Entrevista com Victor Hugo de Araujo Barbosa
admin em 27 de Janeiro de 2010 @ 07:40 | Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 627
O conto “Ao ninho nunca mais voltarás”, de Victor Hugo, foi o terceiro colocado no Concurso da Ofício Editorial.
Fizemos uma breve entrevista com ele e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Victor Hugo para que vocês possam entrar em contato com ele e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para o escritor.

- Nome | Victor Hugo de Araujo Barbosa
- Biografia | 21 anos. Paulista, mas paranaense de coração. Estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina; estagiário no Ministério Público. Universitário comum e quieto, cheio de planos.
- Blog | http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com
- E-mail | victorhabarbosa@gmail.com
Conte a sua relação com a escrita
Victor Hugo | A comunicação é essencial para qualquer ser humano. Uma pessoa que não se comunica está fadada à solidão, ao esquecimento. Eu percebi desde pequeno o potencial das mensagens que os livros me passavam. Notei que, mesmo que o autor fosse, para mim, uma coisa abstrata, apenas uma ideia de alguém que se senta a uma mesa e escreve aquilo que leio diante dos meus olhos, a existência dele permeava cada linha, cada palavra daquele livro. O autor estava presente no livro e isso fazia dele imortal. Passei a perceber com o tempo que eu possuía mais aptidão para me comunicar através da escrita do que através da fala: conseguia chegar à mente e ao coração das pessoas muito mais facilmente e lá imprimia uma marca muito mais indelével. Com a escrita, sinto-me num mundo vasto, onde posso pacientemente explorar aquilo que sei ser mais belo, mais chocante, mais repugnante, mais triste, mais feliz, mais denso, e mostrar isso ao mundo. É um prazer imenso ser lido.
A escrita tem relação com sua profissão?
Victor Hugo | De certa maneira sim, de certa maneira não. É muito incomum atualmente encontrar escritores, preferencialmente de ficção, que estejam atrelados ao mundo do Direito, muito embora eu me regozije de seguir caminho semelhante ao de Rubem Fonseca, Álvares de Azevedo, José de Alencar, Hilda Hilst, escritores que já passaram por uma faculdade de Direito. A verdade é que não importa a profissão que eu siga. Se contrapuser minha vida profissional à minha imaginação e à minha capacidade de apreender os momentos singulares da vida, bloquearei qualquer capacidade que possua de escrever. Se conseguir aliar ambos, contudo, mesmo que não tenham uma ligação clara, surge aí um aprendizado e um material infinito para histórias, uma oportunidade de se diferenciar.
Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Victor Hugo | Ter uma rotina para fazer algo tão livre como escrever me assusta. Eu costumo aproveitar o momento de inspiração. Quando a ideia surge, é essencial que eu a aprisione de alguma maneira, para não esquecê-la ou deturpá-la. Estando intacta, eu a observo, imagino-a, relaciono-a a tudo que possa lembrá-la, a todos os sinais e significados que nela estão contidos. A partir do momento em que sinto estar a ideia embasada por elementos suficientes para torná-la digna de uma leitura, esquematizo o texto e passo a escrever. Isso pode levar o tempo que for necessário, não é bom ter pressa.
Não há lugar fixo. Já escrevi debaixo de árvores velhas, sob a grama alta, em cadeiras desconfortáveis, em computadores ultrapassados, em carteiras de madeira.
Não consigo sentir muita alegria pela vida do escritor que acorda todo dia e pensa pesaroso que tem de concluir tal e tal livro. O ato da escrita não pode ser burocrático, o que não significa que deva ser anárquico. A concentração e a sensatez devem prevalecer, bem como a vontade de escrever, aquele motor que impulsiona o escritor a continuar escrevendo, mesmo quando o relógio aponta que ele está há 6 horas sem comer e seus olhos ardem.
Quais são seus escritores favoritos?
