Arquivo de Janeiro de 2010

Entrevista com Victor Hugo de Araujo Barbosa

admin em 27 de Janeiro de 2010 @ 07:40


O conto “Ao ninho nunca mais voltarás”, de Victor Hugo, foi o terceiro colocado no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ele e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Victor Hugo para que vocês possam entrar em contato com ele e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para o escritor.


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  • Nome | Victor Hugo de Araujo Barbosa
  • Biografia | 21 anos. Paulista, mas paranaense de coração. Estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina; estagiário no Ministério Público. Universitário comum e quieto, cheio de planos.
  • Blog | http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com
  • E-mail | victorhabarbosa@gmail.com


Conte a sua relação com a escrita
Victor Hugo |
A comunicação é essencial para qualquer ser humano. Uma pessoa que não se comunica está fadada à solidão, ao esquecimento. Eu percebi desde pequeno o potencial das mensagens que os livros me passavam. Notei que, mesmo que o autor fosse, para mim, uma coisa abstrata, apenas uma ideia de alguém que se senta a uma mesa e escreve aquilo que leio diante dos meus olhos, a existência dele permeava cada linha, cada palavra daquele livro. O autor estava presente no livro e isso fazia dele imortal. Passei a perceber com o tempo que eu possuía mais aptidão para me comunicar através da escrita do que através da fala: conseguia chegar à mente e ao coração das pessoas muito mais facilmente e lá imprimia uma marca muito mais indelével. Com a escrita, sinto-me num mundo vasto, onde posso pacientemente explorar aquilo que sei ser mais belo, mais chocante, mais repugnante, mais triste, mais feliz, mais denso, e mostrar isso ao mundo. É um prazer imenso ser lido.


A escrita tem relação com sua profissão?
Victor Hugo |
De certa maneira sim, de certa maneira não. É muito incomum atualmente encontrar escritores, preferencialmente de ficção, que estejam atrelados ao mundo do Direito, muito embora eu me regozije de seguir caminho semelhante ao de Rubem Fonseca, Álvares de Azevedo, José de Alencar, Hilda Hilst, escritores que já passaram por uma faculdade de Direito. A verdade é que não importa a profissão que eu siga. Se contrapuser minha vida profissional à minha imaginação e à minha capacidade de apreender os momentos singulares da vida, bloquearei qualquer capacidade que possua de escrever. Se conseguir aliar ambos, contudo, mesmo que não tenham uma ligação clara, surge aí um aprendizado e um material infinito para histórias, uma oportunidade de se diferenciar.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Victor Hugo |
Ter uma rotina para fazer algo tão livre como escrever me assusta. Eu costumo aproveitar o momento de inspiração. Quando a ideia surge, é essencial que eu a aprisione de alguma maneira, para não esquecê-la ou deturpá-la. Estando intacta, eu a observo, imagino-a, relaciono-a a tudo que possa lembrá-la, a todos os sinais e significados que nela estão contidos. A partir do momento em que sinto estar a ideia embasada por elementos suficientes para torná-la digna de uma leitura, esquematizo o texto e passo a escrever. Isso pode levar o tempo que for necessário, não é bom ter pressa.
Não há lugar fixo. Já escrevi debaixo de árvores velhas, sob a grama alta, em cadeiras desconfortáveis, em computadores ultrapassados, em carteiras de madeira.
Não consigo sentir muita alegria pela vida do escritor que acorda todo dia e pensa pesaroso que tem de concluir tal e tal livro. O ato da escrita não pode ser burocrático, o que não significa que deva ser anárquico. A concentração e a sensatez devem prevalecer, bem como a vontade de escrever, aquele motor que impulsiona o escritor a continuar escrevendo, mesmo quando o relógio aponta que ele está há 6 horas sem comer e seus olhos ardem.


Quais são seus escritores favoritos?
Victor Hugo |
Milan Kundera, Rubem Fonseca, Machado de Assis, George Orwell, Dostoievski, Isaac Babel, Voltaire, Fernando Pessoa, entre outros…


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Victor Hugo |
Eu já havia escrito este conto anteriormente, de modo rápido, nada muito rebuscado, para postar no meu blog. Como me interessei pelo concurso do Ofício Editorial, resolvi incrementá-lo, para que ficasse esteticamente mais interessante, e mandar para o crivo dos julgadores. Em geral, como já expliquei, eu parto da ideia do texto, reúno elementos que colaborem com a história, esquematizo-a e escrevo. O meu interesse no concurso era o feedback dos julgadores do Ofício, e o motivo disso é que, aparentemente, é um conto sobre morte, sobre suicídio, mas o que poucos percebem é que é exatamente o contrário: “Ao ninho nunca mais voltarás” é um conto sobre a vida, sobre a dificuldade de se ir adiante, sobre os saltos que temos de dar para evoluir.


