Arquivo de Fevereiro de 2010

Balanço sobre o Concurso

admin em 20 de Fevereiro de 2010 @ 17:54

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O concurso de contos que promovemos no ano de 2009 foi muito proveitoso. Conhecemos muitos de vocês, mantivemos um diálogo rico, tivemos o privilégio de ler seu texto. Agradecemos a confiança depositada em nosso trabalho e agora iremos compartilhar algumas das mais importantes questões que pudemos traçar durante essa experiência.


    I. Sobre Concursos Literários: Gente, concurso literário tem de ser

  • gratuito, não pode ter “taxa” de inscrição.
  • não propor que o autor pague seu livro como parte do prêmio, isso é sinônimo de arapuca.
  • divulgar short e long lists, desconfie se a long list tiver mais do que 10 indicações.
  • divulgar nome dos juízes.
  • ter critérios publicados em edital/site.
  • ser aliado a programa de fomento de leitores (como encontros em feiras, workshops, divulgação de entrevistas, bate-papo do escritor com leitores) ou propor participação de leitores em resultado.


    II. Regras no edital: O Prêmio SESC deste ano divulgou que 20% dos inscritos foram desclassificados por não atenderem às normas do edital. É muito importante saber ler regras e aplicá-las. Um escritor não pode ser desclassificado simplesmente por não saber colocar o texto em entrelinha 1,5, ou saber qual é a tipologia em que o texto deve ser formatado.
    Em nosso concurso não desclassificamos ninguém por formatação textual. Nós lemos todos os textos. Mas, gente, sério, leiam e sigam o edital. Um escritor há que ser proficiente em compreensão textual.


    III. Norma culta: O escritor há que conhecer as regras gramaticais para transgredi-las. Tenha uma boa gramática em casa para consulta. Sugerimos o Dicionário de questões vernáculas para dúvidas mais pontuais.


    IV. Gênero literário: O concurso era de contos e recebemos algumas crônicas e poemas. Para se aprofundar na questão dos gêneros literários, indicamos o A criação literária, de Moisés Massaud.


    V. Geral:
  • Evitar frases feitas, a não ser que elas tenham um propósito claro no texto.
  • Tom: o tom de sua escrita deve se guiar pela história: formal x informal. Não misturar termos formais e informais sem consciência disso.
  • Humor, drama, conflito são elementos importantes, explorá-los.
  • Encadeamento: se o leitor brecar a leitura, acabou. Testar isso com sua própria leitura em voz alta.
  • A todo custo: não seja previsível em um conto!
  • Sonoridade: Evitar eco e rimas despropositais: “a criação da armação era pura danação”. Sério, agradecemos por não ganhar a vida por nossos exemplos brilhantes.
  • Ideias são boas quando inéditas: ler muito para poder identificar o que já foi dito, o que já foi imaginado e proposto.
  • Evitar comparações, adjetivações batidas, como “formosos lábios”. Adjetivos e advérbios em excesso podem ser um ponto fraco no texto.
  • Evitar muitas explicações. Em vez de explicar, sugira. Use a sutileza.
  • Não abrevie a narrativa a fim de conquistara surpresa do leitor. Desenvolva o texto.
  • Se quiser períodos extensos, tenha certeza de não se perder neles.
  • Há finais enigmáticos e finais incompreensíveis. Cuidado.
  • Separar por asteriscos partes do texto: *** . Não é ideal para um conto, uma vez que já é uma narrativa muito curta. Ela pode interromper o fluxo de leitura e irritar o leitor.
  • O desenvolvimento é importante, mas um conto se sustenta só pela exploração da forma? Achamos que não. Muito bem escrito, mas sem gancho, sem ideia sedutora, evite.
  • Mesmo os textos recusados têm belas frases. Não deixar de desenvolver o texto por apostar em frases de efeito.
  • Não se esforce apenas para ter uma frase de efeito ou uma ideia brilhante, esforce-se para desenvolvê-la.
  • Não narre fatos. Um conto não é uma lista de fatos ou ações. Um conto deve ser o desenvolvimento de uma premissa. Desenvolvimento lento e desfecho rápido, levar o leitor até o clímax. O escritor não conta uma história apenas, ele manipula as emoções do leitor. Ele conduz o leitor pela mão para depois deixá-lo só.
  • O escritor não escreve para explicar algo, ele escreve para que nunca haja certeza, para que se instaure a dúvida e para suscitar no leitor, com muito trabalho e competência, a desconfiança.



