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Prêmio Literário | o escritor, o leitor, o mercado | Parte I

admin em 10 de Março de 2010 @ 14:06

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Recentemente conversamos com alguns escritores e críticos sobre a questão do Prêmio Literário. Lembramos de vários prêmios internacionais de grande repercussão e seriedade, como o The Man Booker Prize, o Goncourt, o Hugo Awards e outros.


Vimos que no Brasil há alguns bons prêmios, como o Portugal Telecom, o Prêmio São Paulo, Prêmio Machado de Assis (da ABL) e outros. E a questão que formulamos é por que no Brasil não há grandes prêmios literários, com incentivo a escritores inéditos, escritores já publicados, leitores?


O nosso propósito inicial é lançar essa questão a todos nossos leitores e aguardar suas cogitações, seus pensamentos, suas críticas. Pensar sobre isso pode não mudar o cenário, mas já será um início.

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Balanço sobre o Concurso

admin em 20 de Fevereiro de 2010 @ 17:54

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O concurso de contos que promovemos no ano de 2009 foi muito proveitoso. Conhecemos muitos de vocês, mantivemos um diálogo rico, tivemos o privilégio de ler seu texto. Agradecemos a confiança depositada em nosso trabalho e agora iremos compartilhar algumas das mais importantes questões que pudemos traçar durante essa experiência.


    I. Sobre Concursos Literários: Gente, concurso literário tem de ser

  • gratuito, não pode ter “taxa” de inscrição.
  • não propor que o autor pague seu livro como parte do prêmio, isso é sinônimo de arapuca.
  • divulgar short e long lists, desconfie se a long list tiver mais do que 10 indicações.
  • divulgar nome dos juízes.
  • ter critérios publicados em edital/site.
  • ser aliado a programa de fomento de leitores (como encontros em feiras, workshops, divulgação de entrevistas, bate-papo do escritor com leitores) ou propor participação de leitores em resultado.


    II. Regras no edital: O Prêmio SESC deste ano divulgou que 20% dos inscritos foram desclassificados por não atenderem às normas do edital. É muito importante saber ler regras e aplicá-las. Um escritor não pode ser desclassificado simplesmente por não saber colocar o texto em entrelinha 1,5, ou saber qual é a tipologia em que o texto deve ser formatado.
    Em nosso concurso não desclassificamos ninguém por formatação textual. Nós lemos todos os textos. Mas, gente, sério, leiam e sigam o edital. Um escritor há que ser proficiente em compreensão textual.


    III. Norma culta: O escritor há que conhecer as regras gramaticais para transgredi-las. Tenha uma boa gramática em casa para consulta. Sugerimos o Dicionário de questões vernáculas para dúvidas mais pontuais.


    IV. Gênero literário: O concurso era de contos e recebemos algumas crônicas e poemas. Para se aprofundar na questão dos gêneros literários, indicamos o A criação literária, de Moisés Massaud.


    V. Geral:
  • Evitar frases feitas, a não ser que elas tenham um propósito claro no texto.
  • Tom: o tom de sua escrita deve se guiar pela história: formal x informal. Não misturar termos formais e informais sem consciência disso.
  • Humor, drama, conflito são elementos importantes, explorá-los.
  • Encadeamento: se o leitor brecar a leitura, acabou. Testar isso com sua própria leitura em voz alta.
  • A todo custo: não seja previsível em um conto!
  • Sonoridade: Evitar eco e rimas despropositais: “a criação da armação era pura danação”. Sério, agradecemos por não ganhar a vida por nossos exemplos brilhantes.
  • Ideias são boas quando inéditas: ler muito para poder identificar o que já foi dito, o que já foi imaginado e proposto.
  • Evitar comparações, adjetivações batidas, como “formosos lábios”. Adjetivos e advérbios em excesso podem ser um ponto fraco no texto.
  • Evitar muitas explicações. Em vez de explicar, sugira. Use a sutileza.
  • Não abrevie a narrativa a fim de conquistara surpresa do leitor. Desenvolva o texto.
  • Se quiser períodos extensos, tenha certeza de não se perder neles.
  • Há finais enigmáticos e finais incompreensíveis. Cuidado.
  • Separar por asteriscos partes do texto: *** . Não é ideal para um conto, uma vez que já é uma narrativa muito curta. Ela pode interromper o fluxo de leitura e irritar o leitor.
  • O desenvolvimento é importante, mas um conto se sustenta só pela exploração da forma? Achamos que não. Muito bem escrito, mas sem gancho, sem ideia sedutora, evite.
  • Mesmo os textos recusados têm belas frases. Não deixar de desenvolver o texto por apostar em frases de efeito.
  • Não se esforce apenas para ter uma frase de efeito ou uma ideia brilhante, esforce-se para desenvolvê-la.
  • Não narre fatos. Um conto não é uma lista de fatos ou ações. Um conto deve ser o desenvolvimento de uma premissa. Desenvolvimento lento e desfecho rápido, levar o leitor até o clímax. O escritor não conta uma história apenas, ele manipula as emoções do leitor. Ele conduz o leitor pela mão para depois deixá-lo só.
  • O escritor não escreve para explicar algo, ele escreve para que nunca haja certeza, para que se instaure a dúvida e para suscitar no leitor, com muito trabalho e competência, a desconfiança.



