Arquivo de Outubro de 2009

Entre o colunismo literário e a crítica

admin em 31 de Outubro de 2009 @ 20:04

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Com o advento das mídias de massas nos anos de 1970 – no Brasil –, a indústria de bens culturais toma corpo em nosso país, e esse fenômeno provoca mudanças significativas em todas as formas de arte, o que não exclui a literatura.

Nesse momento, o que está em jogo é uma mudança de paradigma. A arte – fruto da originalidade, da criação autoral, do valor estético – passa a funcionar de acordo com a lógica da indústria – produção em série, repetição, ausência de autoria –, o que tem consequências profundas para a sua forma. Há muitas divergências em relação a esse tema. Muitos teóricos defendem, em partes, a entrada da arte na lógica da indústria, pois percebem essa mudança como democratização da arte das elites em vistas de um acesso para um público mais amplo. No entanto, não é este o ponto desta discussão.

A questão principal é que valores permeiam a crítica desse tipo de arte, ou qual é o lugar da crítica dentro da lógica da reprodutibilidade.
Não é estranho a nenhum de nós, amantes da literatura, adquirir os jornais e ir, logo, em busca do suplemento literário, no intuito de verificarmos as novidades do mundo das letras. Mas o que encontramos na maioria desses suplementos, diferentemente de “crítica”, é o “colunismo literário”.

Colunismo literário é um termo cunhado já por Antonio Candido (apud Pellegrini, p. 165), que faz referência aos textos, geralmente escritos por jornalistas. Textos estes que, ao invés de estarem comprometidos com a qualidade literária (aspectos estéticos e, portanto, humanizadores), estão relacionados ao marketing do produto livro. Portanto, servem apenas de resumo, reproduzindo o desejo mercadológico de venda do produto. Assim, os que se autodenominam críticos literários, muitas vezes não passam de reprodutores das lógicas do mercado, o que é uma atitude totalmente contrária à crítica.

O principal problema que vem à tona é a influência que esses “críticos” têm em relação à massa de leitores (sendo este número já bastante reduzido), portanto, “formam” (ou deformam) opinião. Esses colunistas literários, muitas vezes, são “patrocinados” pelas próprias editoras, pois recebem os livros, escolhem frases que chamam a atenção do leitor para que este tenha o desejo de consumi-lo, e reproduzem isso, geralmente com um texto de linguagem acessível (poética, muitas vezes), que, longe de uma análise realmente crítica, tem status de propaganda. Nada contra a resenha jornalística, a informação sobre um livro, mas – convenhamos – assim é fácil fazer “crítica”. É fácil elogiar Machado de Assis. É engrandecedor poetisar sobre um novo texto de Gabriel Garcia Marquez. Mas onde está a coragem e o verdadeiro conhecimento literário? Onde está o crítico literário que avalia os livros de escritores não consagrados e aponta aos leitores e a seus pares os erros e acertos?

Segundo Tânia Pellegrini,

“[…] o que se pode perceber, então, é que o crescimento editorial, se não estimula a reflexão crítica – muito pelo contrário, pois o interesse é vender livros e não analisá-los – estimula a ampliação do espaço para a literatura da imprensa, pelo mesmo motivo: notícias, resenhas, colunas, comentários […] sempre colocam o objeto-livro em evidência” (p. 168).

Recomendamos a leitura de A imagem e a letra, de Tânia Pellegrini (Mercado de Letras, 1999). Um bom livro que discute um pouco sobre esse tema.