Em uma oficina que frequentamos, o escritor Marcelino Freire resumiu a condição do escritor. Parafraseando-o: o escritor não é aquele que tem ideias. Todos nós temos ideias. O escritor é aquele que tem as palavras.

Ousamos continuar. O escritor não é também quem publica livros. Quem faz isso é o editor, uma empresa, um comércio. O escritor é quem escreve. Antes de se preocupar com lançamento, festa, reconhecimento, preocupe-se com a arte.

A profissão do escritor no Brasil é algo novo. Nosso país é uma Nação jovem. Sem percorrer meandros marxistas, esperamos que mais e mais profissões no ramo das Artes sejam reconhecidas e valorizadas. Enquanto isso não acontece, desejamos aos escritores muita força e determinação para seguir o caminho literário e torcer para que no país surjam programas sérios para a formação de leitores proficientes, que são o motor e o destino de nossos livros.

Continuem a escrever e se apliquem a escrever. Além disso, passem a exigir programas sérios de fomento da leitura, encontros de escritores e leitores (não apenas o mercado de peixe das feiras de livro), debates e prêmios literários sérios e amplamente reconhecidos.

Iremos manter uma página com dados de concursos, em http://blog.oficioeditorial.com.br/concursos-eventos-e-oportunidades/ . Se souberem de concursos legais, enviem-nos o link. Participem de concursos, discutam os concursos.


Saudações a todos,


Ofício Editorial

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Entrevista com Tatiana Alves Soares Caldas

admin em 10 de Fevereiro de 2010 @ 06:00


O conto “Relicário”, de Tatiana Alves Soares Caldas, foi o primeiro colocado no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ela e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Tatiana para que vocês possam entrar em contato com ela e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para a escritora.

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  • Nome | Tatiana Alves Soares Caldas
  • Biografia | Poeta, contista e ensaísta. Doutora em Letras pela UFRJ e professora do CEFET / RJ. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido mais de duzentos prêmios. É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e ao Clube dos Escritores Piracicaba. Publicou os livros O Legado de Cronos (contos), D’Além-mar: estudos de Literatura Portuguesa (crítica literária) e Harpoesia (poesia).
  • E-mail | tatiana.alves.rj@gmail.com
  • Facebook/ Orkut | tatiana.alves.rj@gmail.com


Conte a sua relação com a escrita
Tatiana |
Minha relação com a escrita sempre foi de paixão, bem como a leitura: os livros, desde sempre, funcionavam como uma válvula de escape de uma realidade sem grandes atrativos. Os livros – e desde pequena os recebia de presente – sempre foram a minha atividade favorita. Depois, quando comecei a escrever, descobri que havia algo que me impelia a fazê-lo. Até hoje sou assim. Posso passar um bom tempo sem escrever, mas quando me vem uma ideia, não sossego enquanto não a transformo em palavras.


A escrita tem relação com sua profissão?
Tatiana |
Sim. Toda a minha formação é em Letras, e meu mestrado e doutorado são em Literatura. Falar sobre Literatura e viver disso é muito gratificante. Não fiz Letras para ser professora, mas para pesquisar. E acabei me tornando professora para ter pessoas para me ouvir falar de Literatura. (risos)


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Tatiana |
Não tenho uma rotina para isso. Às vezes, passo semanas sem produzir nada; em outras épocas, escrevo compulsivamente. Acredito em inspiração, embora saiba que o trabalho em cima do texto é tão importante quanto a ideia original.
Escrevo na praia, na cama, antes de dormir, em algum lugar onde possa me isolar, quando vem uma ideia boa. Quando é impossível fazê-lo, anoto as linhas gerais, e depois desenvolvo. E o processo é bem diferente para poesia e para prosa: quando tenho um insight com um jogo de palavras ou uma rima inusitada, sei que aquilo se transformará em um poema. Já para os contos, vem uma história na minha cabeça: pode ser uma característica de um personagem, pode ser uma ação, ou mesmo um desfecho. E aí sei que dali sairá um conto.