Em uma oficina que frequentamos, o escritor Marcelino Freire resumiu a condição do escritor. Parafraseando-o: o escritor não é aquele que tem ideias. Todos nós temos ideias. O escritor é aquele que tem as palavras.

Ousamos continuar. O escritor não é também quem publica livros. Quem faz isso é o editor, uma empresa, um comércio. O escritor é quem escreve. Antes de se preocupar com lançamento, festa, reconhecimento, preocupe-se com a arte.

A profissão do escritor no Brasil é algo novo. Nosso país é uma Nação jovem. Sem percorrer meandros marxistas, esperamos que mais e mais profissões no ramo das Artes sejam reconhecidas e valorizadas. Enquanto isso não acontece, desejamos aos escritores muita força e determinação para seguir o caminho literário e torcer para que no país surjam programas sérios para a formação de leitores proficientes, que são o motor e o destino de nossos livros.

Continuem a escrever e se apliquem a escrever. Além disso, passem a exigir programas sérios de fomento da leitura, encontros de escritores e leitores (não apenas o mercado de peixe das feiras de livro), debates e prêmios literários sérios e amplamente reconhecidos.

Iremos manter uma página com dados de concursos, em http://blog.oficioeditorial.com.br/concursos-eventos-e-oportunidades/ . Se souberem de concursos legais, enviem-nos o link. Participem de concursos, discutam os concursos.


Saudações a todos,


Ofício Editorial

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Entrevista com Tatiana Alves Soares Caldas

admin em 10 de Fevereiro de 2010 @ 06:00


O conto “Relicário”, de Tatiana Alves Soares Caldas, foi o primeiro colocado no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ela e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Tatiana para que vocês possam entrar em contato com ela e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para a escritora.

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  • Nome | Tatiana Alves Soares Caldas
  • Biografia | Poeta, contista e ensaísta. Doutora em Letras pela UFRJ e professora do CEFET / RJ. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido mais de duzentos prêmios. É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e ao Clube dos Escritores Piracicaba. Publicou os livros O Legado de Cronos (contos), D’Além-mar: estudos de Literatura Portuguesa (crítica literária) e Harpoesia (poesia).
  • E-mail | tatiana.alves.rj@gmail.com
  • Facebook/ Orkut | tatiana.alves.rj@gmail.com


Conte a sua relação com a escrita
Tatiana |
Minha relação com a escrita sempre foi de paixão, bem como a leitura: os livros, desde sempre, funcionavam como uma válvula de escape de uma realidade sem grandes atrativos. Os livros – e desde pequena os recebia de presente – sempre foram a minha atividade favorita. Depois, quando comecei a escrever, descobri que havia algo que me impelia a fazê-lo. Até hoje sou assim. Posso passar um bom tempo sem escrever, mas quando me vem uma ideia, não sossego enquanto não a transformo em palavras.


A escrita tem relação com sua profissão?
Tatiana |
Sim. Toda a minha formação é em Letras, e meu mestrado e doutorado são em Literatura. Falar sobre Literatura e viver disso é muito gratificante. Não fiz Letras para ser professora, mas para pesquisar. E acabei me tornando professora para ter pessoas para me ouvir falar de Literatura. (risos)


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Tatiana |
Não tenho uma rotina para isso. Às vezes, passo semanas sem produzir nada; em outras épocas, escrevo compulsivamente. Acredito em inspiração, embora saiba que o trabalho em cima do texto é tão importante quanto a ideia original.
Escrevo na praia, na cama, antes de dormir, em algum lugar onde possa me isolar, quando vem uma ideia boa. Quando é impossível fazê-lo, anoto as linhas gerais, e depois desenvolvo. E o processo é bem diferente para poesia e para prosa: quando tenho um insight com um jogo de palavras ou uma rima inusitada, sei que aquilo se transformará em um poema. Já para os contos, vem uma história na minha cabeça: pode ser uma característica de um personagem, pode ser uma ação, ou mesmo um desfecho. E aí sei que dali sairá um conto.


Quais são seus escritores favoritos?
Tatiana |
Guimarães Rosa, incondicionalmente. Na minha opinião, um escritor inigualável. Amo demais Clarice Lispector, Machado, Florbela Espanca, Mia Couto e Saramago. De outras línguas, gosto de Poe, de Baudelaire, e de Oscar Wilde. Também sou leitora voraz de ficção científica, terror e romances policiais. Nessa linha, gosto de Stephen King e Mary Higgins Clark.


