O conto “Relicário”, de Tatiana Alves Soares Caldas, foi o primeiro colocado no Concurso da Ofício Editorial.
Fizemos uma breve entrevista com ela e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Tatiana para que vocês possam entrar em contato com ela e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para a escritora.

- Nome | Tatiana Alves Soares Caldas
- Biografia | Poeta, contista e ensaísta. Doutora em Letras pela UFRJ e professora do CEFET / RJ. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido mais de duzentos prêmios. É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e ao Clube dos Escritores Piracicaba. Publicou os livros O Legado de Cronos (contos), D’Além-mar: estudos de Literatura Portuguesa (crítica literária) e Harpoesia (poesia).
- E-mail | tatiana.alves.rj@gmail.com
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Conte a sua relação com a escrita
Tatiana | Minha relação com a escrita sempre foi de paixão, bem como a leitura: os livros, desde sempre, funcionavam como uma válvula de escape de uma realidade sem grandes atrativos. Os livros – e desde pequena os recebia de presente – sempre foram a minha atividade favorita. Depois, quando comecei a escrever, descobri que havia algo que me impelia a fazê-lo. Até hoje sou assim. Posso passar um bom tempo sem escrever, mas quando me vem uma ideia, não sossego enquanto não a transformo em palavras.
A escrita tem relação com sua profissão?
Tatiana |Sim. Toda a minha formação é em Letras, e meu mestrado e doutorado são em Literatura. Falar sobre Literatura e viver disso é muito gratificante. Não fiz Letras para ser professora, mas para pesquisar. E acabei me tornando professora para ter pessoas para me ouvir falar de Literatura. (risos)
Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Tatiana |Não tenho uma rotina para isso. Às vezes, passo semanas sem produzir nada; em outras épocas, escrevo compulsivamente. Acredito em inspiração, embora saiba que o trabalho em cima do texto é tão importante quanto a ideia original.
Escrevo na praia, na cama, antes de dormir, em algum lugar onde possa me isolar, quando vem uma ideia boa. Quando é impossível fazê-lo, anoto as linhas gerais, e depois desenvolvo. E o processo é bem diferente para poesia e para prosa: quando tenho um insight com um jogo de palavras ou uma rima inusitada, sei que aquilo se transformará em um poema. Já para os contos, vem uma história na minha cabeça: pode ser uma característica de um personagem, pode ser uma ação, ou mesmo um desfecho. E aí sei que dali sairá um conto.
Quais são seus escritores favoritos?
Tatiana |Guimarães Rosa, incondicionalmente. Na minha opinião, um escritor inigualável. Amo demais Clarice Lispector, Machado, Florbela Espanca, Mia Couto e Saramago. De outras línguas, gosto de Poe, de Baudelaire, e de Oscar Wilde. Também sou leitora voraz de ficção científica, terror e romances policiais. Nessa linha, gosto de Stephen King e Mary Higgins Clark.
Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Tatiana |Como eu disse, às vezes tenho uma ideia solta. No caso específico de “Relicário”, as palavras da avó e o nome da cidade surgiram na minha mente, do nada. Estava pensando sobre o papel da mulher, e surgiu isso. Aí, resolvi pensar a figura da mocinha reprimida em uma cidade moralista e conservadora. Não sabia como terminar, pois o texto escapa pelos meus dedos, e dificilmente ele termina como eu imaginava. Às vezes começo sem ter a menor noção de como vai terminar. Em “Relicário”, ele terminava com a volta da santa. Mas não fiquei satisfeita com o resultado, e então acrescentei um último parágrafo para salvá-las (risos).
Demoro às vezes muito tempo até ter uma ideia, mas escrevo rápido. Um conto de duas, três laudas leva, em média, duas horas para ser escrito. Não costumo reescrever um texto, não. Pode ocorrer de, passado algum tempo, eu achar que determinado termo ficaria melhor do que outro, ou mudar o título, mas é difícil. Geralmente fica como foi feito, no embalo. Se eu começar a mexer, acho que estou descaracterizando o texto, e dificilmente aprecio o resultado.
Quando peço para alguém ler, é só para mostrar mesmo, mas já o considero pronto. Não mostro a ninguém antes de terminar. Acho que se eu me dispusesse a mudar, seria um trabalho sem fim, pois sou perfeccionista e muito crítica. Então, quando acabo de escrever, liberto-me daquele texto. Se puder publicá-lo, aí a alforria é definitiva (risos).
O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Tatiana |Atribuo 50% a cada um. Uma ideia inovadora pode se perder se não for bem desenvolvida, mas não acho possível fazer um texto primoroso sem uma ideia maravilhosa como ponto de partida.
Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Tatiana |Como leitora e como professora de Literatura, considero que um texto de qualidade é aquele em que as imagens não são óbvias, em que há um trabalho com a linguagem. No caso de poesia, gosto de textos que dialoguem com outros, ou que mostrem que as palavras que ali estão foram tão bem empregadas que não haveria outra capaz de despertar a sensação que aquele texto provocou no leitor.
No caso da prosa, gosto de personagens bem construídos, coerentes, de um enredo instigante, de um final não previsível. Gosto de textos que me surpreendam.