Quais são seus escritores favoritos?
Tatiana |
Guimarães Rosa, incondicionalmente. Na minha opinião, um escritor inigualável. Amo demais Clarice Lispector, Machado, Florbela Espanca, Mia Couto e Saramago. De outras línguas, gosto de Poe, de Baudelaire, e de Oscar Wilde. Também sou leitora voraz de ficção científica, terror e romances policiais. Nessa linha, gosto de Stephen King e Mary Higgins Clark.


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Tatiana |
Como eu disse, às vezes tenho uma ideia solta. No caso específico de “Relicário”, as palavras da avó e o nome da cidade surgiram na minha mente, do nada. Estava pensando sobre o papel da mulher, e surgiu isso. Aí, resolvi pensar a figura da mocinha reprimida em uma cidade moralista e conservadora. Não sabia como terminar, pois o texto escapa pelos meus dedos, e dificilmente ele termina como eu imaginava. Às vezes começo sem ter a menor noção de como vai terminar. Em “Relicário”, ele terminava com a volta da santa. Mas não fiquei satisfeita com o resultado, e então acrescentei um último parágrafo para salvá-las (risos).
Demoro às vezes muito tempo até ter uma ideia, mas escrevo rápido. Um conto de duas, três laudas leva, em média, duas horas para ser escrito. Não costumo reescrever um texto, não. Pode ocorrer de, passado algum tempo, eu achar que determinado termo ficaria melhor do que outro, ou mudar o título, mas é difícil. Geralmente fica como foi feito, no embalo. Se eu começar a mexer, acho que estou descaracterizando o texto, e dificilmente aprecio o resultado.
Quando peço para alguém ler, é só para mostrar mesmo, mas já o considero pronto. Não mostro a ninguém antes de terminar. Acho que se eu me dispusesse a mudar, seria um trabalho sem fim, pois sou perfeccionista e muito crítica. Então, quando acabo de escrever, liberto-me daquele texto. Se puder publicá-lo, aí a alforria é definitiva (risos).


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Tatiana |
Atribuo 50% a cada um. Uma ideia inovadora pode se perder se não for bem desenvolvida, mas não acho possível fazer um texto primoroso sem uma ideia maravilhosa como ponto de partida.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Tatiana |
Como leitora e como professora de Literatura, considero que um texto de qualidade é aquele em que as imagens não são óbvias, em que há um trabalho com a linguagem. No caso de poesia, gosto de textos que dialoguem com outros, ou que mostrem que as palavras que ali estão foram tão bem empregadas que não haveria outra capaz de despertar a sensação que aquele texto provocou no leitor.
No caso da prosa, gosto de personagens bem construídos, coerentes, de um enredo instigante, de um final não previsível. Gosto de textos que me surpreendam.
Com relação aos meus textos, leio como se fosse alguém de fora, que não conhecesse a obra. E aí detecto eventuais defeitos. Isso logo depois de escrever. Depois de uma mudança ou outra, como disse, nunca mais mexo nele. Do contrário, não teria tempo para escrever outros. (risos)


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Tatiana |
Que o gosto é algo totalmente pessoal e subjetivo. Quando envio mais de um texto para um mesmo concurso, frequentemente acontece de ser premiado justamente aquele em que eu menos acreditava. No meu primeiro livro de contos, tentei reunir textos que versassem sobre uma mesma temática, para conferir unidade à obra. Um deles acabou entrando por sugestão do meu marido, mas eu estava decidida a não o incluir. Foi de longe o conto mais elogiado por quem leu o livro.

Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“A escritora declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de sua autora”.