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Tatiana |
Como eu disse, às vezes tenho uma ideia solta. No caso específico de “Relicário”, as palavras da avó e o nome da cidade surgiram na minha mente, do nada. Estava pensando sobre o papel da mulher, e surgiu isso. Aí, resolvi pensar a figura da mocinha reprimida em uma cidade moralista e conservadora. Não sabia como terminar, pois o texto escapa pelos meus dedos, e dificilmente ele termina como eu imaginava. Às vezes começo sem ter a menor noção de como vai terminar. Em “Relicário”, ele terminava com a volta da santa. Mas não fiquei satisfeita com o resultado, e então acrescentei um último parágrafo para salvá-las (risos).
Demoro às vezes muito tempo até ter uma ideia, mas escrevo rápido. Um conto de duas, três laudas leva, em média, duas horas para ser escrito. Não costumo reescrever um texto, não. Pode ocorrer de, passado algum tempo, eu achar que determinado termo ficaria melhor do que outro, ou mudar o título, mas é difícil. Geralmente fica como foi feito, no embalo. Se eu começar a mexer, acho que estou descaracterizando o texto, e dificilmente aprecio o resultado.
Quando peço para alguém ler, é só para mostrar mesmo, mas já o considero pronto. Não mostro a ninguém antes de terminar. Acho que se eu me dispusesse a mudar, seria um trabalho sem fim, pois sou perfeccionista e muito crítica. Então, quando acabo de escrever, liberto-me daquele texto. Se puder publicá-lo, aí a alforria é definitiva (risos).


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Tatiana |
Atribuo 50% a cada um. Uma ideia inovadora pode se perder se não for bem desenvolvida, mas não acho possível fazer um texto primoroso sem uma ideia maravilhosa como ponto de partida.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Tatiana |
Como leitora e como professora de Literatura, considero que um texto de qualidade é aquele em que as imagens não são óbvias, em que há um trabalho com a linguagem. No caso de poesia, gosto de textos que dialoguem com outros, ou que mostrem que as palavras que ali estão foram tão bem empregadas que não haveria outra capaz de despertar a sensação que aquele texto provocou no leitor.
No caso da prosa, gosto de personagens bem construídos, coerentes, de um enredo instigante, de um final não previsível. Gosto de textos que me surpreendam.
Com relação aos meus textos, leio como se fosse alguém de fora, que não conhecesse a obra. E aí detecto eventuais defeitos. Isso logo depois de escrever. Depois de uma mudança ou outra, como disse, nunca mais mexo nele. Do contrário, não teria tempo para escrever outros. (risos)


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Tatiana |
Que o gosto é algo totalmente pessoal e subjetivo. Quando envio mais de um texto para um mesmo concurso, frequentemente acontece de ser premiado justamente aquele em que eu menos acreditava. No meu primeiro livro de contos, tentei reunir textos que versassem sobre uma mesma temática, para conferir unidade à obra. Um deles acabou entrando por sugestão do meu marido, mas eu estava decidida a não o incluir. Foi de longe o conto mais elogiado por quem leu o livro.

Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“A escritora declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de sua autora”.


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“Relicário”
Pseudônimo: Maria

Maria abriu cuidadosamente o relicário, mirando os olhos da imagem que ali ficava guardada. Ajoelhou, como fora ensinada a fazer, e principiou a entoar mecanicamente mais uma de suas preces. Emendava uma oração na outra, sem jamais obter o alívio desejado. A santa olhava, impassível, nada podendo fazer diante daquela situação. Seu olhar continha uma espécie de tristeza, uma quase resignação, que não ajudava muito a confortar a devota que a ela se dirigia.

“Mulher só sai de casa três vezes na vida: para ser batizada, para casar e para o próprio enterro” . As palavras da avó ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendita sois vós entre as mulheres. Por que, então, tantas renúncias, ó mãe?

Persignou-se, acendeu uma vela e saiu do cômodo. Em alguns segundos retornou, e trancou o relicário, evitando o olhar da santa. Em seguida, cerrou as janelas, não sem antes respirar a brisa fria que vinha de fora. Cheiro de gente, de rua, de vida. Calçou os chinelos gastos e pôs-se a ler.

Época de novena era assim mesmo. As outras vinham à sua casa rezar o terço durante vários dias. O motivo agora era a candidatura do pai de uma delas, prefeito da cidade. A novena, contudo, não parecia ajudar na reeleição do sujeito, cuja popularidade caíra vertiginosamente desde que fora visto saindo de uma casa de tolerância na cidade vizinha. Era caso perdido. E eleição também.

Pediram, então, a imagem da santa. Que percorreria a cidade, numa procissão improvisada e direcionada. Depois, passaria alguns dias na casa de cada devota integrante do grupo de oração, para recuperar a nódoa na imagem do sujeito. Maria, que não se interessava por política mas não podia negar o favor, cedeu, embora a contragosto.

No dia seguinte, bateram à porta bem cedo. Duas mulheres pertencentes ao grupo vinham buscar a Virgem, padroeira de Santa Maria da Renúncia. Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na tentativa de protelar a retirada da imagem de sua casa, pegou cuidadosamente o relicário. O grito foi uníssono. A santa havia desaparecido. Como podia uma coisa dessas? Como ela podia ser tão desalmada e ingrata a ponto de forjar o roubo da imagem em vez de cedê-la para tão nobre propósito? As beatas do lugarejo saíram, indignadas.

