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O narrador no romance brasileiro: ética e estética, Jaime Ginzburg (FFLCH-USP)

admin em 5 de Outubro de 2009 @ 13:23

jaime ginzburg 1 - jaime ginzburg 1
Foto fonte: www.spanport.umn.edu/news/images/JGinzburg.jpg , www.spanport.umn.edu/news/events.php

Apresentação realizada no colóquio Escritas da Violência “Representações da violência na história e na cultura contemporâneas da América Latina”, no dia 9 de setembro de 2009.


Nesse colóquio, o professor Jaime Ginzburg (FFLCH-USP) presenteou a plateia com uma provocação: a aproximação da ética e da estética à literatura. A partir dessa palestra, resumimos alguns itens e pensamos em outros. Não culpem o professor por esse post, ok? É uma releitura livre e limitada de uma palestra brilhante.


A Ética pode ser considerada por dois fatores: as convicções pessoais (crenças e valores), que compõem o campo privado, e as leis formais do Estado, que compõem o campo público. O campo de estudo da ética seria o do conflito entre o público e o privado, naquilo que fica como indefinido entre os dois. Daí podemos supor que o problema da ética é o do critério de escolha.


Na estética, o ângulo do qual se fala da obra de arte é também uma questão de escolha. A escolha do foco narrativo estabelece o que é e o que não é relevante para se contar a história.


A indeterminação ética em se definir o que é certo e o que é errado pode ser associada à indeterminação em relação ao foco narrativo. Vale pensar isso para uma teoria do narrador, da narrativa (baseado em Adorno, em A posição do narrador no romance contemporâneo).


Extrapolando a palestra, pensamos os mecanismos da narrativa, no que possibilita que a obra, em sua história e forma, seja definida pelo escritor. Ambas estão relacionadas às técnicas narrativas: ética e estética como decorrentes da história que é narrada, no conflito apresentado, no que as personagens decidem ou não contar. Na literatura, a qualidade de uma obra define-se não somente pelo conteúdo, pela história narrada, mas pela forma, as técnicas usadas na narrativa. Aos dois podem-se agregar valores como enriquecedores, como, por exemplo, o uso da metalinguagem (para expor a incerteza, como Clarice Lispector); a exploração da tragédia, no sentido de que a atribuição maior de sentido à vida é conquistada quando a vida se perde (exemplo, A hora da estrela).
Algumas tendências do romance brasileiro foram elencadas e nos permitimos acrescentar outras:

  • Voltar ao mesmo tema: como que se houvesse, no cânone literário brasileiro, um “inconsciente historiográfico”:
  • Memória da dor: a memória da perda, o narrador melancólico, que tem a memória da perda e não consegue superá-la (a base teórica para o estudo da melancolia: Walter Benjamin). A melancolia é o elemento para a revelação da finitude humana; é a motivação criativa de uma forma de produção de conhecimento, na narrativa é a investigação sobre o passado de um personagem, é o personagem tentando encontrar a solução para uma memória do passado, procurando sua remissão aos olhos do leitor);
  • Imagem da mulher: o personagem principal se constrói sob efeito da ação ou memória de uma personagem feminina. A mulher aparece como não compreendida pelo protagonista, normalmente à mulher é associado o sacrifício. A sua morte sempre é carregada de significado (cada tipo de morte, carrega um significado: acidental, assassinato, suicídio);
  • Escolha do foco narrativo: o narrador comenta sua narração (metalinguagem);
  • Não há segurança na narração. Os narradores não sabem como contar a história e não distinguem com propriedade o certo do errado. Sua fala se contradiz à sua ação, a dúvida é crucial, o conflito não pode ser previsto ou diminuído etc.;
  • Não há equilíbrio entre dano e reparo: a memória do passado se revela como forma de procurar a justiça, o que era correto, mas isso não se concretiza no presente da narrativa;
  • Conexão entre forma e tema: a forma de constituir a narrativa é tão importante quanto o tema a ser tratado. Por exemplo, em uma história em que o tema é a dor, a forma pode ser a da fragmentação;
  • A narrativa não pode menosprezar a dúvida, o conflito e a morte.


A realidade no romance é a que o escritor cria. Ela há de ser verossímil para o leitor. Se os escritores, na corrente literária francesa Oulipo, são vistos como ratos que constroem seus próprios labirintos e depois se propõem a sair, a literatura poderia ser o labirinto, e, talvez, seja mais rica à medida que põe o leitor em seu centro, acompanha-o em algumas curvas, mas depois o deixa só, e o convida a encontrar seu próprio caminho até a saída.

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