Arquivo de Abril de 2010

Entrevista com Cida Sepulveda

admin em 19 de Abril de 2010 @ 21:00

  • Nome | Cida Sepulveda
  • Biografia | Paulista do interior, ex-bancária, formada em Letras pela Unicamp, professora de Língua Portuguesa da Rede Municipal de Campinas, três livros publicados e algumas participações em antologias, escreve resenhas para o Rascunho, um filho e uma filha maravilhosos.
  • Site | www.revistavagalume.com.br
  • E-mail | cida.sepulveda@uol.com.br
  • Livros publicados Sangue de romã, Poemas,
    Coração Marginal (link no Rascunho)
    , Fronteiras – Poemas

testeira - testeira


Em nosso blog, falamos bastante sobre o escritor estreante, suas dificuldades em ser publicado por uma editora e ter o sonho do primeiro livro impresso. Hoje convidamos uma escritora já publicada e reconhecida para conversarmos. A obra de Cida Sepulveda foi chamada por Manuel de Barros de “Milagre estético” e foi resenhada por Nelson de Oliveira, entre outros.


Como é ser uma escritora já reconhecida? É mais fácil agora a publicação de novos livros?
CIDA |
Caros e caras, sou reconhecida apenas pelo poeta Manoel de Barros que muitos elogios me fez em várias cartas que me escreveu e também na apresentação do meu livro Coração marginal. O reconhecimento dele me abre portas em relação às pessoas que o conhecem, mas não no mercado editorial. A publicação do livro foi um parto a fórceps. Não espero mais facilidade para publicar o próximo livro que está quase pronto. Mas pode ser que eu tenha sorte. Entretanto, me deixa feliz ser lida pelos meus alunos do ensino fundamental do Parque Oziel. Eles leem mesmo e fazem comentários surpreendentes.


O escritor depois de publicado e reconhecido por seus leitores e críticos ainda tem novos desafios? Quais?
CIDA |
Cada texto é um novo desafio. Só assim criamos de verdade. Ao artista que se alimenta do fazer artístico, não basta reproduzir o já feito. Ele tem que sentir mudanças em seu trabalho, ainda que pouco perceptíveis a leitores menos atentos.


Falando em crítica, qual foi sua experiência em ler críticas de seu livro na mídia?
CIDA |
Foi excitante. Recebi muitos elogios de vários autores importantes. Álvaro Alves de Faria escreveu sobre meu livro de poemas Sangue de romã, no Rascunho, com muita propriedade, realçando as colocações do prefácio do filósofo Roberto Romano. Paulo Bentancur escreveu uma resenha no Estadão cujo título é O nascimento da Vênus bruta. Manoel de Barros me compara, em termos de importância, à Clarice Lispector. Maurício Melo Júnior, do programa Leituras da TV Senado, fez uma entrevista inesquecível comigo. Margarida Patriota me entrevistou no programa Autores e Livros da rádio senado. Marco Antunes, coordenador de literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, da Câmara Federal, fez um Sarau homenageando quatro damas da literatura, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Alfonsina Stormi e Cida Sepulveda… Que mais posso desejar?


Não sei se podemos falar sobre isso, mas houve um fato delicado em sua vida literária. A Academia Campinense de Letras insistiu em chamá-la para participar da academia mas depois retirou o convite. A alegação para isso nos soou como estranhamente antiliterária e até retrógrada. Pode nos falar sobre isso?
CIDA |
Posso e devo. Na época me calei porque fiquei revoltada e não queria usar meu precioso tempo com estupidez. Na verdade, o caso aconteceu com a Academia Campineira de Letras. O presidente, Sérgio Caponi, me interpelou pedindo que me candidatasse a uma cadeira. Eu respondi que não me interessava por esse tipo de prática. Ele insistiu, disse que a Academia precisava de meu nome, caso contrário, seria criticada no futuro, por ter deixado passar uma artista do meu porte. Tanto insistiu que eu disse: tudo bem. Ele, então, respondeu que era necessário pagar algumas taxas. Recuei de novo. Falei: não gasto dinheiro com isso. Não ganho dinheiro com literatura. Ele deu um jeito de me poupar as taxas. Com timidez em relação à situação fiz a inscrição. Soube logo depois que alguns membros da Academia se revoltaram contra a candidatura, me taxaram de pornográfica, profana. Disseram que fariam campanha difamatória contra meu livro. Um horror! O presidente, envergonhado, me pediu que retirasse a candidatura, para que o evento não manchasse a reputação da Academia futuramente. A Cecília Prada, que então nem me conhecia, presenciou a tal campanha. Eu não estava presente nas vezes em que me “condenaram”. O que sobra disso é nojo.