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Victor Hugo |
Não creio que as ideias inovadoras sejam imprescindíveis para a literatura. É óbvio que uma ideia original tem o poder de modificar toda uma estrutura acomodada, de livros que se repetem. No entanto, quantos Romeu e Julieta não existem pelos livros, com nomes diferentes, mas histórias similares e muitas vezes tão interessantes quanto? Eu sou adepto, então, do bom desenvolvimento da narrativa: saber prender a atenção do leitor, cativá-lo, deixá-lo inconformado por ter chegado à última página e não poder mais usufruir de tudo aquilo.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Victor Hugo |
A qualidade da obra, para mim, vem da capacidade do autor de me envolver com suas palavras, de se fazer entender o mais claramente possível. A avaliação que faço das minhas obras passa sempre por leituras infinitas do mesmo texto, em voz alta ou não, para que eu possa testar a sonoridade, o tempo, o “encaixe” de cada sentença. Quando você conhece de cabo a rabo o que escreveu, sabe o que pode mudar, o que pode melhorar, o que impressionará o leitor, por isso mesmo é necessário não se dar por satisfeito com a primeira versão do texto escrito: é bom guardá-lo na gaveta até que o sinta pronto para sair de lá.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Victor Hugo |
Ao contrário do que dizem as estatísticas, que sempre apontam o desinteresse das pessoas pelos livros, julgo que é o contrário, as pessoas amam ler. Sempre que eu posso, presenteio alguém com um texto meu ou um livro de outro autor, e é gratificante a feição que seus rostos assumem, pois sabem que aquilo demanda carinho, amor. No entanto, isso só revela o que julgo essencial na escrita: sua maleabilidade. Essa é a principal lição: as palavras assumem a forma que querem e com elas eu posso cativar alguém ou fazer essa mesma pessoa sentir náusea. A palavra é uma adaga e uma flor, ao mesmo tempo.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“O escritor declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de seu autor”.



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“Ao ninho nunca mais voltarás”
Pseudônimo: Maximiliano Arosa

Uma luz onírica afluiu aos seus olhos, transbordando-os de uma fugaz sensação de flutuação. Breve, sentiu a cabeça pesar e a visão vaguear: o mundo errava, desfocado, divertindo-se em sua roda nauseabunda. Por fim, a determinação do homem ao lado em conseguir manter-se firme o forçou a fixar um ponto no olhar, e então se deslumbrou, um tanto quanto sem convicção do que via e viria a dizer:
“Suas botas… suas botas são lindas!”, comentou, sorriso demente ao rosto, quando enfim conseguiu decifrar o que enxergava.
O outro o fitou sério. E o fez demoradamente, levando o tempo que fosse necessário para constatar que aquilo definitivamente não era um comentário aleatório ou uma piada.
“Está alucinando, talvez seja pelo choque…”, deduziu sem emoção, olhando alhures.
“Não, não estou alucinando, só estou dizendo: suas botas são realmente lindas, e essa calça? Belo jeans, coisa graúda. O sobretudo também, como tudo mais, lhe cai bem, meu amigo. A barba, o capuz, este longo cabelo que aí se esconde”, gemeu por algum tempo e achou melhor acrescentar: “Você parece um Jesus Cristo fashion”.
O outro riu.
Estavam dentro de um elevador dos mais lentos e mofados, embalados por Tom Jobim, num clichê tão absurdo que beirava o ridículo.
“Tom Jobim, bossa nova… você gosta, Jesus moderno?”, inquiriu o primeiro homem, “Eu sinceramente detesto. Bossa nova é um defunto o qual esqueceram de enterrar”, prosseguiu, escarnecendo. Permaneceu um minuto em silêncio e, não podendo mais se conter, resolveu verbalizar algo que o atormentava: “Aliás, por que minha perna dói tanto?”. Tossiu então sobre o torso da mão, agora vermelho, “veja só, é sangue!”, constatou tresvariado.
“Tenha paciência, criatura, estamos chegando”, acalmou-lhe o outro, batendo de leve em suas costas.
“Não, eu falo sério. Sabe, minha perna realmente dói muito, e, reparando bem, tenho quase certeza de que algo está errado com uma de minhas costelas”, lamuriou-se, enquanto se apalpava.
“Tudo muito real, não é?”, riu-lhe enigmático o outro, cingido por um halo.
“Sim… você tem razão… já estive aqui antes, neste mesmo elevador, odiando o mesmo Jobim, suando frio, estou certo disso. Mas quando…?”.
Ouvindo isso, o outro o agarrou pelos ombros, sacudindo-o, forçando-o a olhar dentro de seus fabulosos olhos.
“Você obviamente já esteve neste elevador, pobre homem. Isso porque você acabou de pular deste prédio”, sentenciou, lágrimas nos olhos.
“Eu… pulei?”, indagou, balbuciante, o pobre homem, olhos vidrados, tal qual um tolo diante das respostas que a vida lhe oferece, mas que, mediocremente, nunca pôde compreender.
“Sem dúvida. Ah, aqui estamos, trigésimo andar. Agora sim!”, sorriu amargo, enxugando os olhos na manga de seu sobretudo. “Eu lhe diria para nunca mais ser tão afoito a ponto de não ir além do quinto andar, mas temo que isso nunca mais venha a lhe ocorrer”.
“Eu… pulei?”.
A porta do elevador se abriu indelicadamente, revelando adiante um longo corredor a terminar numa janela de grandes proporções, aberta de par em par.
O outro, escondendo o semblante sob o capuz, estendeu o dedo trêmulo em direção à janela, ordenando a saída do homem ao seu lado.
“Agora vá, minha pobre criatura, termine o que começou. Voe, flutue, despenque!”.
“Pular…”, balbuciou, enquanto gemia e se arrastava: “você não vem junto, meu Jesus?”, choramingou o homem, desvelando olhos compassivos.
“Não, eu nunca consigo olhar essas coisas, é sempre tudo igual e terrível!”, disse o outro, virando o rosto angustiado, enquanto a porta do elevador o estreitava mais e mais, até escondê-lo por completo, não sem antes se fazer ouvir num abafado “Adeus e até, criatura!”.
Sozinho, o homem restou a encarar os números vermelhos que indicavam a descida de seu amigo. Volveu. Primeiro, olhou para a janela ao fim do corredor e depois, vagarosamente, para suas roupas rasgadas e rotas, sua perna ensanguentada, suas mãos esfoladas e, por último, para suas mortais convicções. Um corredor convidativo, convergindo de modo autoritário e sedutor para uma única janela, para uma única saída. Compreendeu.
Desceram, cada um em sua devida velocidade, cada um ouvindo um som diferente, fosse bossa nova ou o assobio do vento.

