Entre o colunismo literário e a crítica
admin em 31 de Outubro de 2009 @ 20:04 | Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 633

Com o advento das mídias de massas nos anos de 1970 – no Brasil –, a indústria de bens culturais toma corpo em nosso país, e esse fenômeno provoca mudanças significativas em todas as formas de arte, o que não exclui a literatura.
Nesse momento, o que está em jogo é uma mudança de paradigma. A arte – fruto da originalidade, da criação autoral, do valor estético – passa a funcionar de acordo com a lógica da indústria – produção em série, repetição, ausência de autoria –, o que tem consequências profundas para a sua forma. Há muitas divergências em relação a esse tema. Muitos teóricos defendem, em partes, a entrada da arte na lógica da indústria, pois percebem essa mudança como democratização da arte das elites em vistas de um acesso para um público mais amplo. No entanto, não é este o ponto desta discussão.
A questão principal é que valores permeiam a crítica desse tipo de arte, ou qual é o lugar da crítica dentro da lógica da reprodutibilidade.
Não é estranho a nenhum de nós, amantes da literatura, adquirir os jornais e ir, logo, em busca do suplemento literário, no intuito de verificarmos as novidades do mundo das letras. Mas o que encontramos na maioria desses suplementos, diferentemente de “crítica”, é o “colunismo literário”.
Colunismo literário é um termo cunhado já por Antonio Candido (apud Pellegrini, p. 165), que faz referência aos textos, geralmente escritos por jornalistas. Textos estes que, ao invés de estarem comprometidos com a qualidade literária (aspectos estéticos e, portanto, humanizadores), estão relacionados ao marketing do produto livro. Portanto, servem apenas de resumo, reproduzindo o desejo mercadológico de venda do produto. Assim, os que se autodenominam críticos literários, muitas vezes não passam de reprodutores das lógicas do mercado, o que é uma atitude totalmente contrária à crítica.
O principal problema que vem à tona é a influência que esses “críticos” têm em relação à massa de leitores (sendo este número já bastante reduzido), portanto, “formam” (ou deformam) opinião. Esses colunistas literários, muitas vezes, são “patrocinados” pelas próprias editoras, pois recebem os livros, escolhem frases que chamam a atenção do leitor para que este tenha o desejo de consumi-lo, e reproduzem isso, geralmente com um texto de linguagem acessível (poética, muitas vezes), que, longe de uma análise realmente crítica, tem status de propaganda. Nada contra a resenha jornalística, a informação sobre um livro, mas – convenhamos – assim é fácil fazer “crítica”. É fácil elogiar Machado de Assis. É engrandecedor poetisar sobre um novo texto de Gabriel Garcia Marquez. Mas onde está a coragem e o verdadeiro conhecimento literário? Onde está o crítico literário que avalia os livros de escritores não consagrados e aponta aos leitores e a seus pares os erros e acertos?
Segundo Tânia Pellegrini,
“[…] o que se pode perceber, então, é que o crescimento editorial, se não estimula a reflexão crítica – muito pelo contrário, pois o interesse é vender livros e não analisá-los – estimula a ampliação do espaço para a literatura da imprensa, pelo mesmo motivo: notícias, resenhas, colunas, comentários […] sempre colocam o objeto-livro em evidência” (p. 168).
Recomendamos a leitura de A imagem e a letra, de Tânia Pellegrini (Mercado de Letras, 1999). Um bom livro que discute um pouco sobre esse tema.
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7 comentários para “ Entre o colunismo literário e a crítica ”
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Erica 1 de Novembro de 2009 @ 14:48 1
Adorei o artigo e a imagem! Muito legal!
Sobre a crítica, precisamos de mais críticos literários realmente. O que vemos pelos jornais é um bando de resenhistas. Posso abrir uma exceção: o Jornal Rascunho, é o melhor veículo de resenhas e críticas literárias.
Sobre o crescimento editorial: os editores brasileiros não podem deixar que se faça aqui o mesmo que se faz nos EUA: publicar tudo o que cair nas mãos para deixar que o mercado filtre… O editor há que ser intelectual ou se unir a intelectuais, para que nunca desaprenda a avaliar textos.
Daniel Ricardo Barbosa 1 de Novembro de 2009 @ 19:13 2
Bravo!
O diálogo sobre o tema do post foi aberto com maestria… e com certeza procurarei me inteirar sobre o livro de Tânia Pellegrini.
Há algo, porém, que gostaria de levantar.
Neste mundo onde atualmente se cultua o virtual… parafraseando o post: de tão reduzido número de leitores… a crítica literária genuína não teria igualmente ou ainda menos leitores?
Confesso que isto me ocorreu subitamente e ainda não pensei devidamente no assunto, mas… quis compartilhar tal dúvida com os leitores deste blog que tanto prezo!
admin 2 de Novembro de 2009 @ 14:05 3
No twitter, @miguelbconde indica a leitura de Flora Süssekind, crítica literária: http://bit.ly/4lYAg . Miguel Conde pergunta: “No Literatura e vida literária (1985) a senhora fala dessa dificuldade do contato com o contemporâneo. Assumir esse risco é fundamental para o crítico?”, e vale a pena seguir o link para ver a resposta.
Pedro 2 de Novembro de 2009 @ 15:43 4
Schopenhauer, em seu Parerga e Paralipomena, em 1851, já falava sobre isso.
E pior ainda é quando, por pura preguiça, jornalistas utilizam releases (qse sem alterações) enviados pelas editoras.
Daniel Ricardo Barbosa 3 de Novembro de 2009 @ 11:35 5
Talvez seja mais cômodo para o jornalista reproduzir na íntegra o release da editora. A própria mídia o torna “um grande crítico” sem que ele precise se arriscar numa crítica genuína ligada ao contemporâneo.
E poucos têm a segurança de contarem com o talento de Flora Süssekind… logo ficamos legados a jornalistas que se passam por críticos a reproduzirem releases.
Érica 3 de Novembro de 2009 @ 12:22 6
É, Daniel. Acho que você colocou um ponto importante: “poucos têm segurança”… Se um profissional não tem segurança sobre o que pensar e criticar em uma obra literária, como se diz crítico literário?
Abraço, Daniel!
Erica 4 de Novembro de 2009 @ 12:18 7
Philip Roth, em “O autor do lado Sombrio” (suplemento Eu& do jornal Valor Econômico, sexta, 30-31/out.), fala que existem escritores e “entertainers”, frisando que os últimos não são escritores. Ele diz que raramente os melhores escritores são muito lidos. Ele diz ainda que há poucos romancistas populares aclamados também pela academia, como Charles Dickens.
Os escritores já consagrados, como Philip, têm essa liberdade: de criticar seus pares. Poucos são os críticos literários que se aventuram a verdadeiramente criticar, apontar falhas, classificar o texto como comercial/apelativo/entretenimento. O crítico, para ser realmente crítico, não pode ter amarras com o mercado editorial e com as editoras.