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“Relicário”
Pseudônimo: Maria

Maria abriu cuidadosamente o relicário, mirando os olhos da imagem que ali ficava guardada. Ajoelhou, como fora ensinada a fazer, e principiou a entoar mecanicamente mais uma de suas preces. Emendava uma oração na outra, sem jamais obter o alívio desejado. A santa olhava, impassível, nada podendo fazer diante daquela situação. Seu olhar continha uma espécie de tristeza, uma quase resignação, que não ajudava muito a confortar a devota que a ela se dirigia.

“Mulher só sai de casa três vezes na vida: para ser batizada, para casar e para o próprio enterro” . As palavras da avó ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendita sois vós entre as mulheres. Por que, então, tantas renúncias, ó mãe?

Persignou-se, acendeu uma vela e saiu do cômodo. Em alguns segundos retornou, e trancou o relicário, evitando o olhar da santa. Em seguida, cerrou as janelas, não sem antes respirar a brisa fria que vinha de fora. Cheiro de gente, de rua, de vida. Calçou os chinelos gastos e pôs-se a ler.

Época de novena era assim mesmo. As outras vinham à sua casa rezar o terço durante vários dias. O motivo agora era a candidatura do pai de uma delas, prefeito da cidade. A novena, contudo, não parecia ajudar na reeleição do sujeito, cuja popularidade caíra vertiginosamente desde que fora visto saindo de uma casa de tolerância na cidade vizinha. Era caso perdido. E eleição também.

Pediram, então, a imagem da santa. Que percorreria a cidade, numa procissão improvisada e direcionada. Depois, passaria alguns dias na casa de cada devota integrante do grupo de oração, para recuperar a nódoa na imagem do sujeito. Maria, que não se interessava por política mas não podia negar o favor, cedeu, embora a contragosto.

No dia seguinte, bateram à porta bem cedo. Duas mulheres pertencentes ao grupo vinham buscar a Virgem, padroeira de Santa Maria da Renúncia. Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na tentativa de protelar a retirada da imagem de sua casa, pegou cuidadosamente o relicário. O grito foi uníssono. A santa havia desaparecido. Como podia uma coisa dessas? Como ela podia ser tão desalmada e ingrata a ponto de forjar o roubo da imagem em vez de cedê-la para tão nobre propósito? As beatas do lugarejo saíram, indignadas.

Os dias escoavam-se sem que a imagem aparecesse. O relicário aberto assemelhava-se a uma casca sem noz, a uma caixa sem presente. E Maria adoeceu com a falta da santinha. Ninguém mais a essa altura duvidava que a santa tivesse sido de fato roubada, embora nenhum forasteiro tivesse sido visto nos arredores na semana do desaparecimento.

De resto, tudo parecia normal em Santa Maria da Renúncia. Ou até melhor. Nem parecia inverno. As rosas desabrocharam antes do tempo, o gado – sempre tão passivo – ficou mais agitado, e a brisa que soprava no fim da tarde trazia agora um ardor inesperado. O frio, marca característica do lugar, fora repentinamente substituído por um calor sem precedentes, como se uma espécie de sezão assolasse o local. As mulheres, que antes permaneciam em casa, aquecidas, queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se, não mais ao milho, mas à contemplação alheia. Ombros e decotes foram vistos por ali, e madonas renascentistas surgiam a cada beco.

Maria mirava o relicário, agora um santuário de ausência, e pranteava a saudade que sentia de sua companheira de infortúnio. Adoecera na semana em que a Virgem sumira. Febres inexplicáveis atormentavam-na dia e noite. Certa vez, foi encontrada vagando perto da cachoeira, roupa molhada colada ao corpo. Delírio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre. E havia um moço que nada dizia, mas o sorriso em seus olhos fazia a maior prece jamais entoada em louvor à santa. Ou ao roubo.