Os dias escoavam-se sem que a imagem aparecesse. O relicário aberto assemelhava-se a uma casca sem noz, a uma caixa sem presente. E Maria adoeceu com a falta da santinha. Ninguém mais a essa altura duvidava que a santa tivesse sido de fato roubada, embora nenhum forasteiro tivesse sido visto nos arredores na semana do desaparecimento.

De resto, tudo parecia normal em Santa Maria da Renúncia. Ou até melhor. Nem parecia inverno. As rosas desabrocharam antes do tempo, o gado – sempre tão passivo – ficou mais agitado, e a brisa que soprava no fim da tarde trazia agora um ardor inesperado. O frio, marca característica do lugar, fora repentinamente substituído por um calor sem precedentes, como se uma espécie de sezão assolasse o local. As mulheres, que antes permaneciam em casa, aquecidas, queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se, não mais ao milho, mas à contemplação alheia. Ombros e decotes foram vistos por ali, e madonas renascentistas surgiam a cada beco.

Maria mirava o relicário, agora um santuário de ausência, e pranteava a saudade que sentia de sua companheira de infortúnio. Adoecera na semana em que a Virgem sumira. Febres inexplicáveis atormentavam-na dia e noite. Certa vez, foi encontrada vagando perto da cachoeira, roupa molhada colada ao corpo. Delírio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre. E havia um moço que nada dizia, mas o sorriso em seus olhos fazia a maior prece jamais entoada em louvor à santa. Ou ao roubo.

Os ardores de Maria eram agora conhecidos e tolerados por todos no lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha. Uma alma pura que se perdera longe da proteção da santa. Bebia o vinho do pai, brindando à santa ausente. Rodopiava como se não soubesse mais o que era linha reta, e sua saia alçava voos de serpente alada. Gargalhava como se nunca houvesse frequentado colégio de freiras, e deitava-se no chão, mirando inexistentes estrelas que cintilavam proibidos latejos em sua cabeça. Em seu peito. Em seu ventre.

Dois meses depois, Maria foi despertada pelo olhar da santa, dentro do relicário. Incrédula, abriu-o, indagando, mentalmente, quem a havia roubado. Nenhuma resposta. Havia fugido, então? Um meio sorriso pareceu se desenhar no rosto da imagem. Devia estar mesmo louca, como todos julgavam. Tinha de anunciar o retorno da Virgem. Gritar. Sua protetora voltara. Abriu a janela, sentindo o vento frio de sempre agredir-lhe o rosto. A imagem, trancada no relicário, assumira o tom triste de antes.

Não pensou duas vezes. Abriu o relicário, piscando levemente, e voltou a dormir. Ambas sabiam que a santa não mais estaria ali quando Maria acordasse. Nem ela.

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Entrevista com Bruna Coletti

admin em 3 de Fevereiro de 2010 @ 20:20


O conto “Café da manhã no inferno”, de Bruna Coletti, foi o segundo colocado no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ela e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Bruna para que vocês possam entrar em contato com ela e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para a escritora.

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  • Nome | Bruna Luizi Coletti
  • Biografia | Nasceu no interior do Paraná. Adepta da leitura desde muito cedo, começou a escrever poesia aos 10 anos de idade. Na adolescência, passou a dedicar seus escritos a contos de ficção, terror e fantasia.
    Possui muitos contos escritos, porém nenhum publicado. Atualmente vive no litoral catarinense onde se dedica exclusivamente a escrever e melhorar suas histórias fantásticas.
  • Blog | http://becoletti.blogspot.com/
  • E-mail | brunalc03@gmail.com
  • Twitter | http://twitter.com/BrunaColetti
  • Facebook/ Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=42545935


Conte a sua relação com a escrita
Bruna |
Desde pequena meus pais sempre foram bons leitores e me incentivaram muito por esse caminho. Aos 10 anos comecei a escrever poesias no colégio, e percebi que gostava de escrever e ser apreciada por isso, porém deixei esse hobby de lado após alguns meses. Aos 17, impulsionada pelos livros que lia e pelas músicas de metal pesado, voltei ao papel e caneta com histórias fantásticas e sanguinárias que fluíam facilmente. Desde então, nunca mais consegui segurar essa torrente de palavras, apenas moldando e aperfeiçoando o estilo da escrita, mas não desviando do foco do terror e do fantástico.


A escrita tem relação com sua profissão?
Bruna |
É o que eu espero! Passei alguns anos escuros tentando me adaptar aos números, quando cursei bacharel em química. Mas de nada adiantou eu tentar refrear meus impulsos, e agora em 2010 inicio o curso de letras-português, e espero passar o resto da minha vida entre letras e palavras.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Bruna |
Sou uma criatura de hábitos noturnos. Escrevo e penso melhor entre a hora que o sol de põe até alguns minutos antes do nascer do sol. A frequência e local são independentes, desde que os solos de guitarra e as passagens de bateria possam ser os únicos sons ao meu redor. A música é a minha melhor companheira de aventuras literárias.