Além de escritora, você ainda desempenha vários importantes tarefas: é crítica e resenhista do jornal Rascunho, é professora, mantém o site da revista eletrônica Vagalume. Essas diversas atividades complementam-se? Elas ajudam a compô-la como escritora? Qual delas é a mais desafiadora?
CIDA |
Fazer resenhas para o Rascunho me agrada muito. Acho que a crítica literária no Brasil está praticamente extinta. Aproveito o espaço que o Rogério Pereira, editor do Rascunho, me cede e faço a minha crítica ou divulgo gente que considero importante ao cenário literário brasileiro. A Vagalume surgiu como um espaço onde eu me divulgaria e ao mesmo tempo contracenaria com outras vozes literárias. Não gosto de ter um blog, de ter voz egocêntrica. Desejo o diálogo. Acredito na comunidade, por mais individualistas que sejamos. Sim, todas as atividades ligadas à Língua Portuguesa me compõem. Adoro trabalhar como professora do ensino fundamental do município. Trabalho com textos o tempo todo, brigo para que leiam, interpretem, aprendam a gostar da própria Língua.


Sobre escrever, você se dedica tanto a contos quanto a poemas. Há o momento para a poesia e outro para a prosa, ou elas se entrecruzam?
CIDA |
A prosa poética que venho desenvolvendo desde o livro Coração Marginal tem prevalecido na minha produção artística. O poema, em sua forma tradicional, creio, está ganhando outras formas. Na verdade, os gêneros se fundem e acredito que não temos mais fronteiras tão definidas quando falamos em criação artística que envolve pesquisa de linguagem — estudos, como se diz nas artes plásticas. A poesia não está presa a gêneros.


De sua autoria, qual é seu conto e qual seu poema preferidos?
CIDA |
Na verdade, há vários, tanto poemas como contos. Do Fronteiras, cito o poema “A escola”.


Pode transcrever aqui um de seus contos ou poemas?
CIDA |
Um conto surreal que me agrada muito:

Todas as laranjas

Teresa chupou todas as laranjas do pé. As verdes doeram mais. A tarde avançava ilimitada pelas redondezas. O laranjal se estendia até a nascente, beirando o rio. A mina, incrustada na rocha, vazava um olho, o outro se continha para novas gerações. O rio ia pesado de sujeira e tédio. A água límpida da nascente provocava certo constrangimento.

Deitou-se ao lado da correnteza para sentir-se indo sem sair do chão. O som das águas, das pedras, dos insetos, da pele triscando em folhas secas zunia com insistência arcaica. Girou a cabeça para os lados com força, sentiu a musculatura do pescoço travar-se. Nos pés subiam formigas. Enrijeceu o corpo para não ser percebida – como estátua, o mundo lhe daria outras acepções.

A barriga estufada formava cadeia de morros onde as formigas encontrariam desde abrigos até deslizamentos fatais. Da boca escorriam líquidos e jorravam bagaços ainda frescos. Sentiu molhar as orelhas e arder as faces, mas não se mexeu. O sol não se dissipava, embora as horas completassem ciclos vitais.

Teresa teve o primeiro arranhão à meia-noite, em total consciência. Ele chegou a pé, tirou o canivete da cinta e cortou-lhe os cabelos tímidos. Ela parou de respirar. Seus olhos se encontraram com os dele. Teve medo, mas o encarou. Ele a devorou por dentro e por fora.

No local do crime, o povo enfiou uma cruz rústica onde gravaram o nome e a idade da vítima. O rio inundado pela tempestade lavou o sangue e o cheiro da laranja. O silêncio desbastou mágoas remanescentes. O assassino saiu ileso. Se meteu nos laranjais que refloriam iludidos. Construiu um casebre de papelão e arame nos cafundós, recanto onde o rio se contrai e vira fio de lama, e os matagais encobrem pecados.


Agradecemos a entrevista e desejamos a você muito sucesso.

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