Arquivo de 23 de Julho de 2010

Entrevista com Ana Cristina Melo

admin em 23 de Julho de 2010 @ 12:38

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  • Nome | Ana Cristina Melo
  • Biografia | Nasceu no Rio de Janeiro, em 1972. Pós-graduada em Análise de Sistemas, atua na área há mais de vinte anos, na qual tem quatro livros publicados.
    Premiada em vários concursos literários, entre eles o Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis (SESC/DF) em 2009, com publicação em algumas antologias vencedoras.
    Dedica-se à divulgação da literatura nacional. É editora do site Sobrecapa (de lançamentos literários) e mantém os blogs Canastra de Contos (de notícias literárias) e Ficção de Gaveta (de concursos literários).
    É membro da AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil).
  • Site | http://www.anacristinamelo.com.br/
  • Blog | |http://caixadedesejos.wordpress.com e http://canastradecontos.blogspot.com
  • Twitter | @anacristinamelo
  • E-mail | blog@anacristinamelo.com.br
  • Livros publicados |
    - Caixa de Desejos (Editora Usina de Letras. Rio de Janeiro, 2010). Juvenil
    - Participação na Antologia Revista Ficções 19 (Editora 7 Letras. Rio de Janeiro, 2010). Contos.
    - Participação na Antologia Humor Vermelho 2 (Editora Usina de Letras. Rio de Janeiro, 2010). Contos.


Caixa de desejos é seu primeiro livro para o público adolescente. Você também escreve contos e romances. Há momentos diferentes para textos de gêneros e de públicos diferentes? Há um gênero com o qual você se identifique mais?
Ana |
De certa forma, há momentos diferentes, sim. Considero que há uma Ana Cristina para cada gênero. De alguma forma, a que escreve textos infantis ou juvenis é mais solta, cheia de esperança, acredita e vive a vida em plenitude. Não consigo imaginar um escritor desesperançado, que não acredita no seu próximo nem na vida, escrevendo para crianças e jovens que estão começando seu percurso.
Já a Ana que escreve os contos ou os romances pode ter qualquer estado de espírito, pois essa precisa dar voz ao que me incomoda ou desagrada. Há momentos em que parece que um problema não tem saída, mesmo que esse problema não seja nosso. Nesse instante, a literatura é a grande saída, é o caminho do questionamento.
Quanto à preferência, não tenho. Sou apaixonada por todos esses gêneros e, se eu estiver vivendo o momento adequado para escrever em um deles, já me sinto realizada.


Escrever para adolescentes é diferente do que escrever para adultos?
Ana|
Sendo literatura, não há distinção. Tanto que em meu livro a linguagem e o enredo alcançaram tanto o jovem quanto o adulto. Contudo, acredito que é preciso escrever num formato mais atraente para o jovem, que leve a despertar o prazer pela leitura. Há textos que são aceitos pelo público adulto que não irão alcançar o coração da maioria do público juvenil.


No mercado editorial, há a tendência de se fragmentar o público leitor por faixa etária. Antes tínhamos crianças, adolescentes, jovens e adultos. Agora há crianças (bebês, pré-alfabetização, em alfabetização), pré-adolescentes, adolescentes, jovens leitores, jovens adultos, adultos. Quando você escreve, você escreve para um público específico?
Ana|
Mais ou menos. A minha classificação é mais simples: infantil, infantojuvenil, juvenil e adultos. Uso apenas essa divisão para dar o tratamento adequado à linguagem e aos temas. Se escrevo para o público infantil, me permito o uso de rimas, o que não farei em outros textos. No caso do juvenil, posso tratar de temas pertinentes a essa faixa, que não podem ser abordados para um texto infantil. Mas só depois que termino um livro, me preocupo em classificá-lo na divisão adotada pelo mercado editorial.


Na ficção, a maior quantidade de obras é a dirigida aos adolescentes e jovens, provavelmente pela chance de serem adotadas em escolas ou incluídas em compras do governo para as escolas e bibliotecas. Como você vê as obras atuais para os jovens? Percebe alguma tendência nos temas ou linguagem?
Ana|
Tratando-se de literatura nacional, não acho que exista uma tendência de temas ou linguagem, pelo contrário, há uma diversidade de escolhas que considero muito saudável.
Não tenho preconceitos com literatura. Acredito que um livro, se for bem escrito, é útil de múltiplas formas: atrai os leitores, cria vontade de ler, pois é a vontade que antecede o hábito, e melhora a memória visual da escrita. Contudo, não sou a favor de saturar um tema, como tenho visto com o caso de vampiros.
Mas acho extremamente salutar trazer a aventura e a fantasia para a narrativa. Essa é uma grande isca para fisgar os jovens leitores. É só observarmos o que a série Harry Potter fez com nossos jovens. Olhando meu filho dentro desse grupo, vi que do bruxinho (lido desde os sete anos) ele migrou para a clássica coleção Vaga-lume, série Olho no Lance, os livros de Sérgio Klein (que infelizmente nos deixou prematuramente), série Deltora, já chegou a Ana Maria Machado e está com Pedro Bandeira na fila. Daqui a pouco, alcançará Fernando Sabino e não tardará o momento certo para Machado de Assis, Clarice Lispector, Borges e tantos outros. Mas essa escalada precisa ser respeitada. E, se formos analisar a lista inicial, veremos aventura e fantasia enfeitando esse flerte.