Quais são seus escritores favoritos?
Bruna |
Stephen King sempre será meu maior ídolo e fonte de inspiração. A versatilidade dele me impressiona, e as descrições de personagens e ambientes é fantástica. Cada passagem de suas histórias posso ver em minha mente com todas as cores.
Machado de Assis, na fase realista. É impressionante como alguém pode analisar e transpassar no papel tão bem o caráter (e a falta do mesmo).


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Bruna |
Esse foi o primeiro conto que eu escrevi nessa linha de ficção/terror. Foi algo extremamente novo, e surgiu a partir da imagem da janela com a árvore seca. Essa tela se formou na minha mente, e aos poucos todo o quadro foi se pintando em torno disso, com o sangue, o canibalismo e a imagem translúcida e atormentada da órfã solitária. Só deu tempo de pensar “preciso escrever isso!”. Era no meio da tarde e eu trabalhava como operadora de caixa numa loja de confecção. Me apossei do Word 98 do computador do crediário e bati as duas folhas com uma fúria inimaginável. A história fluiu assim, do começo ao fim sem pausas. O título foi mudado inúmeras vezes, e até hoje não me contento com ele! Mas foi assim que ficou conhecida, e café da manhã no inferno foi o conto que abriu meus olhos pra esse novo hobby, que hoje é uma das minhas maiores fontes de prazer!


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Bruna |
É uma amálgama dessas duas coisas. Uma ideia ruim dificilmente pode valer a pena, mesmo muito bem trabalhada. E uma ideia boa perde o brilho quando não é bem elaborada.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Bruna |
Antes de observar a estrutura da escrita, a primeira coisa que observo é o enredo. A história precisa prender, deixar aquele gostinho de “e agora?”. Os personagens devem ser marcantes, as frases precisam ter impacto. As ações devem correr naturalmente, e as coisas devem ser sentidas como uma bofetada na cara do leitor. Nada é mais pedante do que ler algumas linhas e já deduzir toda a história. A surpresa é o melhor tempero para um bom conto. Depois analiso a estrutura geral do texto.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Bruna |
Não existe nada melhor do que um leitor critico e anônimo. As maiores melhorias que eu tive na minha forma de escrever foi ouvindo atentamente as análises de pessoas desconhecidas que leram os meus contos na internet. Porque amigos e parentes sempre vão ver seus pequenos deslizes literários com olhos condescendente, mas o desconhecido não terá medo de te aplaudir com eloquência ou vaiar furiosamente. E é aí que você percebe vícios de escrita ou furos que, quando corrigidos, deixam a leitura muito mais agradável.


Acho que é isso pessoal! Muito obrigada pela oportunidade maravilhosa de poder divulgar um pouquinho o meu trabalho! Bons pesadelos a todos, e espero continuar fazendo meus leitores dormirem de luz acesa por muito tempo!
Bruna Coletti.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“A escritora declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de sua autora”.


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“Café da manhã no inferno”
Pseudônimo: Bruna Coletti

Talvez tivessem sido a solidão e o abandono ou vários anos de reclusão em um orfanato católico, sofrendo abusos diários de todas aquelas santidades. Ou as lembranças daquela infância perturbadora ou a total falta de infância. Mas descobrir a causa já não faz diferença, não muda a história, o fato é que ela havia enlouquecido.
Ninguém sabia seu nome, e duvidavam que ela mesmo soubesse. Chamavam de “a magra”, quando precisavam se referir àquela criança que ficava horas abraçada a um pedaço de pano sujo, olhando pela única janela da construção que dava a lugar nenhum, apenas a terra estéril dos fundos do orfanato, onde não se via nada além árvores mortas e madeira podre. Ela não falava, nem mesmo quando precisava ir ao banheiro ou quando sentia fome, e por isso a odiavam. Odiavam olhar aquela criatura demasiada branca e pequena de olhos fundos. Odiavam aquele silêncio, quando a batiam no rosto por demorar à mesa na hora do almoço. Odiavam ainda mais a falta de sentimento quando a tratavam como um aborto mal-feito, quando insinuavam que ela era filha de alguma prostituta que morreu de doença de Vênus. Mas o que odiavam realmente, mesmo nunca tendo admitido, era o pavor que ela causava. Não era apenas aflição, nem um medo qualquer, era o mais puro pavor. Ela exalava angústia, morte. Era o medo que eles mais odiavam.
Como todas as manhãs, ela acordou e se vestiu. Agarrada a seu pedaço de pano imundo, seguiu pelos corredores até o refeitório. Ela não andava pelos corredores como as outras crianças: ela deslizava leve e sem fazer o menor ruído, como o cadáver que se desfez de todo o peso que continha, mas continuava a vagar. Com seus olhos turvos e cinzentos, olhando para frente como se fosse atravessar as portas e paredes no caminho.
*
Tinha tomado metade da sua xícara de café e estava prestes a morder sua torrada, quando um grito agudo invadiu o refeitório, fazendo todas as cabeças se levantarem e olharem em volta, procurando a garganta de onde vinha aquela grito, quando a cozinheira Ana aparece por trás das portas da infecta cozinha. As cores haviam sumido de seu rosto e seus lábio estavam distorcidos em uma terrível mascara de horror. Parecia estar prestes a descarregar um turbilhão de palavras, mas quando sua boca se abriu, um jorro fétido de vômito se espalhou pelo chão de mármore. As crianças se afastaram da cena, com medo e com nojo do que viam. Depois de colorir o chão com restos de seu café da manha, Ana desmaiou. Foi amparada pelos inspetores que estavam tomando o desjejum, e pelos que entraram correndo no refeitório depois de ouvir seu grito horrendo. Todos se perguntavam o que teria causado aquela reação, estavam tão atônitos que só se lembraram da jovem ajudante de cozinha ao ouvirem seus soluços chorosos, entre uma exclamação e outra. Demoraram alguns minutos para entender suas palavras.