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Entrevista com Carlos Alberto Silva

admin em 21 de Janeiro de 2010 @ 06:16


O conto “Separação”, de Carlos Alberto, recebeu menção honrosa no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ele e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Carlos Alberto para que vocês possam entrar em contato com ele e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para o escritor.

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  • Nome | Carlos Alberto Silva
  • Biografia | Carlos Alberto Silva nasceu na cidade de São Gonçalo do Sapucaí, no sul do estado de Minas Gerais, em 7 de julho de 1970. Trabalhou nos Correios e na Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais e atualmente é economiário. A aptidão pelas letras desde a escola primária o motivaram a continuar escrevendo. Alguns de seus textos foram premiados em concursos literários e publicados em antologias.
  • E-mail | cssgsmg@hotmail.com ou carlosalberto.oi@oi.com.br
  • Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16403549481218065285


Conte a sua relação com a escrita
Carlos Alberto |Creio que a resposta mais verdadeira seja “escrevo porque tenho alguma habilidade para isso, porque um dia escrevi um texto qualquer, tive prazer em fazê-lo e o resultado foi bom”. Mas o que me motiva é tentar escrever melhor. Sabemos que há muitas maneiras de se dizer a mesma coisa e o mérito de um bom escritor é ser capaz de dizer precisamente o que deseja dizer.


A escrita tem relação com sua profissão?
Carlos Alberto | A escrita e o conhecimento da língua certamente me são úteis no trabalho, mas são universos bastante distintos.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Carlos Alberto |Faço literatura desde que me alfabetizei, mas isso sempre aconteceu de forma esporádica. Mesmo hoje leio e escrevo um pouco menos do que deveria, já que escrever é um exercício constante de aperfeiçoamento. Para escrever eu preciso de um tempo e de uma tranquilidade de que nem sempre disponho. O escritor precisa estar ausente da realidade, e para quem não vive da literatura nem todo tempo livre é tempo útil para escrever. Há quem abra o laptop em qualquer lugar público e trabalhe ali mesmo, mas não sou uma dessas pessoas.


Quais são seus escritores favoritos?
Carlos Alberto |Se apontar um escritor favorito, corro o risco de não estar dizendo a verdade. Pode ser algum de quem só li um livro ou pode ser que eu ainda não o tenha lido. Vou citar os dois autores que mais li nos últimos tempos: Fernando Sabino e Rubem Fonseca, tão opostos quanto extraordinários. Enquanto Sabino convida o leitor a uma conversa agradabilíssima, Fonseca parece buscar um nível de violência e imoralidade que chegue a ofender até seu leitor menos escrupuloso. Eu os descobri tarde por serem autores de textos curtos, motivo pelo qual os leio agora, mais por interesse de escritor do que de leitor.


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Carlos Alberto |O conto “Separação” nasceu de uma boa sacada: “E se um homem heterossexual decidisse pedir pensão alimentícia a um ex-colega de apartamento?” Minha intenção era que fosse apenas aparentemente banal e que o leitor não deixasse de perceber nele uma crítica à sociedade atual, com suas leis, códigos e estatutos. Não fiz nenhum planejamento, só tinha em mente que era um texto para escrever à maneira de Luís Fernando Veríssimo, conciso, leve, divertido. Sei que Veríssimo tem uma legião de imitadores, mas quando terminei, percebi que havia me saído muito bem. Eu o escrevi em poucos minutos. Se não consigo assim (e geralmente não consigo) costumo demorar muito. Depois de pronto, mesmo voltando a ele diversas vezes, como faço habitualmente, quase nada foi alterado. Tento escrever logo o texto definitivo, senão começo a achar que está bom o que escrevi, mesmo que não esteja, ou tenho dificuldade em fugir do que já está feito. Na verdade não gosto de fazer alterações. Se depender de mim, até os inconvenientes cacófatos, lugares comuns e afins acabam ficando. Um texto se torna definitivo quando chega às mãos do leitor, então eu sou o meu primeiro leitor. E se não for publicado, ninguém terá acesso a ele, a não ser minha esposa. Ela tem uma capacidade única para perceber detalhes da trama e identificar inconsistências.