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Roberto de Sousa Causo e a Ficção Científica

admin em 17 de Outubro de 2009 @ 16:15

Escritor – geração 90
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Roberto de Sousa Causo
Biografia |
Causo foi atendente de biblioteca, ilustrador editorial e publicitário (free-lancer), antes de publicar profissionalmente o seu primeiro trabalho, o conto “A Última Chance”, na revista semiprofissional francesa Antarès — Science fiction et fantastique sans frontières. Desde então tem publicado profissionalmente pelo menos uma história por ano, frequentemente mais. Causo também exerceu e exerce atividades editoriais relacionadas à ficção científica e fantasia no Brasil (fonte: Wikipédia).
Blog | http://rscauso.tripod.com/
E-mail | rscauso@yahoo.com.br
Colunista | http://terramagazine.terra.com.br/colunistas/robertocauso.
Livros |

  • A Dança das Sombras. Editorial Caminho, 1999.
  • Terra Verde. Grupo Editorial Cone-Sul, 2001.
  • Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950. Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2003.
  • A Sombra dos Homens. Editora Devir, 2004.
  • Organização de Histórias de Ficção Científica, Editora Ática, 2005
  • A Corrida do Rinoceronte. Editora Devir, 2006
  • Organização de Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, Editora Devir, 2008.
  • O Par: Uma Novela Amazônica. Humanitas, 2008.
  • Organização de Rumo à fantasia, Editora Devir, 2009.

Além de escritor, você também é pesquisador e crítico da Ficção Científica no Brasil. Na USP, você cursa mestrado também nessa área? Qual é sua pesquisa no meio acadêmico?
Roberto |
Estou no programa de pós-graduação em estudos de literatura e língua inglesa, com um projeto sobre ficção científica brasileira, de enfoque comparativo com a FC anglo-americana, especificamente os movimentos New Wave (da década de 1960) e Cyberpunk (da década de 1980), que representam a inserção e o estabelecimento do pós-modernismo na FC. Além dessa pesquisa de mestrado, tenho publicado artigos em revistas e antologias acadêmicas no Brasil e no exterior. Me interesso por todos os campos de pesquisa dentro do assunto ficção científica e fantasia no Brasil. Ultimamente tenho pesquisado conceitos como pulp fiction e também a história do fandom brasileiro de FC. Fandom é palavra que designa a comunidade de fãs e autores de ficção científica.

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Temos muitos estudos acadêmicos sobre os diversos gêneros dentro do romance. Você acha que a área acadêmica no Brasil carece de estudos sobre a literatura de Ficção Científica e fantasia? Faz falta um estudo de memória da literatura de FC Fantasia no Brasil?
Roberto |
É preciso reconhecer que estudos acadêmicos sobre FC existem no Brasil desde a década de 1970, provavelmente desde o infame livro de Muniz Sodré, A Ficção do Tempo (1973). Antes desse livro, a intelectualidade brasileira já havia abordado o gênero, nos cadernos e revistas de cultura. Mas nos últimos cinco ou seis anos, graças à entrada de um número substancial de jovens interessados em FC, nos programas de pós-graduação de universidades de norte a sul do Brasil, o gênero tem se tornado bem mais presente nos estudos acadêmicos. Eu acredito, porém, que esse potencial mal foi arranhado.

A questão da FC brasileira como assunto desses estudos é mais delicada, porque o corpus é menor e são raros os autores brasileiros que possuem uma produção numerosa e realmente interessante, que justifique uma pesquisa mais aprofundada.


A ficção especulativa seria um rótulo que englobaria a ficção científica, a fantasia e o horror. Por sua vez, dentro de cada um desses gêneros há mais subgêneros. Há alguma pesquisa que discorra sobre todos esses desdobramentos? Essa classificação em vários subgêneros é um diferencial desse campo de literatura?
Roberto |
Certamente. Toda essa “taxonomia” da ficção especulativa (um termo que, no mundo de língua inglesa, abarca a FC, a fantasia e horror) foi formalizada nas páginas de The Encyclopedia of Science Fiction (1993), editada por John Clute & Peter Nicholls, e de The Encyclopedia of Fantasy (1996), de John Clute & John Grant. Como a terminologia e vários conceitos acerca da FC e da fantasia nasceram nas páginas das revistas especializadas e dos fanzines, esses dois livros formalizaram e discorreram sobre tudo isso, e se tornaram a fonte de uma linguagem internacional que norteia as discussões, as abordagens e até mesmo as pesquisas acadêmicas. É um caso único, que uma conceitualização espontânea de um gênero popular tenha esse impacto na crítica acadêmica, formal.