“ - Seus corpos… horrível…
pedaços no molho…
estavam no freezer,
ela os comeu… não teve intenção…”

Foi deixada no chão e continuou a balbuciar frases desconexas enquanto os inspetores entravam na cozinha. No fogão aceso, grandes panelas cozinhavam carne. Tripas, olhos emergiam e tornavam a afundar, tornando a cena um tanto desagradável. Seguiram cautelosos para o freezer aberto. Alguns dos que estavam na frente congelaram, incapazes de se mover. Alguns soltaram gritos vacilantes e voltaram correndo por onde haviam vindo. Eram corpos, ou parte deles. As cabeças de 3 crianças estavam enfileiradas em uma das prateleiras. Pálidas e com uma feição tão calma, como se estivessem dormindo em suas camas aconchegantes e não arrancadas de seus corpos, congeladas em um freezer industrial.
Alguns corpos estavam abertos, um enorme T desenhado em seus abdomens vazios. Quem fizera aquilo, quem os matara com um único corte na jugular, havia também extraído com precisão cirúrgica todos os órgãos internos das vítimas. E a pobre Ana, a cozinheira, preparando o delicioso almoço que seria servido às crianças algumas horas depois, os teria achado na geladeira menor, que ficava ao lado do freezer, e teria cozinhado todos. E temperou as vísceras das crianças, experimentou, salgou um pouco mais os miúdos de seus companheiros e tornou a experimentar. Quando foi ao freezer retirar outras carnes, não demorou nem um milésimo de segundo para gritar, e sentir a ânsia do canibalismo subindo por sua garganta. Quando Ana começou a se recuperar do desmaio, ainda estava no chão do refeitório. A notícia havia se espalhado e o mais perfeito caos reinava na sala, ecoando nos gritos de quem havia visto os corpos, no choro das crianças, em desespero, com a imagem de seus amigos mortos e congelados. Em todo o salão reinava o desespero. Então Ana fixou seus olhos lacrimosos em um banco, onde a única criança ridiculamente pálida continuava tomando seu café da manhã.
“A Magra”, pensou ela.
A menina continuava calmamente sentada em seu lugar habitual, de fronte a janela do pátio vazio, mastigando sua torrada, e Ana jurou ter visto um breve sorriso estampando naquele rosto morto, quando os olhos negros e vazios da menina se encontraram com os seus. Ana tentou conter o grito, mas foi incapaz: sentiu um frio escorregadio na espinha, como se uma criança travessa tivesse jogado gelatina dentro de suas roupas…
Nas mãos daquela frágil criança se encontrava o velho pano imundo, encharcado em um fluído marrom-avermelhado. Sangue. E seu riso histérico agora ecoava no refeitório. O riso incontido de uma criança ganhando presentes de natal. O riso de uma criança coberta de sangue.

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Entrevista com Victor Hugo de Araujo Barbosa

admin em 27 de Janeiro de 2010 @ 07:40


O conto “Ao ninho nunca mais voltarás”, de Victor Hugo, foi o terceiro colocado no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ele e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Victor Hugo para que vocês possam entrar em contato com ele e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para o escritor.


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  • Nome | Victor Hugo de Araujo Barbosa
  • Biografia | 21 anos. Paulista, mas paranaense de coração. Estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina; estagiário no Ministério Público. Universitário comum e quieto, cheio de planos.
  • Blog | http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com
  • E-mail | victorhabarbosa@gmail.com


Conte a sua relação com a escrita
Victor Hugo |
A comunicação é essencial para qualquer ser humano. Uma pessoa que não se comunica está fadada à solidão, ao esquecimento. Eu percebi desde pequeno o potencial das mensagens que os livros me passavam. Notei que, mesmo que o autor fosse, para mim, uma coisa abstrata, apenas uma ideia de alguém que se senta a uma mesa e escreve aquilo que leio diante dos meus olhos, a existência dele permeava cada linha, cada palavra daquele livro. O autor estava presente no livro e isso fazia dele imortal. Passei a perceber com o tempo que eu possuía mais aptidão para me comunicar através da escrita do que através da fala: conseguia chegar à mente e ao coração das pessoas muito mais facilmente e lá imprimia uma marca muito mais indelével. Com a escrita, sinto-me num mundo vasto, onde posso pacientemente explorar aquilo que sei ser mais belo, mais chocante, mais repugnante, mais triste, mais feliz, mais denso, e mostrar isso ao mundo. É um prazer imenso ser lido.