Uma tendência nas obras para jovens leitores é ainda a adaptação dos clássicos. Opiniões se dividem sobre o papel das adaptações. O que você acha?
Ana|
Entendo o objetivo das adaptações de tornar mais “palatável” a leitura de alguns clássicos. Não sou contra, desde que a adaptação literária não crie uma nova obra. Há um enredo que precisa ser respeitado.
Para mim, pode ser até uma visão romântica, mas a melhor adaptação seria aquela que preservasse o enredo e parte da linguagem, para que o leitor tivesse a noção exata da obra original, mas se sentisse navegando por uma linguagem e narrativa confortáveis.


Normalmente, os escritores são multifunção, desempenhando muitas atividades e as conciliam com a escrita de livros. Você mantém o blog Sobrecapa para resenhas literárias, Canastra de contos como seu blog pessoal, e ficção de gaveta para divulgar concursos literários. Ler muito, escrever resenhas, pesquisar e atualizar notícias sobre concursos literários, como você consegue administrar o tempo?
Ana|
Receba minha gargalhada, principalmente pois vou acrescentar que trabalho oito horas em outra profissão e sou mãe de duas crianças de 6 e 12 anos.
É, sempre ouço essa pergunta. E acho que a resposta mais realista seja: otimizo ao máximo todo o tempo que tenho, mas sempre falta um bom pedaço para dar conta de todas as tarefas do jeito que gostaria. De tempos em tempos, acontece de alguma delas receber menos atenção.
Começo minha rotina às 5h e, antes de colocar as crianças na escola e sair para o trabalho, faço leitura de e-mails ou atualizo meus blogs. O caminho para o trabalho e a hora do almoço são reservados para escrever, revisar meus textos ou ler. Como só consigo escrever à mão, consigo dar forma às minhas ideias em qualquer lugar, basta sacar meu caderninho. À noite, me divido entre as crianças e alguma das atividades literárias. Nos finais de semana, quando quero dar prioridade às crianças e ao marido, saio de casa e vou passear. Na rua, não caio na tentação de ligar o computador. Mas ainda continuo escrevendo, só que em pensamento. (rs)


Bem, e sobre concursos literários? Você tem um critério para selecioná-los? Em nosso blog, por exemplo, somente indicamos aqueles isentos de taxa de inscrição.
Ana|
Normalmente também não divulgo concursos com taxa de inscrição, a não ser de locais notoriamente conhecidos e reconhecidos, como é o caso do OffFlip. Outro critério que adoto é que o edital precisa ser publicado na internet, em site ou blog próprio. Mas se eu percebo algum problema com um concurso, não volto a divulgá-lo.


Você participa de concursos literários ainda? Há algum do qual sempre participe?
Ana|
Sim, ainda participo, mas com muito menos frequência. Acredite, pela falta de tempo, às vezes perco o prazo de alguns.
Costumo me inscrever novamente naqueles em que já fui premiada. São concursos que tento me programar para mandar (nem sempre conseguindo): Concurso Literário do Servidor Público do Estado do RJ, Off Flip, Concurso de Contos Newton Sampaio, Concurso de Contos Paulo Leminski, Concurso de Contos Luiz Vilela e Prêmio SESC.


Sobre o Programa de Formação de Leitores do governo, como você vê a ação dos agentes de leitura? Como os escritores, e todos nós que adoramos ler, podemos adotar essa prática em nosso cotidiano?
Ana|
Outro dia eu escrevi sobre isso no meu blog. Acho que o gosto pela leitura se transmite por contágio (rs). Se você se empolga com um livro e depois fala dele, ou dá de presente, você plantou uma semente. Com as crianças, é preciso transformar a leitura em algo prazeroso. Nos adultos, é preciso despertar a curiosidade.
Então, acho que precisamos comentar sobre livros como comentamos sobre músicas, filmes. Comentar, incluir na lista de presentes, não só para dar como para receber.
E para quem está no meio literário de alguma forma, falar e dar mais espaço ao autor nacional. Há ótimos autores que estão produzindo há muitos anos e são completamente desconhecidos da grande massa.


Voltando ao livro novo, Caixa de Desejos, você planeja levá-lo às escolas, por meio de palestras? Como você vê essa relação do escritor de livros juvenis com a escola?
Ana|
Sim, já tenho algumas palestras agendadas para falar do livro e, principalmente, do amor à literatura. A palestra tem o título “Livro: um objeto de paixão”.
Acho que a presença do escritor em uma turma de jovens, sabendo ele ser cativante, joga por terra a ideia de que o livro e seu escritor são como caras de barba, sisudos, que falam coisas chatas (rs).
Em uma palestra que dei, em maio, para turmas de oitavo e nono anos, percebi que o aparente descaso de alguns se transformava em atenção quando eu contava quando começou minha história com a literatura.
Um escritor, quando escreve para jovens, tem que rejuvenescer o coração, para se aproximar deles.


Em seu blog, há a notícia de mais livros inéditos. Você já tem alguma editora em vista para eles?
Ana|
Além dos que estão lá, há outros que comecei depois e estou dando prioridade. Ainda não os ofertei ao mercado, mas alguns já estão em flerte com a Editora Usina de Letras (rs). O que é praticamente certo é a continuação de Caixa de Desejos, que sairá pela mesma editora.


Agradecemos a entrevista e desejamos a você muito sucesso.

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