FC e fantasia são gêneros ricos, multifacetados, mas ao mesmo tempo muito reconhecíveis por certos elementos e conjuntos temáticos. Eles formam subgêneros, de modo que um romance de viagem no tempo de hoje, por exemplo, terá que dialogar com uma longa linhagem de outras obras que vêm do século XIX até o presente. Não se trata de uma intertextualidade estanque, mas essas classificações fornecem eixos inevitáveis de diálogo e de interpretação. E o mesmo com outros subgêneros ou tendências. Daí a necessidade de se falar em subgêneros — FC hard e soft; histórias de viagem no tempo ou de exploração espacial; cyberpunk, steampunk; futuro próximo ou futuro distante; histórias de mutantes, super-homens ou de alienígenas náufragos na Terra… Ou, na fantasia, de alta fantasia, fantasia heróica, histórica, contemporânea, urbana, etc., etc. Fala-se inclusive que o leque de subgêneros e de abordagens é tão vasto, que eles não seriam um gênero propriamente, mas todo um campo alternativo de literatura, quando comparados ao mainstream literário. (Recentemente, a acadêmica Farah Mendlesohn ressuscitou essa hipótese, na introdução de The Cambridge Companion to Science Fiction, de 2003.)

Essa problemática se torna ainda complexa quando nos lembramos que a maior parte da FC brasileira é composta de obras escritas por autores do nosso mainstream que, por uma razão ou outra, voltaram-se para a FC em um momento de suas carreiras. Neles, essa intertextualidade específica é atenuada pela presença de valores literários próprios da alta literatura ou ficção literária. Ao mesmo tempo, a atenção dos fãs está concentrada num olhar lateral — voltado para os parâmetros da FC anglo-americana. Isso gera um certo descompasso, um embaraço raramente reconhecido, e argumentos e discussões frequentemente redundantes ou desinformados sobre o que é ou deveria ser a FC.


Ainda sobre a pergunta anterior: essa segmentação do gênero pode ser prejudicial para o leitor e o escritor? Por exemplo, para o leitor, ele se limita a ler somente um gênero dentro da FC? E para o escritor, também não seria uma limitação à criação?
Roberto |
Há puristas em todos os gêneros, eu suponho. Vide a polêmica recente entre autores contemporâneos da “Geração 90” e Milton Hatoum e Bernardo Carvalho, discutindo a predominância do tema urbano e violento na literatura brasileira. Ou aqueles que dizem que o chamado movimento da “literatura marginal” (escrita por favelados, presidiários e suburbanos) tem apenas interesse sociológico e não literário. No campo da FC, os puristas mais chatos são aqueles fãs da FC hard que vivem dizendo que isto e aquilo “não é FC” porque violam as regras da plausibilidade científica. Outros são aqueles que perseguem os modismos como o cyberpunk, a new space opera ou o New Weird… Na fantasia, autores e leitores perfeitamente satisfeitos com duendes, elfos e anões em seus livros, mas que rejeitam sacis e caaporas. No horror, aqueles que apenas lêem ficção sobre vampiros… E os escritores mainstream que se aventuram no gênero repetindo velhos esquemas satíricos ou produzindo especulações inconsistentes em torno de assuntos atuais como clonagem, engenharia genética e realidade virtual.

Então me parece que não é o fato de existirem divisões e conceituações, mas sim as atitudes e preferências pessoais que são generalizadas e utilizadas como baliza pelas pessoas. A literatura, para o descontentamento tanto do leitor ou escritor zelota, quanto do teórico literário, é o terreno do imponderável e do surpreendente. E a ficção especulativa cumpre muito bem esse papel de maravilhar, desautomatizar e surpreender — se o leitor, escritor ou crítico tiver a mente aberta.