Os ardores de Maria eram agora conhecidos e tolerados por todos no lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha. Uma alma pura que se perdera longe da proteção da santa. Bebia o vinho do pai, brindando à santa ausente. Rodopiava como se não soubesse mais o que era linha reta, e sua saia alçava voos de serpente alada. Gargalhava como se nunca houvesse frequentado colégio de freiras, e deitava-se no chão, mirando inexistentes estrelas que cintilavam proibidos latejos em sua cabeça. Em seu peito. Em seu ventre.

Dois meses depois, Maria foi despertada pelo olhar da santa, dentro do relicário. Incrédula, abriu-o, indagando, mentalmente, quem a havia roubado. Nenhuma resposta. Havia fugido, então? Um meio sorriso pareceu se desenhar no rosto da imagem. Devia estar mesmo louca, como todos julgavam. Tinha de anunciar o retorno da Virgem. Gritar. Sua protetora voltara. Abriu a janela, sentindo o vento frio de sempre agredir-lhe o rosto. A imagem, trancada no relicário, assumira o tom triste de antes.

Não pensou duas vezes. Abriu o relicário, piscando levemente, e voltou a dormir. Ambas sabiam que a santa não mais estaria ali quando Maria acordasse. Nem ela.

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Entrevista com Bruna Coletti

admin em 3 de Fevereiro de 2010 @ 20:20


O conto “Café da manhã no inferno”, de Bruna Coletti, foi o segundo colocado no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ela e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Bruna para que vocês possam entrar em contato com ela e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para a escritora.

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  • Nome | Bruna Luizi Coletti
  • Biografia | Nasceu no interior do Paraná. Adepta da leitura desde muito cedo, começou a escrever poesia aos 10 anos de idade. Na adolescência, passou a dedicar seus escritos a contos de ficção, terror e fantasia.
    Possui muitos contos escritos, porém nenhum publicado. Atualmente vive no litoral catarinense onde se dedica exclusivamente a escrever e melhorar suas histórias fantásticas.
  • Blog | http://becoletti.blogspot.com/
  • E-mail | brunalc03@gmail.com
  • Twitter | http://twitter.com/BrunaColetti
  • Facebook/ Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=42545935


Conte a sua relação com a escrita
Bruna |
Desde pequena meus pais sempre foram bons leitores e me incentivaram muito por esse caminho. Aos 10 anos comecei a escrever poesias no colégio, e percebi que gostava de escrever e ser apreciada por isso, porém deixei esse hobby de lado após alguns meses. Aos 17, impulsionada pelos livros que lia e pelas músicas de metal pesado, voltei ao papel e caneta com histórias fantásticas e sanguinárias que fluíam facilmente. Desde então, nunca mais consegui segurar essa torrente de palavras, apenas moldando e aperfeiçoando o estilo da escrita, mas não desviando do foco do terror e do fantástico.


A escrita tem relação com sua profissão?
Bruna |
É o que eu espero! Passei alguns anos escuros tentando me adaptar aos números, quando cursei bacharel em química. Mas de nada adiantou eu tentar refrear meus impulsos, e agora em 2010 inicio o curso de letras-português, e espero passar o resto da minha vida entre letras e palavras.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Bruna |
Sou uma criatura de hábitos noturnos. Escrevo e penso melhor entre a hora que o sol de põe até alguns minutos antes do nascer do sol. A frequência e local são independentes, desde que os solos de guitarra e as passagens de bateria possam ser os únicos sons ao meu redor. A música é a minha melhor companheira de aventuras literárias.


Quais são seus escritores favoritos?
Bruna |
Stephen King sempre será meu maior ídolo e fonte de inspiração. A versatilidade dele me impressiona, e as descrições de personagens e ambientes é fantástica. Cada passagem de suas histórias posso ver em minha mente com todas as cores.
Machado de Assis, na fase realista. É impressionante como alguém pode analisar e transpassar no papel tão bem o caráter (e a falta do mesmo).