Victor Hugo | Milan Kundera, Rubem Fonseca, Machado de Assis, George Orwell, Dostoievski, Isaac Babel, Voltaire, Fernando Pessoa, entre outros…
Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Victor Hugo | Eu já havia escrito este conto anteriormente, de modo rápido, nada muito rebuscado, para postar no meu blog. Como me interessei pelo concurso do Ofício Editorial, resolvi incrementá-lo, para que ficasse esteticamente mais interessante, e mandar para o crivo dos julgadores. Em geral, como já expliquei, eu parto da ideia do texto, reúno elementos que colaborem com a história, esquematizo-a e escrevo. O meu interesse no concurso era o feedback dos julgadores do Ofício, e o motivo disso é que, aparentemente, é um conto sobre morte, sobre suicídio, mas o que poucos percebem é que é exatamente o contrário: “Ao ninho nunca mais voltarás” é um conto sobre a vida, sobre a dificuldade de se ir adiante, sobre os saltos que temos de dar para evoluir.
O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Victor Hugo | Não creio que as ideias inovadoras sejam imprescindíveis para a literatura. É óbvio que uma ideia original tem o poder de modificar toda uma estrutura acomodada, de livros que se repetem. No entanto, quantos Romeu e Julieta não existem pelos livros, com nomes diferentes, mas histórias similares e muitas vezes tão interessantes quanto? Eu sou adepto, então, do bom desenvolvimento da narrativa: saber prender a atenção do leitor, cativá-lo, deixá-lo inconformado por ter chegado à última página e não poder mais usufruir de tudo aquilo.
Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Victor Hugo | A qualidade da obra, para mim, vem da capacidade do autor de me envolver com suas palavras, de se fazer entender o mais claramente possível. A avaliação que faço das minhas obras passa sempre por leituras infinitas do mesmo texto, em voz alta ou não, para que eu possa testar a sonoridade, o tempo, o “encaixe” de cada sentença. Quando você conhece de cabo a rabo o que escreveu, sabe o que pode mudar, o que pode melhorar, o que impressionará o leitor, por isso mesmo é necessário não se dar por satisfeito com a primeira versão do texto escrito: é bom guardá-lo na gaveta até que o sinta pronto para sair de lá.
De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Victor Hugo | Ao contrário do que dizem as estatísticas, que sempre apontam o desinteresse das pessoas pelos livros, julgo que é o contrário, as pessoas amam ler. Sempre que eu posso, presenteio alguém com um texto meu ou um livro de outro autor, e é gratificante a feição que seus rostos assumem, pois sabem que aquilo demanda carinho, amor. No entanto, isso só revela o que julgo essencial na escrita: sua maleabilidade. Essa é a principal lição: as palavras assumem a forma que querem e com elas eu posso cativar alguém ou fazer essa mesma pessoa sentir náusea. A palavra é uma adaga e uma flor, ao mesmo tempo.
Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!
“O escritor declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de seu autor”.

“Ao ninho nunca mais voltarás”
Pseudônimo: Maximiliano Arosa
Uma luz onírica afluiu aos seus olhos, transbordando-os de uma fugaz sensação de flutuação. Breve, sentiu a cabeça pesar e a visão vaguear: o mundo errava, desfocado, divertindo-se em sua roda nauseabunda. Por fim, a determinação do homem ao lado em conseguir manter-se firme o forçou a fixar um ponto no olhar, e então se deslumbrou, um tanto quanto sem convicção do que via e viria a dizer:
“Suas botas… suas botas são lindas!”, comentou, sorriso demente ao rosto, quando enfim conseguiu decifrar o que enxergava.
O outro o fitou sério. E o fez demoradamente, levando o tempo que fosse necessário para constatar que aquilo definitivamente não era um comentário aleatório ou uma piada.
“Está alucinando, talvez seja pelo choque…”, deduziu sem emoção, olhando alhures.
“Não, não estou alucinando, só estou dizendo: suas botas são realmente lindas, e essa calça? Belo jeans, coisa graúda. O sobretudo também, como tudo mais, lhe cai bem, meu amigo. A barba, o capuz, este longo cabelo que aí se esconde”, gemeu por algum tempo e achou melhor acrescentar: “Você parece um Jesus Cristo fashion”.
O outro riu.