A escrita tem relação com sua profissão?
Victor Hugo |
De certa maneira sim, de certa maneira não. É muito incomum atualmente encontrar escritores, preferencialmente de ficção, que estejam atrelados ao mundo do Direito, muito embora eu me regozije de seguir caminho semelhante ao de Rubem Fonseca, Álvares de Azevedo, José de Alencar, Hilda Hilst, escritores que já passaram por uma faculdade de Direito. A verdade é que não importa a profissão que eu siga. Se contrapuser minha vida profissional à minha imaginação e à minha capacidade de apreender os momentos singulares da vida, bloquearei qualquer capacidade que possua de escrever. Se conseguir aliar ambos, contudo, mesmo que não tenham uma ligação clara, surge aí um aprendizado e um material infinito para histórias, uma oportunidade de se diferenciar.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Victor Hugo |
Ter uma rotina para fazer algo tão livre como escrever me assusta. Eu costumo aproveitar o momento de inspiração. Quando a ideia surge, é essencial que eu a aprisione de alguma maneira, para não esquecê-la ou deturpá-la. Estando intacta, eu a observo, imagino-a, relaciono-a a tudo que possa lembrá-la, a todos os sinais e significados que nela estão contidos. A partir do momento em que sinto estar a ideia embasada por elementos suficientes para torná-la digna de uma leitura, esquematizo o texto e passo a escrever. Isso pode levar o tempo que for necessário, não é bom ter pressa.
Não há lugar fixo. Já escrevi debaixo de árvores velhas, sob a grama alta, em cadeiras desconfortáveis, em computadores ultrapassados, em carteiras de madeira.
Não consigo sentir muita alegria pela vida do escritor que acorda todo dia e pensa pesaroso que tem de concluir tal e tal livro. O ato da escrita não pode ser burocrático, o que não significa que deva ser anárquico. A concentração e a sensatez devem prevalecer, bem como a vontade de escrever, aquele motor que impulsiona o escritor a continuar escrevendo, mesmo quando o relógio aponta que ele está há 6 horas sem comer e seus olhos ardem.


Quais são seus escritores favoritos?
Victor Hugo |
Milan Kundera, Rubem Fonseca, Machado de Assis, George Orwell, Dostoievski, Isaac Babel, Voltaire, Fernando Pessoa, entre outros…


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Victor Hugo |
Eu já havia escrito este conto anteriormente, de modo rápido, nada muito rebuscado, para postar no meu blog. Como me interessei pelo concurso do Ofício Editorial, resolvi incrementá-lo, para que ficasse esteticamente mais interessante, e mandar para o crivo dos julgadores. Em geral, como já expliquei, eu parto da ideia do texto, reúno elementos que colaborem com a história, esquematizo-a e escrevo. O meu interesse no concurso era o feedback dos julgadores do Ofício, e o motivo disso é que, aparentemente, é um conto sobre morte, sobre suicídio, mas o que poucos percebem é que é exatamente o contrário: “Ao ninho nunca mais voltarás” é um conto sobre a vida, sobre a dificuldade de se ir adiante, sobre os saltos que temos de dar para evoluir.


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Victor Hugo |
Não creio que as ideias inovadoras sejam imprescindíveis para a literatura. É óbvio que uma ideia original tem o poder de modificar toda uma estrutura acomodada, de livros que se repetem. No entanto, quantos Romeu e Julieta não existem pelos livros, com nomes diferentes, mas histórias similares e muitas vezes tão interessantes quanto? Eu sou adepto, então, do bom desenvolvimento da narrativa: saber prender a atenção do leitor, cativá-lo, deixá-lo inconformado por ter chegado à última página e não poder mais usufruir de tudo aquilo.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Victor Hugo |
A qualidade da obra, para mim, vem da capacidade do autor de me envolver com suas palavras, de se fazer entender o mais claramente possível. A avaliação que faço das minhas obras passa sempre por leituras infinitas do mesmo texto, em voz alta ou não, para que eu possa testar a sonoridade, o tempo, o “encaixe” de cada sentença. Quando você conhece de cabo a rabo o que escreveu, sabe o que pode mudar, o que pode melhorar, o que impressionará o leitor, por isso mesmo é necessário não se dar por satisfeito com a primeira versão do texto escrito: é bom guardá-lo na gaveta até que o sinta pronto para sair de lá.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Victor Hugo |
Ao contrário do que dizem as estatísticas, que sempre apontam o desinteresse das pessoas pelos livros, julgo que é o contrário, as pessoas amam ler. Sempre que eu posso, presenteio alguém com um texto meu ou um livro de outro autor, e é gratificante a feição que seus rostos assumem, pois sabem que aquilo demanda carinho, amor. No entanto, isso só revela o que julgo essencial na escrita: sua maleabilidade. Essa é a principal lição: as palavras assumem a forma que querem e com elas eu posso cativar alguém ou fazer essa mesma pessoa sentir náusea. A palavra é uma adaga e uma flor, ao mesmo tempo.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“O escritor declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de seu autor”.