Com relação aos meus textos, leio como se fosse alguém de fora, que não conhecesse a obra. E aí detecto eventuais defeitos. Isso logo depois de escrever. Depois de uma mudança ou outra, como disse, nunca mais mexo nele. Do contrário, não teria tempo para escrever outros. (risos)
De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Tatiana |Que o gosto é algo totalmente pessoal e subjetivo. Quando envio mais de um texto para um mesmo concurso, frequentemente acontece de ser premiado justamente aquele em que eu menos acreditava. No meu primeiro livro de contos, tentei reunir textos que versassem sobre uma mesma temática, para conferir unidade à obra. Um deles acabou entrando por sugestão do meu marido, mas eu estava decidida a não o incluir. Foi de longe o conto mais elogiado por quem leu o livro.
Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!
“A escritora declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de sua autora”.

“Relicário”
Pseudônimo: Maria
Maria abriu cuidadosamente o relicário, mirando os olhos da imagem que ali ficava guardada. Ajoelhou, como fora ensinada a fazer, e principiou a entoar mecanicamente mais uma de suas preces. Emendava uma oração na outra, sem jamais obter o alívio desejado. A santa olhava, impassível, nada podendo fazer diante daquela situação. Seu olhar continha uma espécie de tristeza, uma quase resignação, que não ajudava muito a confortar a devota que a ela se dirigia.
“Mulher só sai de casa três vezes na vida: para ser batizada, para casar e para o próprio enterro” . As palavras da avó ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendita sois vós entre as mulheres. Por que, então, tantas renúncias, ó mãe?
Persignou-se, acendeu uma vela e saiu do cômodo. Em alguns segundos retornou, e trancou o relicário, evitando o olhar da santa. Em seguida, cerrou as janelas, não sem antes respirar a brisa fria que vinha de fora. Cheiro de gente, de rua, de vida. Calçou os chinelos gastos e pôs-se a ler.
Época de novena era assim mesmo. As outras vinham à sua casa rezar o terço durante vários dias. O motivo agora era a candidatura do pai de uma delas, prefeito da cidade. A novena, contudo, não parecia ajudar na reeleição do sujeito, cuja popularidade caíra vertiginosamente desde que fora visto saindo de uma casa de tolerância na cidade vizinha. Era caso perdido. E eleição também.
Pediram, então, a imagem da santa. Que percorreria a cidade, numa procissão improvisada e direcionada. Depois, passaria alguns dias na casa de cada devota integrante do grupo de oração, para recuperar a nódoa na imagem do sujeito. Maria, que não se interessava por política mas não podia negar o favor, cedeu, embora a contragosto.
No dia seguinte, bateram à porta bem cedo. Duas mulheres pertencentes ao grupo vinham buscar a Virgem, padroeira de Santa Maria da Renúncia. Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na tentativa de protelar a retirada da imagem de sua casa, pegou cuidadosamente o relicário. O grito foi uníssono. A santa havia desaparecido. Como podia uma coisa dessas? Como ela podia ser tão desalmada e ingrata a ponto de forjar o roubo da imagem em vez de cedê-la para tão nobre propósito? As beatas do lugarejo saíram, indignadas.
Os dias escoavam-se sem que a imagem aparecesse. O relicário aberto assemelhava-se a uma casca sem noz, a uma caixa sem presente. E Maria adoeceu com a falta da santinha. Ninguém mais a essa altura duvidava que a santa tivesse sido de fato roubada, embora nenhum forasteiro tivesse sido visto nos arredores na semana do desaparecimento.
De resto, tudo parecia normal em Santa Maria da Renúncia. Ou até melhor. Nem parecia inverno. As rosas desabrocharam antes do tempo, o gado – sempre tão passivo – ficou mais agitado, e a brisa que soprava no fim da tarde trazia agora um ardor inesperado. O frio, marca característica do lugar, fora repentinamente substituído por um calor sem precedentes, como se uma espécie de sezão assolasse o local. As mulheres, que antes permaneciam em casa, aquecidas, queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se, não mais ao milho, mas à contemplação alheia. Ombros e decotes foram vistos por ali, e madonas renascentistas surgiam a cada beco.
Maria mirava o relicário, agora um santuário de ausência, e pranteava a saudade que sentia de sua companheira de infortúnio. Adoecera na semana em que a Virgem sumira. Febres inexplicáveis atormentavam-na dia e noite. Certa vez, foi encontrada vagando perto da cachoeira, roupa molhada colada ao corpo. Delírio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre. E havia um moço que nada dizia, mas o sorriso em seus olhos fazia a maior prece jamais entoada em louvor à santa. Ou ao roubo.
Os ardores de Maria eram agora conhecidos e tolerados por todos no lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha. Uma alma pura que se perdera longe da proteção da santa. Bebia o vinho do pai, brindando à santa ausente. Rodopiava como se não soubesse mais o que era linha reta, e sua saia alçava voos de serpente alada. Gargalhava como se nunca houvesse frequentado colégio de freiras, e deitava-se no chão, mirando inexistentes estrelas que cintilavam proibidos latejos em sua cabeça. Em seu peito. Em seu ventre.
Dois meses depois, Maria foi despertada pelo olhar da santa, dentro do relicário. Incrédula, abriu-o, indagando, mentalmente, quem a havia roubado. Nenhuma resposta. Havia fugido, então? Um meio sorriso pareceu se desenhar no rosto da imagem. Devia estar mesmo louca, como todos julgavam. Tinha de anunciar o retorno da Virgem. Gritar. Sua protetora voltara. Abriu a janela, sentindo o vento frio de sempre agredir-lhe o rosto. A imagem, trancada no relicário, assumira o tom triste de antes.
Não pensou duas vezes. Abriu o relicário, piscando levemente, e voltou a dormir. Ambas sabiam que a santa não mais estaria ali quando Maria acordasse. Nem ela.