Estavam dentro de um elevador dos mais lentos e mofados, embalados por Tom Jobim, num clichê tão absurdo que beirava o ridículo.
“Tom Jobim, bossa nova… você gosta, Jesus moderno?”, inquiriu o primeiro homem, “Eu sinceramente detesto. Bossa nova é um defunto o qual esqueceram de enterrar”, prosseguiu, escarnecendo. Permaneceu um minuto em silêncio e, não podendo mais se conter, resolveu verbalizar algo que o atormentava: “Aliás, por que minha perna dói tanto?”. Tossiu então sobre o torso da mão, agora vermelho, “veja só, é sangue!”, constatou tresvariado.
“Tenha paciência, criatura, estamos chegando”, acalmou-lhe o outro, batendo de leve em suas costas.
“Não, eu falo sério. Sabe, minha perna realmente dói muito, e, reparando bem, tenho quase certeza de que algo está errado com uma de minhas costelas”, lamuriou-se, enquanto se apalpava.
“Tudo muito real, não é?”, riu-lhe enigmático o outro, cingido por um halo.
“Sim… você tem razão… já estive aqui antes, neste mesmo elevador, odiando o mesmo Jobim, suando frio, estou certo disso. Mas quando…?”.
Ouvindo isso, o outro o agarrou pelos ombros, sacudindo-o, forçando-o a olhar dentro de seus fabulosos olhos.
“Você obviamente já esteve neste elevador, pobre homem. Isso porque você acabou de pular deste prédio”, sentenciou, lágrimas nos olhos.
“Eu… pulei?”, indagou, balbuciante, o pobre homem, olhos vidrados, tal qual um tolo diante das respostas que a vida lhe oferece, mas que, mediocremente, nunca pôde compreender.
“Sem dúvida. Ah, aqui estamos, trigésimo andar. Agora sim!”, sorriu amargo, enxugando os olhos na manga de seu sobretudo. “Eu lhe diria para nunca mais ser tão afoito a ponto de não ir além do quinto andar, mas temo que isso nunca mais venha a lhe ocorrer”.
“Eu… pulei?”.
A porta do elevador se abriu indelicadamente, revelando adiante um longo corredor a terminar numa janela de grandes proporções, aberta de par em par.
O outro, escondendo o semblante sob o capuz, estendeu o dedo trêmulo em direção à janela, ordenando a saída do homem ao seu lado.
“Agora vá, minha pobre criatura, termine o que começou. Voe, flutue, despenque!”.
“Pular…”, balbuciou, enquanto gemia e se arrastava: “você não vem junto, meu Jesus?”, choramingou o homem, desvelando olhos compassivos.
“Não, eu nunca consigo olhar essas coisas, é sempre tudo igual e terrível!”, disse o outro, virando o rosto angustiado, enquanto a porta do elevador o estreitava mais e mais, até escondê-lo por completo, não sem antes se fazer ouvir num abafado “Adeus e até, criatura!”.
Sozinho, o homem restou a encarar os números vermelhos que indicavam a descida de seu amigo. Volveu. Primeiro, olhou para a janela ao fim do corredor e depois, vagarosamente, para suas roupas rasgadas e rotas, sua perna ensanguentada, suas mãos esfoladas e, por último, para suas mortais convicções. Um corredor convidativo, convergindo de modo autoritário e sedutor para uma única janela, para uma única saída. Compreendeu.
Desceram, cada um em sua devida velocidade, cada um ouvindo um som diferente, fosse bossa nova ou o assobio do vento.
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Um comentário para “ Entrevista com Victor Hugo de Araujo Barbosa ”
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Daniel RIcardo Barbosa 27 de Janeiro de 2010 @ 09:00 1
Parabéns ao Victor Hugo pela ótima entrevista e pelo belo conto! Não deixe nunca de atender ao chamado à comunicação! E atenda somente a ele…
Acompanharei com grande interesse o seu blog e os textos que venha a publicar… e que continue a expressar suas ideias com tanta simplicidade e profundidade! É sempre o caminho mais honesto pelo qual o leitor se deixa cativar.