este é meu xodó no momento.


Para quais editoras você envia seus trabalhos como escritora e como é sua relação com elas?
Camila | Atualmente tenho participado das antologias da série Paradigmas, da Tarja Editorial. Seus donos, Richard Diegues e Gian Celli, são parceiros de longa data que começaram quase junto comigo no ramo literário. Depois que publicamos a coleção Necrópole com a Alaúde, eles abriram sua própria editora. Tive uma boa relação com a Alaúde, mas pelo seu foco editorial eu não acredito que ela se interessaria pelo meu trabalho hoje. Com Richard e Gian é natural que tenha também boas relações e pretendo enviar meus originais para eles antes de qualquer outra editora. A Tarja está fazendo um excelente trabalho em novos talentos da literatura nacional de fantasia e FC. No momento, não tenho contato com outras editoras da área. Se precisar, vou ralar para conseguir, mas já ajuda conhecer alguém que conhece alguém e por aí vai – por isso é importante o escritor cultivar uma rede de contatos dentro de seu ramo, exatamente como os publicitários fazem. Sei que é difícil publicar literatura fantástica no Brasil, mais ainda quando se é um autor pouco conhecido. Mas também sei que esse discurso se desgasta, pois o panorama está se transformando aos poucos e mais editoras estão passando a prestar atenção a esse nicho. Hoje temos a Tarja, a Não-Editora, a Terracota, a Novo Século, entre outras, e o número de publicações tende a aumentar. Assim como a qualidade.

Agradeço imensamente ao pessoal da Ofício Editorial pela oportunidade de responder às suas questões e falar um pouco sobre o que faço. Aproveito para parabenizá-los pela dedicação e pelo alto nível do seu trabalho no site. Valeu, pessoal!

Nosferatu
nosferatu01milafOK - nosferatu01milafOK
Mila F.


Nós que agradecemos. E aproveitamos para informar que quem quiser conversar com a Camila ou adquirir os livros com seus contos pode escrever para: camilailustradora@gmail.com, ou entrar no site da Tarja Editorial (Tarja Livros) www.tarjalivros.com.br

Arquivado sob Entrevistas, Escritores | 13 comentários »