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Você nos disse uma vez que há muita confusão entre a fantasia e o fantástico. Poderia explicar o que define cada um deles?
Roberto |
No caso dessa confusão, que existe especificamente no seio do fandom, na verdade não se trata de uma questão de estrutura, mas de estatuto literário. Fantasia é um gênero popular, nascido da atmosfera do Romantismo Europeu no século XIX, misturando pesquisa folclórica, mitos, novelas de cavalaria, romance histórico, mito e religião, e que desemboca no século XX nas páginas das revistas especializada como Weird Tales. Os seus protocolos de escrita e de leitura são populares — eles se baseiam em protagonistas fortes que vivem aventuras fabulosas, descritas, paradoxalmente, de maneira realista. O fantástico também surge no século XIX mas tem um estatuto menos popular e mais “literário”. A fantasia como gênero é feita para abrigar o leitor em um mundo mágico ou sobrenatural, onde o leitor vai acompanhar um protagonista que é capaz de lidar com essa magia; no fantástico, o leitor, assim como o protagonista, tende a assumir uma atitude mais passiva — o fantástico existe ali como o absurdo, o grotesco, a loucura ou como alegoria da arbitrariedade da vida, da condição humana na modernidade ou coisa que o valha. São posições quase antagônicas, embora se cruzem com certa frequência.

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As obras de ficção científica parecem estar voltando também às salas de aula. Em meu tempo de estudante, tínhamos a coleção Vaga-lume, indicada como leitura complementar na escola, com histórias como Spharion. A Ática parece estar investindo nessa literatura. Na sua opinião, a escola poderia tomar como leitura obrigatória uma obra de ficção científica? Esse gênero estaria mais próximo do jovem leitor? O conto de FC e fantasia, por sua extensão, não seria um ótimo material para o professor trabalhar em sala de aula?
Roberto |
Como muita gente, eu tendo a rejeitar a ideia de leitura obrigatória. Mas como me lembro com muito afeto da biblioteca da escola em que fiz o ensino fundamental, sou muito a favor da disponibilidade de ficção científica nas bibliotecas escolares — e também nas salas de aula, como fomentador de discussões eletivas, se isso for possível. Montei para a Ática, na coleção Para Gostar de Ler, a antologia Histórias de Ficção Científica, com contos de autores brasileiros e estrangeiros, e ela foi comprada pela Prefeitura de Belo Horizonte para alimentar as suas bibliotecas.

Ainda não sei dizer qual é a posição da FC nas bibliotecas ou escolas. Surpreendentemente, há uns dez anos se assumia que gêneros como o horror eram mais populares nesses ambientes do que a ficção científica. Eu suponho que agora, com assuntos como o cosmonauta brasileiro, o aquecimento global, a destruição do meio ambiente, a exploração do pré-sal, etc., a FC se torne mais atraente para professores e alunos.


Sobre sua produção literária, seu primeiro romance publicado foi A Corrida do Rinoceronte? Como foi a história da publicação desse livro?
Roberto |
Eu terminei o primeiro rascunho em algum momento do começo deste século, enviei-o a algumas editoras, que o rejeitaram. Então o enviei à Devir, que havia publicado o meu livro de contos de fantasia heróica A Sombra dos Homens em 2004. Douglas Quinta Reis, o Diretor Editorial da Devir, gostou do romance e fez com que ele fosse publicado em outubro de 2006. O livro recebeu boas resenhas — a maioria fora da imprensa cultural —, exceto por uma que saiu em uma revista virtual, que foi aquilo que os americanos chamam de killer review: uma resenha que destrói o livro abordado. Essa resenha se centrou na questão racial, que o livro aborda, mas curiosamente não mencionou nada do seu elemento mais saliente, que é o elemento fantástico.

