Balanço sobre o Concurso

admin em 20 de Fevereiro de 2010 @ 17:54  | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 773

balanco - balanco
O concurso de contos que promovemos no ano de 2009 foi muito proveitoso. Conhecemos muitos de vocês, mantivemos um diálogo rico, tivemos o privilégio de ler seu texto. Agradecemos a confiança depositada em nosso trabalho e agora iremos compartilhar algumas das mais importantes questões que pudemos traçar durante essa experiência.


    I. Sobre Concursos Literários: Gente, concurso literário tem de ser

  • gratuito, não pode ter “taxa” de inscrição.
  • não propor que o autor pague seu livro como parte do prêmio, isso é sinônimo de arapuca.
  • divulgar short e long lists, desconfie se a long list tiver mais do que 10 indicações.
  • divulgar nome dos juízes.
  • ter critérios publicados em edital/site.
  • ser aliado a programa de fomento de leitores (como encontros em feiras, workshops, divulgação de entrevistas, bate-papo do escritor com leitores) ou propor participação de leitores em resultado.


    II. Regras no edital: O Prêmio SESC deste ano divulgou que 20% dos inscritos foram desclassificados por não atenderem às normas do edital. É muito importante saber ler regras e aplicá-las. Um escritor não pode ser desclassificado simplesmente por não saber colocar o texto em entrelinha 1,5, ou saber qual é a tipologia em que o texto deve ser formatado.
    Em nosso concurso não desclassificamos ninguém por formatação textual. Nós lemos todos os textos. Mas, gente, sério, leiam e sigam o edital. Um escritor há que ser proficiente em compreensão textual.


    III. Norma culta: O escritor há que conhecer as regras gramaticais para transgredi-las. Tenha uma boa gramática em casa para consulta. Sugerimos o Dicionário de questões vernáculas para dúvidas mais pontuais.


    IV. Gênero literário: O concurso era de contos e recebemos algumas crônicas e poemas. Para se aprofundar na questão dos gêneros literários, indicamos o A criação literária, de Moisés Massaud.


    V. Geral:
  • Evitar frases feitas, a não ser que elas tenham um propósito claro no texto.
  • Tom: o tom de sua escrita deve se guiar pela história: formal x informal. Não misturar termos formais e informais sem consciência disso.
  • Humor, drama, conflito são elementos importantes, explorá-los.
  • Encadeamento: se o leitor brecar a leitura, acabou. Testar isso com sua própria leitura em voz alta.
  • A todo custo: não seja previsível em um conto!
  • Sonoridade: Evitar eco e rimas despropositais: “a criação da armação era pura danação”. Sério, agradecemos por não ganhar a vida por nossos exemplos brilhantes.
  • Ideias são boas quando inéditas: ler muito para poder identificar o que já foi dito, o que já foi imaginado e proposto.
  • Evitar comparações, adjetivações batidas, como “formosos lábios”. Adjetivos e advérbios em excesso podem ser um ponto fraco no texto.
  • Evitar muitas explicações. Em vez de explicar, sugira. Use a sutileza.
  • Não abrevie a narrativa a fim de conquistara surpresa do leitor. Desenvolva o texto.
  • Se quiser períodos extensos, tenha certeza de não se perder neles.
  • Há finais enigmáticos e finais incompreensíveis. Cuidado.
  • Separar por asteriscos partes do texto: *** . Não é ideal para um conto, uma vez que já é uma narrativa muito curta. Ela pode interromper o fluxo de leitura e irritar o leitor.
  • O desenvolvimento é importante, mas um conto se sustenta só pela exploração da forma? Achamos que não. Muito bem escrito, mas sem gancho, sem ideia sedutora, evite.
  • Mesmo os textos recusados têm belas frases. Não deixar de desenvolver o texto por apostar em frases de efeito.
  • Não se esforce apenas para ter uma frase de efeito ou uma ideia brilhante, esforce-se para desenvolvê-la.
  • Não narre fatos. Um conto não é uma lista de fatos ou ações. Um conto deve ser o desenvolvimento de uma premissa. Desenvolvimento lento e desfecho rápido, levar o leitor até o clímax. O escritor não conta uma história apenas, ele manipula as emoções do leitor. Ele conduz o leitor pela mão para depois deixá-lo só.
  • O escritor não escreve para explicar algo, ele escreve para que nunca haja certeza, para que se instaure a dúvida e para suscitar no leitor, com muito trabalho e competência, a desconfiança.



Em uma oficina que frequentamos, o escritor Marcelino Freire resumiu a condição do escritor. Parafraseando-o: o escritor não é aquele que tem ideias. Todos nós temos ideias. O escritor é aquele que tem as palavras.

Ousamos continuar. O escritor não é também quem publica livros. Quem faz isso é o editor, uma empresa, um comércio. O escritor é quem escreve. Antes de se preocupar com lançamento, festa, reconhecimento, preocupe-se com a arte.

A profissão do escritor no Brasil é algo novo. Nosso país é uma Nação jovem. Sem percorrer meandros marxistas, esperamos que mais e mais profissões no ramo das Artes sejam reconhecidas e valorizadas. Enquanto isso não acontece, desejamos aos escritores muita força e determinação para seguir o caminho literário e torcer para que no país surjam programas sérios para a formação de leitores proficientes, que são o motor e o destino de nossos livros.

Continuem a escrever e se apliquem a escrever. Além disso, passem a exigir programas sérios de fomento da leitura, encontros de escritores e leitores (não apenas o mercado de peixe das feiras de livro), debates e prêmios literários sérios e amplamente reconhecidos.

Iremos manter uma página com dados de concursos, em http://blog.oficioeditorial.com.br/concursos-eventos-e-oportunidades/ . Se souberem de concursos legais, enviem-nos o link. Participem de concursos, discutam os concursos.


Saudações a todos,


Ofício Editorial

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3 comentários para “ Balanço sobre o Concurso ”

  1. gustavão 22 de Fevereiro de 2010 @ 16:36 1

    Sábias palavras, Srs. do Ofício! Em especial quanto ao comentário de que estamos só engatinhando.

    No que precisar o MCP (pequeno mas valente) apoia.

    AbraX!

  2. 22 de Fevereiro de 2010 @ 16:40 2

    PARABÉNS PELA INICIATIVA, NÓS, QUE GOSTAMOS DE LER E ESCREVER, ÀS VEZES, NOS SENTIMOS SOZINHOS NESSAS PÁGINAS AMASSADAS DA CONTEMPORANEIDADE… O CERTAME DE VOCÊS E O MODUS OPERANDI FORAM DUCA!!!!!!!! PARABÉNS MAIS UMA VEZ!!!!!!

  3. Edgar Borges 26 de Abril de 2010 @ 13:07 3

    Muito bacana o texto, especialmente pelos links e na parte das dicas sobre contos.

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