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Carlos Alberto |Existe o consenso de que não há histórias ruins, mas histórias mal contadas. Bem, é claro que existem, mas concordo com a afirmação. É possível narrar qualquer coisa de maneira cativante, ou pelo menos eficiente, portanto o desenvolvimento é mais importante do que a ideia. Eu, particularmente, preciso de uma ideia concreta, e acho importante que o texto chegue a algum lugar. O final precisa significar alguma coisa, e, embora eu raramente saiba como será, ele costuma surgir na hora certa. Tenho lido contos bem elaborados sobre coisa nenhuma, mas não gosto disso. Algumas das minhas melhores páginas estão na gaveta porque não se transformaram em uma história.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Carlos Alberto |Uma obra literária deve ser feita para o leitor. Deve ser compreendida por ele e ter algo a oferecer. Deve, creio, se situar acima do leitor em algum aspecto. O escritor precisa saber o que faz, quem ele representa, ou, se propõe algo novo, deve saber exatamente o que é. Quanto a mim, o que escrevo são exercícios, e alguns bem-sucedidos. Eu releio meus textos muitas vezes, mas não mexo nos que considero bons. Os outros, eu procuro corrigir e aperfeiçoar, mas nunca tento reescrever. Ficam sempre à espera de que eu encontre uma porta, um meio de ter acesso a eles para resgatá-los.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Carlos Alberto |Mais de uma vez eu achei que estava pronto, para depois descobrir que não. Hoje tenho consciência do quanto posso evoluir. Mas descobri que nenhum escritor é bom o suficiente. Há algum tempo li um artigo em que o autor distribuía críticas duras a escritores reconhecidos. Classificava escritores como obscuros, falava em gerações inteiras que não resistiram ao tempo e, no final, praticamente afirmava que abaixo de Machado de Assis (que também foi criticado) não existe ninguém. Um exagero, é claro, mas escrevem essas coisas por aí.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“O escritor declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de seu autor”.


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“Separação”
Pseudônimo: Belo

Eduardo e Jurandir eram dois amigos que dividiam um apartamento havia alguns anos. Conheceram-se por intermédio de uma amiga comum. Por algum tempo a relação fora conveniente, mas chegara a hora de cada um seguir seu caminho.
– Meu relacionamento com a Soninha está ficando sério e eu preciso morar sozinho – disse Eduardo como se não tivessem falado do assunto durante semanas.
Jurandir tinha certeza de que não era verdade. E de fato não era. No tempo das vacas magras, quando eles comiam pão de fôrma e dividiam o desodorante, deram-se por satisfeitos porque nenhum dos dois roncava ou gostava de música romântica sertaneja. Eduardo batalhava por uma carreira de publicitário e Jurandir tentava o mesmo no jornalismo. Mas agora Eduardo colhia os frutos de mais uma campanha vitoriosa para um grande fabricante de bebidas e Jurandir apenas havia trocado os classificados pelo caderno da cidade. Eduardo conhecia mulheres cada vez mais bonitas e comprava desodorantes cada vez mais caros. Tinha um home theater com monitor wide screen gigante e uma coleção de DVDs importados.
Jurandir estava emocionado.
– Desculpe. Uma separação é sempre dramática – ele era sempre dramático.
– Se precisar de alguma coisa, “estamos aí”.
– Acho que podemos resolver tudo amigavelmente.
– Quê?!
– Você vai precisar me pagar uma pensão – Jurandir já não demonstrava nenhuma emoção.
– Tá louco?!
– Você ganha muito mais do que eu. Sabe que eu vou passar por dificuldades.
– E por acaso eu sou seu marido?
“Só pode ser brincadeira”. Eduardo sabia que as inconveniências do Jurandir nunca eram brincadeira.
– A lei está cada vez mais abrangente nessas questões.
– Você só pode estar louco!
– Du, é comum as pessoas confundirem as relações. Entendo que você não tenha se dado conta, mas temos uma história juntos.
– Por acaso constituímos uma família?
– Há várias modalidades de família. Não se lembra de Friends?
Friends! – erguendo o indicador na direção de Jurandir, e como quem diz “Bingo!” – amigos. É isso o que somos. Amigos!
– Nós até já dividimos uma cama de casal, Du!
– No churrasco no sítio do Marcão? Oito pessoas. Só tinha dois quartos. Eu estava virado para os pés. A porta estava aberta e tinha gente dormindo na sala.
– Eles comentam até hoje.
– Gozação. Eles comentam até hoje que você ficou com um travesti no Carnaval de 99. E isso também é mentira.
– Talvez não seja.
Eduardo não tem palavras. Jurandir:
– Também dormimos juntos aqui por um bom tempo. A faxineira pode confirmar.
– Pouquíssimo tempo! Só até você comprar uma cama.
– Tudo bem. Eu tenho provas materiais. O aluguel está no seu nome e sou eu quem paga. Com cheques. O banco pode fornecer cópias.
“Canalha!”
– Mas eu deposito a minha parte na sua conta!
– Nada mais harmonioso.
– Você não vai conseguir nada com isso.
– Nós saímos juntos e tomamos vinho, Du! Amigos não tomam vinho!
– Você toma vinho! Eu tomo cerveja.
– Aquela importada, de garrafinha? Muito suspeita. E o cinema? Nós vamos juntos ao cinema.
– Jackie Chan! Quem você queria que eu chamasse?
– Como pode negar a nossa relação, Du? Eu deixava bilhetinhos em francês para você!
– Mania sua de praticar. Eu não guardei nenhum. E pare de me chamar de Du.
– Tudo bem. E o Le Petit Prince que você me deu? Com aquela dedicatória? Você assinou “Du”.
Eduardo estava derrotado. Tentou uma defesa:
– Você queria uma leitura fácil. Eu achei que aquela era fácil.
Mas era inútil. Um exemplar de Le Petit Prince, original em francês, com aquela dedicatória, e assinado “Du”, era prova cabal, irrefutável, irrecorrível, irretratável.
– Vamos expor nossa intimidade num tribunal, Du? Um caso como esse vai parar na televisão. Meus colegas da imprensa vão se solidarizar. Você não vai querer esse tipo de publicidade. Se resolvermos tudo amigavelmente vai passar despercebido. Casos resolvidos com honestidade e respeito não interessam a ninguém.
Eduardo duvidava disso. Jurandir completou:
– Minha “advogada” disse que você não tem chance!
O advogado do Eduardo o aconselhou a ter cautela. Era preciso pensar em todas as consequências de uma separação. Dar um tempo para ver se não se acertavam ou se Jurandir não se interessava por outra.
Hoje Eduardo e Jurandir ainda vivem juntos. Jurandir ficou com a parte de baixo da geladeira e o banheiro do corredor. Usa a sala nos dias ímpares mas não pode ligar o home theater. Pelo menos não quando o Eduardo está em casa.