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Bruna |
Esse foi o primeiro conto que eu escrevi nessa linha de ficção/terror. Foi algo extremamente novo, e surgiu a partir da imagem da janela com a árvore seca. Essa tela se formou na minha mente, e aos poucos todo o quadro foi se pintando em torno disso, com o sangue, o canibalismo e a imagem translúcida e atormentada da órfã solitária. Só deu tempo de pensar “preciso escrever isso!”. Era no meio da tarde e eu trabalhava como operadora de caixa numa loja de confecção. Me apossei do Word 98 do computador do crediário e bati as duas folhas com uma fúria inimaginável. A história fluiu assim, do começo ao fim sem pausas. O título foi mudado inúmeras vezes, e até hoje não me contento com ele! Mas foi assim que ficou conhecida, e café da manhã no inferno foi o conto que abriu meus olhos pra esse novo hobby, que hoje é uma das minhas maiores fontes de prazer!


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Bruna |
É uma amálgama dessas duas coisas. Uma ideia ruim dificilmente pode valer a pena, mesmo muito bem trabalhada. E uma ideia boa perde o brilho quando não é bem elaborada.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Bruna |
Antes de observar a estrutura da escrita, a primeira coisa que observo é o enredo. A história precisa prender, deixar aquele gostinho de “e agora?”. Os personagens devem ser marcantes, as frases precisam ter impacto. As ações devem correr naturalmente, e as coisas devem ser sentidas como uma bofetada na cara do leitor. Nada é mais pedante do que ler algumas linhas e já deduzir toda a história. A surpresa é o melhor tempero para um bom conto. Depois analiso a estrutura geral do texto.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Bruna |
Não existe nada melhor do que um leitor critico e anônimo. As maiores melhorias que eu tive na minha forma de escrever foi ouvindo atentamente as análises de pessoas desconhecidas que leram os meus contos na internet. Porque amigos e parentes sempre vão ver seus pequenos deslizes literários com olhos condescendente, mas o desconhecido não terá medo de te aplaudir com eloquência ou vaiar furiosamente. E é aí que você percebe vícios de escrita ou furos que, quando corrigidos, deixam a leitura muito mais agradável.


Acho que é isso pessoal! Muito obrigada pela oportunidade maravilhosa de poder divulgar um pouquinho o meu trabalho! Bons pesadelos a todos, e espero continuar fazendo meus leitores dormirem de luz acesa por muito tempo!
Bruna Coletti.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“A escritora declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de sua autora”.


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“Café da manhã no inferno”
Pseudônimo: Bruna Coletti

Talvez tivessem sido a solidão e o abandono ou vários anos de reclusão em um orfanato católico, sofrendo abusos diários de todas aquelas santidades. Ou as lembranças daquela infância perturbadora ou a total falta de infância. Mas descobrir a causa já não faz diferença, não muda a história, o fato é que ela havia enlouquecido.
Ninguém sabia seu nome, e duvidavam que ela mesmo soubesse. Chamavam de “a magra”, quando precisavam se referir àquela criança que ficava horas abraçada a um pedaço de pano sujo, olhando pela única janela da construção que dava a lugar nenhum, apenas a terra estéril dos fundos do orfanato, onde não se via nada além árvores mortas e madeira podre. Ela não falava, nem mesmo quando precisava ir ao banheiro ou quando sentia fome, e por isso a odiavam. Odiavam olhar aquela criatura demasiada branca e pequena de olhos fundos. Odiavam aquele silêncio, quando a batiam no rosto por demorar à mesa na hora do almoço. Odiavam ainda mais a falta de sentimento quando a tratavam como um aborto mal-feito, quando insinuavam que ela era filha de alguma prostituta que morreu de doença de Vênus. Mas o que odiavam realmente, mesmo nunca tendo admitido, era o pavor que ela causava. Não era apenas aflição, nem um medo qualquer, era o mais puro pavor. Ela exalava angústia, morte. Era o medo que eles mais odiavam.
Como todas as manhãs, ela acordou e se vestiu. Agarrada a seu pedaço de pano imundo, seguiu pelos corredores até o refeitório. Ela não andava pelos corredores como as outras crianças: ela deslizava leve e sem fazer o menor ruído, como o cadáver que se desfez de todo o peso que continha, mas continuava a vagar. Com seus olhos turvos e cinzentos, olhando para frente como se fosse atravessar as portas e paredes no caminho.
*
Tinha tomado metade da sua xícara de café e estava prestes a morder sua torrada, quando um grito agudo invadiu o refeitório, fazendo todas as cabeças se levantarem e olharem em volta, procurando a garganta de onde vinha aquela grito, quando a cozinheira Ana aparece por trás das portas da infecta cozinha. As cores haviam sumido de seu rosto e seus lábio estavam distorcidos em uma terrível mascara de horror. Parecia estar prestes a descarregar um turbilhão de palavras, mas quando sua boca se abriu, um jorro fétido de vômito se espalhou pelo chão de mármore. As crianças se afastaram da cena, com medo e com nojo do que viam. Depois de colorir o chão com restos de seu café da manha, Ana desmaiou. Foi amparada pelos inspetores que estavam tomando o desjejum, e pelos que entraram correndo no refeitório depois de ouvir seu grito horrendo. Todos se perguntavam o que teria causado aquela reação, estavam tão atônitos que só se lembraram da jovem ajudante de cozinha ao ouvirem seus soluços chorosos, entre uma exclamação e outra. Demoraram alguns minutos para entender suas palavras.