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Sua obra mais recente – Rumo à Fantasia – como foi a sua organização, produção e seleção de escritores convidados? Fale-nos um pouco sobre ela.
Roberto |
Rumo à Fantasia é uma tentativa de produzir uma antologia internacional de fantasia que sustente a hipótese de esse também é um gênero multifacetado. Assim, temos histórias de autores norte-americanos, de um canadense e um português (Eça de Queiroz), com uma maioria de brasileiros, mas histórias com diferentes abordagens. A seleção dos contos obedeceu a critérios práticos: autores estrangeiros com quem eu já tinha contato, para poupar tempo e dor de cabeça à editora, em termos de contatos e negociação de direitos autorais. E contos brasileiros que eu já havia, em sua maioria, selecionado para a revista Quark, quando fui editor de ficção dessa publicação criada por Marcelo Bandini. A revista existiu apenas durante 2001, e muitos contos programados para sair no ano seguinte ficaram pendurados. Então incluí-los na antologia foi um modo de homenagear o trabalho de Baldini e de reforçar aos autores o meu interesse por suas histórias. Alguns contos, como os de Braulio Tavares e Daniel Fresnot foram incluídos porque abrem caminhos para uma fantasia mais brasileira, que reconhece o material que é fonte da fantasia na própria cultura brasileira: os ecos do medievalismo ibérico nas tradições populares nordestinas, por exemplo. Curiosamente, a maioria dos contos se alinha a um eixo temático que valoriza a morte como tema central — a vida após a morte, o medo da morte, a persistência de compromissos, dívidas e valores após a morte. Isso, eu acredito, ajuda o volume a se tornar mais significativo e memorável ao leitor. Ou é o que eu espero.

Haveria muito mais a ser incluído em um projeto como este, mas um livro de cerca de 200 páginas tem os custos de produção e o preço final ideais, ao meu ver. A capa é uma excelente arte do ilustrador Vagner Vargas, um dos melhores artistas de FC e fantasia do Brasil. Ela também já existia como um trabalho do portfólio de apresentação desse artista.


Temos uma grande preocupação com o escritor ainda em formação. Como foi o início de sua história como escritor? Como foi o caminho percorrido até a publicação do primeiro romance? O que recomenda ao escritor estreiante?
Roberto |
Como muitos escritores de ficção científica e fantasia da minha geração, comecei como fã desses gêneros, escrevendo contos curtos e muito tentativos para as páginas de fanzines como Hiperespaço, Boletim Antares e Somnium. Minhas primeiras histórias apareceram nos fanzines em 1985 e 86, minhas primeiras publicações profissionais em 1989 e 1990. Participei de concursos amadores e profissionais e venci alguns deles, como o Prêmio Jerônimo Monteiro (1990), da Isaac Asimov Magazine; o III Festival Universitário de Literatura (2000) e o 11.º Projeto Nascente (2001). O fato é que desde 1989 que publico profissionalmente pelo menos um texto de ficção curta, e até a publicação de A Corrida do Rinoceronte toda a minha produção foi de contos e novelas. Meu currículo é uma colcha de retalhos de contos publicados em revistas masculinas, científicas, de história em quadrinhos, literárias, acadêmicas e até de ficção científica propriamente! Publiquei em revistas e em antologias no Brasil, na Argentina, Canadá, China, Finlândia, França, Grécia, Portugal (onde saiu o meu primeiro livro de contos, A Dança das Sombras, em 1999), República Checa e Rússia. Há nisso um certo abandono próprio do escritor de ficção de gênero, que deseja antes de mais nada publicar, se remunerado por isso, e que adere menos à preocupação do escritor de ficção literária, que é a de criar um currículo literário distinto.

Atualmente, o escritor novato não tem mais os fanzines como opção de um espaço em que seus primeiros trabalhos podem aparecer e ser avaliados pelos fãs. Hoje é a Internet que realiza essa função. Ao invés de passar pela via crucis de procurar mercados para ficção curta em revistas dos mais diversos tipos, ele pode recorrer àquelas editoras, existentes em bom número, que acolhem textos em antologias, em regime de cooperativa, em que cada autor “compra” uma quota da produção ou número de exemplares da antologia. O primeiro conselho aqui é escolher uma editora que trabalha assim mas que seleciona o material; isto é, uma que aceitará o seu trabalho porque você está pagando e porque ele é publicável, e não apenas porque você está pagando. E o segundo conselho — certamente o mais importante — é o de não se contentar com essa prática; quer dizer, tentar fazer a transição, o quanto antes inclusive, de pagar para ser publicado, para ser pago para ser publicado.