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Entrevista com Roberto C. Belli

admin em 9 de Janeiro de 2010 @ 23:27


O conto “Olhos amarelos”, de Roberto, recebeu menção honrosa no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ele e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Roberto para que vocês possam entrar em contato com ele e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para o escritor.

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  • Nome | Roberto C. Belli

  • Biografia | Roberto C. Belli nasceu em Blumenau, SC. É escritor desde a sua graduação em Letras pela Furb (Universidade Regional de Blumenau), época em que publicou poemas na antologia Outros catarinenses escrevem assim (Ed. Acadêmica, 1979). Nesse ano também tirou o primeiro lugar no Concurso de Contos da Furb, com o conto “O meu fantasma do espaço” e com publicação no livro Os contos da Furb (Ed. Furb, 1986). Criou a coluna “Ficção Científica”, em 1987, no Jornal de Santa Catarina, a qual durou seis meses e foi censurada por críticas ao prefeito local. Concomitante, foi desenhista têxtil de 1975 a 1986, trabalhando para várias indústrias de Blumenau, entre elas estão a Cia. Hering, a Artex e a Sul Fabril. Foi também redator publicitário de duas pequenas agências de propaganda da mesma cidade, Scriba e Direcional. Em 1991, mudou-se para São Paulo, onde foi revisor de textos da editora Scipione por sete anos e teve contato com a literatura do eixo Rio – São Paulo. Em 1997, devido à crise, o grupo Ática, ao qual pertencia a Ed. Scipione, é vendido para empresas estrangeiras e, sendo assim, voltou a trabalhar para várias agências de propagandas de São Paulo, entre elas estão a PA Publicidade, do Grupo Pão de Açúcar, onde ficou vários anos, e a maior agência do ABC paulista, Octopus, de Santo André. Em 2002, volta para Blumenau, para dedicar-se ao universo literário infantil, para o qual já escrevia desde 1999. De 2004 a 2009 foi roteirista para desenhos animados e quadrinhos na Belli Studio Design, estúdio pertencente ao seu irmão, Rubens Belli. Aí, escreveu roteiros de nove números da revista em quadrinhos das “Aventuras de Betinho Carrero” e também uma série de 21 episódios de desenho animado para o Beto Carrero World com os mesmos personagens. Para a Editora Todolivro, sua contribuição abrange contos, quadrinhos, traduções, adaptações e divulgação científica para as Editoras do grupo Todolivro, sendo autor de muitos livros de entretenimento infantil e educativos em circulação nacional. Entre as muitas coleções e títulos, pode-se destacar a “Coleção Sentimentos”, em títulos como O elefante que queria tudo e A abelha que queria ser rainha (Ed. Todolivro, 2004), e a série de cinco histórias de Maguinho, que constam no livro único Aventuras de Maguinho na Cidade do Conhecimento (Ed. Todolivro, 2006). Também publicou vários contos em revistas, como “A fábrica”, para a Revista de Divulgação Cultural da Furb (1995), e antologias, como “Linda” e “Astronomia”, que saíram nas antologias Prosa & Verso, organizadas pela Sociedade Escritores de Blumenau – SEB (2004/2005). Publicou também Os Ceifadores (2007), livro do gênero fantasia e ilustrado pelo saudoso desenhista e quadrinista Eugênio Colonnese, criador da famosa personagem Mirza, a Mulher Vampiro.
  • Blog | www.transiderais.blogspot.com
  • E-mail | robertocbelli@gmail.com
  • Twitter | Não uso.
  • Facebook/ Orkut | Apenas utilizo o Orkut para me comunicar com parentes e amigos.