“ - Seus corpos… horrível…
pedaços no molho…
estavam no freezer,
ela os comeu… não teve intenção…”

Foi deixada no chão e continuou a balbuciar frases desconexas enquanto os inspetores entravam na cozinha. No fogão aceso, grandes panelas cozinhavam carne. Tripas, olhos emergiam e tornavam a afundar, tornando a cena um tanto desagradável. Seguiram cautelosos para o freezer aberto. Alguns dos que estavam na frente congelaram, incapazes de se mover. Alguns soltaram gritos vacilantes e voltaram correndo por onde haviam vindo. Eram corpos, ou parte deles. As cabeças de 3 crianças estavam enfileiradas em uma das prateleiras. Pálidas e com uma feição tão calma, como se estivessem dormindo em suas camas aconchegantes e não arrancadas de seus corpos, congeladas em um freezer industrial.
Alguns corpos estavam abertos, um enorme T desenhado em seus abdomens vazios. Quem fizera aquilo, quem os matara com um único corte na jugular, havia também extraído com precisão cirúrgica todos os órgãos internos das vítimas. E a pobre Ana, a cozinheira, preparando o delicioso almoço que seria servido às crianças algumas horas depois, os teria achado na geladeira menor, que ficava ao lado do freezer, e teria cozinhado todos. E temperou as vísceras das crianças, experimentou, salgou um pouco mais os miúdos de seus companheiros e tornou a experimentar. Quando foi ao freezer retirar outras carnes, não demorou nem um milésimo de segundo para gritar, e sentir a ânsia do canibalismo subindo por sua garganta. Quando Ana começou a se recuperar do desmaio, ainda estava no chão do refeitório. A notícia havia se espalhado e o mais perfeito caos reinava na sala, ecoando nos gritos de quem havia visto os corpos, no choro das crianças, em desespero, com a imagem de seus amigos mortos e congelados. Em todo o salão reinava o desespero. Então Ana fixou seus olhos lacrimosos em um banco, onde a única criança ridiculamente pálida continuava tomando seu café da manhã.
“A Magra”, pensou ela.
A menina continuava calmamente sentada em seu lugar habitual, de fronte a janela do pátio vazio, mastigando sua torrada, e Ana jurou ter visto um breve sorriso estampando naquele rosto morto, quando os olhos negros e vazios da menina se encontraram com os seus. Ana tentou conter o grito, mas foi incapaz: sentiu um frio escorregadio na espinha, como se uma criança travessa tivesse jogado gelatina dentro de suas roupas…
Nas mãos daquela frágil criança se encontrava o velho pano imundo, encharcado em um fluído marrom-avermelhado. Sangue. E seu riso histérico agora ecoava no refeitório. O riso incontido de uma criança ganhando presentes de natal. O riso de uma criança coberta de sangue.

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