A democratização do homem de letras: a questão das oficinas literárias
admin em 29 de Setembro de 2009 @ 13:34 | Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 1059
- “Não escrevemos por acaso. Temos necessidade de nos deixar ao outro e essa é uma atividade eminentemente humana” (Luiz Hermenegildo Fabiano).
Fazer um curso de pintura não faz obrigatoriamente de ninguém um artista. Saber alguns acordes no violão também não garante que alguém seja músico. Mas isso não nos impede de apreciar a arte e até nos permitir apreendê-la e exercê-la para nossa ludicidade e humanização.
Não que literatura seja somente talento, como também não o é a música ou a pintura. A técnica é importante, sim, para desenvolver a arte de escrever, como já nos disse Raimundo Carrero. No século XVI, a literatura latina era descrita como “ingenium et ars”, ou seja, a perfeita junção entre talento e técnica. Em latim, Ars, a Arte, não é sinônimo de talento, mas sim de técnica. Arte, portanto, não tem relação com inspiração, inclinação ou talento, mas, propriamente, com a habilidade advinda do domínio de técnicas. A literatura, como uma Arte, é também fruto da habilidade do escritor no manejo das palavras. Como em qualquer Arte, o diferencial do artista será sua sensibilidade, sua criatividade e sua habilidade. Como nos diz Clarice Lispector, viver só se aprende vivendo; assim podemos afirmar que muitas das facetas de um artista são fruto de sua vivência. Mas a técnica pode, sim, ser ensinada e aprendida. A artista plástica aprende sua técnica nos ateliês; o músico, nos conservatórios; e o escritor, na oficina literária.
O que quero tratar aqui é a questão da proliferação das oficinas literárias ou dos cursos de formação de escritores. De modo algum postulo contra eles, pelo contrário, acredito que, em virtude do fácil acesso dos escritores amadores ao mercado editorial – graças às edições do autor e das editoras sob demanda –, o grande número de obras no mercado prejudica a qualidade, já que grande parte das publicações muitas vezes é de obras que nem sequer passaram por um crivo crítico. Assim, as oficinas, trabalhando na formação dos escritores amadores, podem contribuir com a qualidade das obras que alcançam a publicação. Mais um ponto positivo das oficinas é que o escritor passa a conhecer outros escritores, criando assim uma rede de afinidade que possibilitaria a ajuda mútua, por exemplo, pela leitura e crítica dos escritos uns dos outros.
Ao terminar a oficina, o aluno seria então um escritor? É importante então refletir que não é porque se faz uma oficina de escrita (ou curso de formação de escritores) que alguém se torna escritor no sentido pleno da palavra.
Primeiro ponto a ser considerado: o escritor é um profissional da literatura. Isso quer dizer que, muito mais que escrever, ele tem uma prática de leitura tanto de textos de ficção, quanto de textos teóricos. O que se vê atualmente é que grande parte dos candidatos a escritor não têm uma prática de leitura, ou seja, não estudam os principais textos da literatura mundial. O escritor tem de ter uma reflexão acerca do fazer literário, da importância da arte literária, da contraposição da literatura como produto de consumo e como arte. Obrigatoriamente, tem de conhecer a fundo o gênero a que se dedica a escrever e conhecer seus contemporâneos. Não estou desejando afirmar que é preciso cursar a faculdade de letras para ser escritor. Mas é preciso ir além de gravar no papel reflexões que dizem respeito somente a si mesmo e depois querer transportá-las para o grande público. Para isso existe o diário.
Segunda questão: quem pode ministrar um curso de formação de escritores? Isso é um grande problema. Muitos dos professores dessas oficinas são desconhecidos do mundo literário. A questão não está somente no fato de ser reconhecido, mas na sua formação e se ele realmente tem experiência para transmitir aos alunos. Assim, é preciso antes de ingressar em alguma oficina procurar saber quem são os professores, sua experiência no mercado editorial, sua didática, a organização do curso. Conheça o curso e estude se a proposta realmente será eficaz com você. Mario Bellatin, escritor mexicano, dirige a Escuela Dinámica de Escritores , uma escola de formação de escritores em que se é proibido escrever como exercício da escola. O grupo francês Oulipo propõe exercícios de restrição (como, por exemplo, não usar o artigo “a”, não usar adjetivo algum) como superação e aperfeiçoamento da técnica. Propostas de didática existem na maior variedade possível.
Como diz Raimundo Carrero , “O trabalho literário exige disciplina e método”. Assim, se você deseja ser escritor, invista em sua carreira. Escreva muito, sim. Mas leia muito mais. Busque os clássicos, busque os escritores contemporâneos, busque os críticos. A literatura é uma profissão, então precisa de empenho e dedicação.
Gostaria de convidar as pessoas que fizeram alguma oficina literária ou curso de formação de escritores a relatarem a sua experiência aqui, no intuito de enriquecer a reflexão.
Saudações literárias,
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4 comentários para “ A democratização do homem de letras: a questão das oficinas literárias ”
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A democratização do homem de letras: a questão das oficinas literárias | Alessandrolândia 29 de Setembro de 2009 @ 19:37 1
[…] A democratização do homem de letras: a questão das oficinas literárias – Fazer um curso de pintura não faz obrigatoriamente de ninguém um artista. Saber alguns acordes no violão também não garante que alguém seja músico. Mas isso não nos impede de apreciar a arte e até nos permitir apreendê-la e exercê-la para nossa ludicidade e humanização […]
André HP 30 de Setembro de 2009 @ 17:57 2
Não sei se todos os escritores gostariam de ser profissionais. Conheço muita gente que publica livros para os amigos, e etc. Nesse caso, uma oficina é supérflua.
Discordo que arte seja inerente à técnica. Alguns estilos artísticos são peculiares ao ponto da inexistência ou flexibilidade absurda da metodologia técnica.
Já não basta o jornalismo para ater na linguagem objetiva e tecnicista.
Sem restrições ou angulações.
Arte pela arte.
Abraço!
Brontops 30 de Setembro de 2009 @ 18:43 3
Oi
Achei interessante sua observação:
“Fazer um curso de pintura não faz obrigatoriamente de ninguém um artista. Saber alguns acordes no violão também não garante que alguém seja músico. Mas isso não nos impede de apreciar a arte e até nos permitir apreendê-la e exercê-la para nossa ludicidade e humanização.”
Pois é. Talvez tocar violão na praia para os amigos (Legião ou Raul) seja o equivalente na música ao significado de escrever e colocar suas ideias em blogues (crônicas ou diários) pela Internet.
Ao contrário do que disse o amigo anterior, acho que a técnica ajuda sempre. Eu sei que existem aqueles pássaros para os quais uma gaiola atrofiará sempre as asas e o voo. Mas há aquelas aves que a gaiola só ensina como ser livre. (A imagem é cafona e “zoologicamente” incorreta, mas acho que serve)
Liberdade não é libertinagem, nem “faça-o-que-quiser-salve-se-quem-puder”. Sempre existem limites. Não é porque o cara é artista q o kra vai phalar que this is korrected.
O mínimo que uma oficina faz ao apresentar o texto para outros (pretensos) escritores é fazer o cara ter consciência do seu texto, se enxergar… Como no teatro, o cara precisa ter noção do próprio corpo, do gestual que está empregando. Muitas vezes, o cara escreve e não tem certeza se está passando a emoção ou a mensagem correta. Não é como a música: é difícil de perceber se estamos desafinando… Ao menos, o é para mim. Precisamos do bom ouvido do outro. Ou do bom leitor.
Abs
sleejensefuby 28 de Novembro de 2009 @ 15:27 4
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