Entrevista


Conte a sua relação com a escrita
Roberto | É muito complicada, pois ainda não tenho todo o meu tempo disponível para escrever o que eu, quero que é ficção científica e fantasia. Porém, admito que tive a felicidade de encontrar um nicho de mercado na área infantil e um editor que apostou nisso e possibilitou uma remuneração pelo que escrevo. Essa experiência é muita boa, mas meu texto verdadeiro estaria com a ficção científica, que faço nas horas vagas. Tenho escrito e reescrito muitos contos e elaborado complexas histórias para romances de ficção científica. Nos poucos concursos de contos de que participei na minha cidade, Blumenau, tirei primeiro lugar, e o mais marcante foi o da Universidade de Blumenau (1979). Mas nessa época, os professores consideravam o gênero ficção científica como subliteratura de bolso e não se podia nem pensar em seguir carreira de escritor. Aqui em Blumenau, trabalhar na indústria era só o que importava, e ser escritor não era uma profissão bem vista (e ainda não é, a não ser que você seja escritor infantil…). Hoje, tenho tido mais tempo e vou retirando da gaveta os romances e contos e vou lapidando-os. A escrita da ficção científica depende muito de novidades e de imaginação (inventar coisas que os outros ainda não inventaram). Para mim, isso não tem sido uma tarefa muito difícil. E, por isso, finalmente, sinto que estou novamente indo ao encontro do meu verdadeiro texto, a ficção científica. Estou começando a ficar muito feliz por isso!


A escrita tem relação com sua profissão?
Roberto |Sim. Desde que me desliguei do desenho das indústrias têxteis de Blumenau, nas quais trabalhei durante 12 anos, e, após me formar em Letras, passei a trabalhar com redação em agências de propaganda e revisor de textos em editoras de livros. Daí a ser escritor profissional foi mais ou menos rápido, coisa que faço desde 1999. Desenvolvi roteiros para animação e quadrinhos para o estúdio de meu irmão, a Belli Studio, concluindo essa fase até o ano passado, que considero experiência excelente. No momento, escrevo literatura infantil e adaptações dos clássicos juvenis para a Editora Todolivro.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Roberto |Venho para o computador lá pelas oito horas da manhã, leio meus e-mails de trabalho e os respondo, estabelecendo as urgências do dia ou da semana. Leio os jornais e as crônicas de amigos escritores. Muito raramente escrevo de manhã. À tarde e à noite é que as ideias fluem melhor, sendo, portanto, este o horário que mais avanço nos meus textos.


Quais são seus escritores favoritos?
Roberto |Muitos! Comecei a ler ficção científica (hard) na adolescência, por isso Clarke, Asimov e Heinlein são os meus favoritos desde sempre. Edgar Allan Poe, Ray Bradbury, Philip K. Dick, Frank Herbert, Orson Scott Card, Poul Anderson, Stanislaw Lem, etc. também vieram juntos e garantem os primeiros lugares da lista, assim como Douglas Adams e Neil Gaiman. Dos brasileiros, Roberto de Sousa Causo, Jorge Luiz Calife, Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, além, é claro, de Fausto Cunha e Jerônimo Monteiro são, além de favoritos, minhas referências. Claro que gosto muito de Saramago e Ruben Fonseca! Adoro literatura de divulgação científica e os meus favoritos são Carl Sagan, Richard Dawkins, Stephen Hawkins e Stephen Jay Gould e do lado brasileiro, Marcelo Gleiser. Não posso deixar de citar os meus colegas blogueiros, que embora não conheça todos, nunca deixo lê-los, como Giulia Moon, Martha Argel, Adriano Siqueira etc. E o cronista e escritor do Jornal de Santa Catarina Maicon Tenfen, com quem troco ideias.