A Internet é a grande ferramenta nesse processo, especialmente aqueles fóruns e comunidades que congregam fãs e profissionais. Mas a educação do escritor tanto no mercado quando nas questões literárias pelas quais ele será julgado pela crítica ou pela história literária obrigatoriamente vão além da Internet. Estão nas revistas literárias e nos cadernos de cultura dos grandes jornais, nas livrarias e nos eventos literários. Observe, frequente, estude e investigue. Pense em contratar um agente literário, se achar que está pronto para tentar as grandes editoras, mas estude as condições, os autores que com quem ele já trabalha, e que ônus essa contratação trará a você.

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Quais são seus escritores e obras preferidos?
Roberto |
Na ficção científica, Orson Scott Card, Ursula K. Le Guin, David Brin, Joe Haldeman, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, Richard McKenna, Braulio Tavares, Ivanir Calado, Bruce Sterling e Philip K. Dick. Na fantasia, Robin Hobb, Fritz Leiber, Robert E. Howard e Barbara Hambly. No horror, Stephen King, Stephen Gallagher e Dan Simmons. Fora da ficção especulativa eu acompanho Robert B. Parker na ficção de detetive e gosto dos faroestes de Elmore Leonard. Outros autores favoritos são Anton Myrer (que escreveu alguns romances fabulosos de ficção militar, como The Big War e Uma Vez uma Águia), David Poyer, Pat Conroy e Cormac McCarthy. Sou admirador de Ernest Hemingway, William Faulkner, Carson McCullers, John Steinbeck, Afonso Schmidt e Richard Wright. Acho que tenho alguma predileção por autores do Sul dos Estados Unidos, mas também gosto da ficção militar de Poyer e de Laine Heath.

Uma Vez uma Águia é meu romance favorito, aquele que eu gostaria de ler todo ano, embora tenha 1.100 páginas. Na ficção científica algumas das obras que mais me impressionaram são aquela FC antropológica, de base científica mas com um olhar humano, como Orador dos Mortos, de Orson Scott Card; A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin; e Solaris, de Stanislaw Lem. Gosto de space opera pois cresci lendo a série alemã Perry Rhodan, mas tenho encontrado dificuldade para encontrar uma space opera atual que combine ficção militar e que eu realmente aprecie — talvez por isso tenha resolvido escrever a minha própria série de space opera militar, “As Lições do Matador”, cuja primeira história, “Descida no Maelström”, apareceu este ano na antologia Futuro Presente, de Nelson de Oliveira.

Na fantasia eu gosto muito da trilogia Farseer, de Robin Hobb, e das histórias da Fahfrd e Grey Mouser de Fritz Leiber. No horror, tudo ou quase, que Stephen King escreveu.

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Agradecemos Roberto Causo pela entrevista e desejamos muito sucesso em sua pesquisa acadêmica e em sua vida literária!

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De poesia e de medo

admin em 15 de Outubro de 2009 @ 23:27


Em uma oficina literária com Andréa del Fuego, uma das participantes, no meio de todos nós, declarou que não escrevia poesia pois tinha medo. Achei aquilo brilhante e nela descobri também a explicação para minha relação com a poesia. Eu também tenho medo. Medo como medo de criança, que vislumbra o proibido por entre os dedos que tentam esconder os olhos. Medo do desconhecido, que mistura fascínio e reverência. Medo que obriga a reconhecer-nos diante de algo muito maior do que nós mesmos, pois nos envolve e a tudo em um simples verso. Verso pensado para transmitir o todo de forma exata, planejado com a exatidão do cálculo estrutural para tomar a forma da impossibilidade e leveza arquitetônica.