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Roberto |Quando soube do Concurso de Contos da Ofício Editorial, vi que era uma oportunidade para criar um conto novo. E logo me veio a ideia de um rapaz com a habilidade única de distinguir invasores alienígenas no meio da multidão apenas “sentindo” que eles tinham olhos amarelos. Escrevi primeiro a parte do personagem Antônio a lápis no primeiro papel que vi pela frente. Depois, vi que não tinha uma história. Então, tive a ideia de o rapaz Antônio (Tom) ser interrogado dentro de um sanatório, mas deixando esse cenário meio que em aberto, para trazer um clima de “Arquivo X”. Num conto curto, precisava passar rapidamente essa ideia e, então, veio-me a estrutura de começar com um narrador-observador (3ª pessoa), depois passar para narrador-personagem (1ª pessoa) e finalizar em tom mais dramático possível novamente com o narrador-observador (3ª pessoa). Mas isso foi feito intuitivamente, pois só agora percebo que escolhi o narrador-observador e não o narrador-onisciente pelo motivo de que o observador é o único que poderia dar o ar misterioso e deixar em aberto para o leitor ficar com suspeitas. Não cheguei a reescrever, mas fiz mais de cinco alterações (sempre faço muitas alterações). Deixei o conto de lado e retomei uma semana depois para finalizar. Dei para a minha esposa, Cristina, que gostou muito. Aí, fizemos a correção ortográfica (minha esposa é uma excelente revisora de textos) e enviei.


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Roberto |Acho que uma ideia inovadora já vem com um bom texto. Entretanto, ficar trabalhando muito o texto pode parecer que, na verdade, não se tem uma história de fato para contar. Aprendi isso lendo Syd Field. Eu só trabalho o texto quando tenho uma história, faço e refaço dezenas de vezes. Se ainda não ficou bom, deixo de lado e vou retomar uma semana ou um mês depois, para ver se tem solução. Praticamente, todos os meus contos ainda não foram publicados, o que me dá a oportunidade de ficar mexendo neles. Alguns já viraram até romance…


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Roberto |Eu sou muito crítico com o meu trabalho. Talvez por isso nunca publiquei um romance ou um livro de contos só meu. Sempre tenho algo a acrescentar ou a retirar. Acho que o apuro literário vem quando você consegue encontrar as palavras exatas. Isso é muito difícil para mim. Por isso, estou sempre relendo e reescrevendo. Não existem mais primeiras versões de meus textos, pois como são guardados em arquivos, eles já foram muitas vezes modificados. Tenho contos antigos que eu poderia dizer que seriam “primeiras versões”, mas são desdobramentos de outros contos ou ideias. Eu guardo essas “primeiras versões” para ver o rumo que dá à história modificada em outro arquivo ou desdobramento.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Roberto |Quando comecei a escrever, fazia isso intuitivamente e de maneira desorganizada. Aprendi, primeiro, que se deve revisar o texto exaustivamente, até ter certeza que não há um erro que fará com que todo o trabalho que levou dias fique perdido na impressão. Aprendi isso quando tive uma coluna de jornal… Em segundo lugar, não pensar que o leitor precise de todas as explicações. A linha tênue entre um bom texto e um mau texto está exatamente nas explicações desnecessárias. Por isso, a “lei do corte” vale muito, porque o leitor precisa imaginar alguma coisa. Mesmo que seja uma criança.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“O escritor declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibida a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de seu autor”.

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Conto

“Olhos amarelos”
Codinome: Cid Campos

Dois homens de guarda-pó branco caminhavam por um corredor úmido e pouco iluminado.
— Esta será a última tentativa… — disse, irritado, Cabelos Escuros.
— Mas, agora, a solução é perfeita. Ele vai reagir bem — disse Careca.
— E esse tique nervoso? Dá pra corrigir isso? — e, dizendo isso, seus lábios entortaram como se fossem puxados para trás. Depois, voltou ao normal.
— Não se preocupe, é uma questão de calibragem.
Pararam diante da porta que dava para a sala de interrogatórios. Um segundo depois, entraram. Ali, Antônio aguardava entediado, arrumou-se na cadeira ao vê-los.
— Podemos começar? — disse Careca.
Nervosamente, Antônio procurou olhar nos olhos dos visitantes que se sentavam à mesa. Os homens esperaram por uma resposta do rapaz.
— Tá… Tudo bem! — disse Antônio com um gesto inseguro.
— Se não estiver se sentindo bem, Tom, podemos voltar amanhã — disse Cabelos Escuros.
— Nã-não! Estão limpos. Acho que não vejo em vocês o que vejo nos outros…
Então, abriram as maletas e retiraram a câmera e o tripé. Ligaram.
— Poderia contar tudo, por favor?