Convidamos um amigo querido para nos falar sobre poesia e o que ele fez? Enviou-nos poemas. Certamente, brilhante.

ricardo - ricardo

Perfil poeta| Ricardo Miyake
Biografia por ele mesmo| “He´s a real nowhere man/Sitting in his nowhere land/making all his nowhere plans for no one..” (Lennon e McCartney)
Blog| Arquitetura das Palavras
E-mail| rmiyake@uol.com.br
Livro Publicado: Livro de Coisas, editora ComArte

Poética II

Em palavras de farpas
Sob unhas longas e sonhos breves
Escrevo poemas de amor
Desapaixonadamente
Em vozes dores hiatos

Mas não os escrevo na verdade
Só o que digo me aclara
Os fatos.

Poemas de amor são escritos
Por homens restritos
Exatos.
(In: Livro de Coisas)

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Poema para quem está distante

para Julia Medrado

Ainda tenho nas mãos o perfume que tu usas,
E teu riso ainda faz eco nos corredores
Onde andavas, distraída. Tu me olhas
No retrato, imagem que paira longe
E entra pela janela sem venezianas.

Faz frio onde tu estás, as pessoas
Não te querem por perto, e o gosto
Do refrigerante de guaraná permanece
Memória que dói, fisgada no meio da perna,
E te pegas ao vazio da praça sem nenhum sono.

O que posso fazer senão te acenar
Do lado de cá do mar que nos aparta?
Os navios ancoram ao largo, à tarde
Automóveis negros trafegam aos roncos,
E nada se pode dizer senão o incerto;
Dança que não valeu: ninguém por perto.

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Nenhum sonho

para Maíra

No fundo da floresta os lobos rondam,
Mas, organza sobre o rosto, tu contemplas
O sol aos poucos sumindo, a trilha aberta
E, sem querer, teus olhos de sono piscam.
Tu, entretecida, sorris: é quase um nada

Entre o que tiveste e o que te deram,
E isso não é amor, essa fenda ensangüentada;
Também não é paixão - espinho que te fere o ventre.

E os lobos, extenuados, voltam a suas tocas
Ao te levantares no silêncio que te expressa
Em meio às sombras desenhadas sobre o musgo,
O sol que desmaia, seus braços, nenhum sonho.

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Paisagem com vermelho ao fundo

Soprava um vento de suspender os gritos
No lusco-fusco em lâmpadas amarelas,
E tu entraste com teu riso de rosas
Aquecendo as mãos desfeitas pelas águas
Onde resolveste guardar-te dos barcos.

Apenas te olhei, buscando no fundo de
Teus minérios a partilha que fizemos,
Oco dos corpos de gelo e pedra,
Tua face desfeita – sal e água –
Apenas te olhei – e não vi nada.

Agora os carros passam na avenida,
O vento ainda diz que está presente,
E eu, sem remissão, mastigo o vidro
Da lâmpada amarela, enquanto atravessas
Em meio ao trânsito, teu corpo, sem parar.

16/06/2004



Saudações, Ricardo! Agradecemos pela permissão que nos deu para reproduzir aqui esses seus poemas. Quem se interessar pelos poemas do Ricardo, escreva para ele, ok?

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O narrador no romance brasileiro: ética e estética, Jaime Ginzburg (FFLCH-USP)

admin em 5 de Outubro de 2009 @ 13:23

jaime ginzburg 1 - jaime ginzburg 1
Foto fonte: www.spanport.umn.edu/news/images/JGinzburg.jpg , www.spanport.umn.edu/news/events.php

Apresentação realizada no colóquio Escritas da Violência “Representações da violência na história e na cultura contemporâneas da América Latina”, no dia 9 de setembro de 2009.


Nesse colóquio, o professor Jaime Ginzburg (FFLCH-USP) presenteou a plateia com uma provocação: a aproximação da ética e da estética à literatura. A partir dessa palestra, resumimos alguns itens e pensamos em outros. Não culpem o professor por esse post, ok? É uma releitura livre e limitada de uma palestra brilhante.


A Ética pode ser considerada por dois fatores: as convicções pessoais (crenças e valores), que compõem o campo privado, e as leis formais do Estado, que compõem o campo público. O campo de estudo da ética seria o do conflito entre o público e o privado, naquilo que fica como indefinido entre os dois. Daí podemos supor que o problema da ética é o do critério de escolha.


Na estética, o ângulo do qual se fala da obra de arte é também uma questão de escolha. A escolha do foco narrativo estabelece o que é e o que não é relevante para se contar a história.


A indeterminação ética em se definir o que é certo e o que é errado pode ser associada à indeterminação em relação ao foco narrativo. Vale pensar isso para uma teoria do narrador, da narrativa (baseado em Adorno, em A posição do narrador no romance contemporâneo).


Extrapolando a palestra, pensamos os mecanismos da narrativa, no que possibilita que a obra, em sua história e forma, seja definida pelo escritor. Ambas estão relacionadas às técnicas narrativas: ética e estética como decorrentes da história que é narrada, no conflito apresentado, no que as personagens decidem ou não contar. Na literatura, a qualidade de uma obra define-se não somente pelo conteúdo, pela história narrada, mas pela forma, as técnicas usadas na narrativa. Aos dois podem-se agregar valores como enriquecedores, como, por exemplo, o uso da metalinguagem (para expor a incerteza, como Clarice Lispector); a exploração da tragédia, no sentido de que a atribuição maior de sentido à vida é conquistada quando a vida se perde (exemplo, A hora da estrela).
Algumas tendências do romance brasileiro foram elencadas e nos permitimos acrescentar outras:

  • Voltar ao mesmo tema: como que se houvesse, no cânone literário brasileiro, um “inconsciente historiográfico”:
  • Memória da dor: a memória da perda, o narrador melancólico, que tem a memória da perda e não consegue superá-la (a base teórica para o estudo da melancolia: Walter Benjamin). A melancolia é o elemento para a revelação da finitude humana; é a motivação criativa de uma forma de produção de conhecimento, na narrativa é a investigação sobre o passado de um personagem, é o personagem tentando encontrar a solução para uma memória do passado, procurando sua remissão aos olhos do leitor);
  • Imagem da mulher: o personagem principal se constrói sob efeito da ação ou memória de uma personagem feminina. A mulher aparece como não compreendida pelo protagonista, normalmente à mulher é associado o sacrifício. A sua morte sempre é carregada de significado (cada tipo de morte, carrega um significado: acidental, assassinato, suicídio);
  • Escolha do foco narrativo: o narrador comenta sua narração (metalinguagem);
  • Não há segurança na narração. Os narradores não sabem como contar a história e não distinguem com propriedade o certo do errado. Sua fala se contradiz à sua ação, a dúvida é crucial, o conflito não pode ser previsto ou diminuído etc.;
  • Não há equilíbrio entre dano e reparo: a memória do passado se revela como forma de procurar a justiça, o que era correto, mas isso não se concretiza no presente da narrativa;
  • Conexão entre forma e tema: a forma de constituir a narrativa é tão importante quanto o tema a ser tratado. Por exemplo, em uma história em que o tema é a dor, a forma pode ser a da fragmentação;
  • A narrativa não pode menosprezar a dúvida, o conflito e a morte.


A realidade no romance é a que o escritor cria. Ela há de ser verossímil para o leitor. Se os escritores, na corrente literária francesa Oulipo, são vistos como ratos que constroem seus próprios labirintos e depois se propõem a sair, a literatura poderia ser o labirinto, e, talvez, seja mais rica à medida que põe o leitor em seu centro, acompanha-o em algumas curvas, mas depois o deixa só, e o convida a encontrar seu próprio caminho até a saída.

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