olhos2 - olhos2

Quando vi pela primeira vez os homens de olhos amarelos espreitando a raça humana — eu sei que falar dessa maneira soa esquisito, mas é assim mesmo que eu os vejo — foi no dia do meu aniversário.
A festa era na chácara do meu avô. Convidei só a galera mais chegada, dezesseis pessoas. E, claro, convidei a Natália. Eu tava muito a fim dela. Ela nem fazia ideia, sabe? Eu queria pedir para namorar nesse dia.
À tardinha, finalmente, eu consegui destravar. Era o momento certo, tinha até um perfume de flores no ar, um calor gostoso, e a piscina estava ótima. A chácara do meu avô é demais! Aí, falei pra ela… E ela:
— Tom, desculpa… Eu gosto de você como amigo.
Aí, fiquei em silêncio. Não sei por que, mas eu já esperava por isso. Ela era a Bonitinha da Classe e tinha o nariz empinado. E eu? Só um cara comum. Comum até demais… Bem, mas meu silêncio naquele momento não foi porque eu estava chateado com a Natália. Foi porque eu vi dois olhos amarelos nos espreitando da mata, perto da chácara. Ainda lembro o que ela me disse:
— Não fica assim. Não vamos estragar uma amizade que mal começou…
Mas, nesse momento, eu saí da piscina e, todo molhado, corri atrás do “alienígena” — não é a palavra certa? Sinto muito! — “Aquilo” correu e se embrenhou nas capoeiras da região.
Quando retornei, a galera já tinha ido embora. A festa acabou. E meus avós me esperavam na varanda. Ajudaram a me limpar e a passar remédio nos arranhões feitos pelos espinhos da vegetação.
— Você os viu de novo? — perguntou meu avô.
— Vi. Olhem, consegui isso aqui. Caiu no caminho.
Mostrei um aparelho retangular, poderia ter sido feito para a comunicação deles. Minha avó me abraçou e me levou para a sala, onde me serviu um chá de hortelã.
No dia seguinte, no colégio, não só a Natália evitou falar comigo como também a galera toda. Era sempre assim! Quando apareciam os olhos amarelos, eu perdia amigos. Ninguém mais queria falar comigo. Talvez fosse um complô contra sujeitos como eu, que distinguem os olhos amarelos no meio da multidão. E aí, todos ficam achando que sou maluco… E querem saber? Tava ficando mesmo! — Vim até parar aqui. O que é isso? Um sanatório?
Bem, voltando ao colégio — aquilo foi terrível! — Um homem estranho substituiu o professor de matemática que eu mais admirava. Ele só olhou para a turma depois de abrir três livros sobre a mesa, ler a chamada inteira, verificar arquivos no seu laptop e… E quando ele nos olhou, eu vi — Não! Na verdade, eu senti… — os olhos amarelos. Eles passaram a me encarar ameaçadoramente. Eu sei que eles estavam me dizendo que os “alienígenas” já sabiam onde eu morava, onde eu estudava… Sabiam tudo! Minha primeira reação foi ficar paralisado; depois, não consegui ficar na sala de aula. Enfiei meu material de escola na mochila e saí tropeçando em tudo.
Não queria ficar no apartamento dos meus avós. Mas, para eu desaparecer, precisava de algum dinheiro e… Bem, não deu tempo, não é? Uns caras de branco vieram e puseram-me numa ambulância. Eles usavam óculos escuros para disfarçar… E vim parar aqui!

olhos2b - olhos2b

— Éramos nós — declarou Careca.
Antônio olhou para eles com desconfiança e perguntou:
— E isso aqui, o que é? É um sanatório?
— É uma clínica de repouso. Mas amanhã estará liberado para visitas. Seus avós ficaram muito preocupados com o seu… destemperamento. E tem outra pessoa preocupada com você.
— Ah, é?
— Chama-se Natália. Será a mesma?
Antônio ficou pensativo.
— Engraçado, ela nem queria mais falar comigo!
— As pessoas mudam… — disse Careca, retorcendo os lábios descontroladamente. Depois de muito esforço, voltou ao normal. — Ahn… des-desculpe.
Antônio quis rir, mas o outro repetiu o mesmo tique nervoso.
— Ué! Estão tirando uma com a minha cara?
— Como? — falou Careca, fingindo que não era com ele e preparando-se para recolher a câmera.
— Ninguém é capaz de fazer uma coisa dessas. Façam de novo — pediu Antônio.
Os homens se entreolharam. Depois, Careca se antecipou.
— Tique nervoso! É isso! Sabe como é, tanto tempo trabalhando com maluco, a gente começa a fazer palhaçada! — e gargalhou espalhafatosamente, batendo no ombro do rapaz.
Antônio riu dos dois. Mas logo baixou a cabeça. Careca ficou sério e pôs a mão sobre o ombro do rapaz.
— Eu sei como se sente, Tom. Você sofreu com a morte dos seus pais, recentemente. Mas tem de voltar à vida normal. Temos certeza de que essa fase já está passando, não é?
Antônio fez que sim com a cabeça.
— Ótimo. Daqui a pouco a enfermeira vem buscá-lo.
Os dois pegaram os equipamentos e saíram da sala. Após fecharem a porta, pararam um segundo no corredor. Com gestos sincronizados, cada um pegou seu aparelho retangular do bolso do guarda-pó e apertaram um botão. Então, continuaram a andar pelo corredor. Antes do elevador, porém, cruzaram com a enfermeira.
— Ei! — disse Cabelos Escuros, apontando para o aparelho. — Ligue-o. Tom consegue ver os nossos olhos…
A mulher obedeceu. Apertou o botão e seus olhos adquiriram um visual humano. Os homens entraram no elevador.
— Finalmente! Podemos prosseguir com a Ocupação — falou Careca.
— Mas temos que acabar com esse tique nervoso — disse Cabelos Escuros.
O elevador levou-os até o subterrâneo. Lá, recepcionaram várias legiões de olhos amarelos.

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