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“Ao ninho nunca mais voltarás”
Pseudônimo: Maximiliano Arosa

Uma luz onírica afluiu aos seus olhos, transbordando-os de uma fugaz sensação de flutuação. Breve, sentiu a cabeça pesar e a visão vaguear: o mundo errava, desfocado, divertindo-se em sua roda nauseabunda. Por fim, a determinação do homem ao lado em conseguir manter-se firme o forçou a fixar um ponto no olhar, e então se deslumbrou, um tanto quanto sem convicção do que via e viria a dizer:
“Suas botas… suas botas são lindas!”, comentou, sorriso demente ao rosto, quando enfim conseguiu decifrar o que enxergava.
O outro o fitou sério. E o fez demoradamente, levando o tempo que fosse necessário para constatar que aquilo definitivamente não era um comentário aleatório ou uma piada.
“Está alucinando, talvez seja pelo choque…”, deduziu sem emoção, olhando alhures.
“Não, não estou alucinando, só estou dizendo: suas botas são realmente lindas, e essa calça? Belo jeans, coisa graúda. O sobretudo também, como tudo mais, lhe cai bem, meu amigo. A barba, o capuz, este longo cabelo que aí se esconde”, gemeu por algum tempo e achou melhor acrescentar: “Você parece um Jesus Cristo fashion”.
O outro riu.
Estavam dentro de um elevador dos mais lentos e mofados, embalados por Tom Jobim, num clichê tão absurdo que beirava o ridículo.
“Tom Jobim, bossa nova… você gosta, Jesus moderno?”, inquiriu o primeiro homem, “Eu sinceramente detesto. Bossa nova é um defunto o qual esqueceram de enterrar”, prosseguiu, escarnecendo. Permaneceu um minuto em silêncio e, não podendo mais se conter, resolveu verbalizar algo que o atormentava: “Aliás, por que minha perna dói tanto?”. Tossiu então sobre o torso da mão, agora vermelho, “veja só, é sangue!”, constatou tresvariado.
“Tenha paciência, criatura, estamos chegando”, acalmou-lhe o outro, batendo de leve em suas costas.
“Não, eu falo sério. Sabe, minha perna realmente dói muito, e, reparando bem, tenho quase certeza de que algo está errado com uma de minhas costelas”, lamuriou-se, enquanto se apalpava.
“Tudo muito real, não é?”, riu-lhe enigmático o outro, cingido por um halo.
“Sim… você tem razão… já estive aqui antes, neste mesmo elevador, odiando o mesmo Jobim, suando frio, estou certo disso. Mas quando…?”.
Ouvindo isso, o outro o agarrou pelos ombros, sacudindo-o, forçando-o a olhar dentro de seus fabulosos olhos.
“Você obviamente já esteve neste elevador, pobre homem. Isso porque você acabou de pular deste prédio”, sentenciou, lágrimas nos olhos.
“Eu… pulei?”, indagou, balbuciante, o pobre homem, olhos vidrados, tal qual um tolo diante das respostas que a vida lhe oferece, mas que, mediocremente, nunca pôde compreender.
“Sem dúvida. Ah, aqui estamos, trigésimo andar. Agora sim!”, sorriu amargo, enxugando os olhos na manga de seu sobretudo. “Eu lhe diria para nunca mais ser tão afoito a ponto de não ir além do quinto andar, mas temo que isso nunca mais venha a lhe ocorrer”.
“Eu… pulei?”.
A porta do elevador se abriu indelicadamente, revelando adiante um longo corredor a terminar numa janela de grandes proporções, aberta de par em par.
O outro, escondendo o semblante sob o capuz, estendeu o dedo trêmulo em direção à janela, ordenando a saída do homem ao seu lado.
“Agora vá, minha pobre criatura, termine o que começou. Voe, flutue, despenque!”.
“Pular…”, balbuciou, enquanto gemia e se arrastava: “você não vem junto, meu Jesus?”, choramingou o homem, desvelando olhos compassivos.
“Não, eu nunca consigo olhar essas coisas, é sempre tudo igual e terrível!”, disse o outro, virando o rosto angustiado, enquanto a porta do elevador o estreitava mais e mais, até escondê-lo por completo, não sem antes se fazer ouvir num abafado “Adeus e até, criatura!”.
Sozinho, o homem restou a encarar os números vermelhos que indicavam a descida de seu amigo. Volveu. Primeiro, olhou para a janela ao fim do corredor e depois, vagarosamente, para suas roupas rasgadas e rotas, sua perna ensanguentada, suas mãos esfoladas e, por último, para suas mortais convicções. Um corredor convidativo, convergindo de modo autoritário e sedutor para uma única janela, para uma única saída. Compreendeu.
Desceram, cada um em sua devida velocidade, cada um ouvindo um som diferente, fosse bossa nova ou o assobio do vento.

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Entrevista com Carlos Alberto Silva

admin em 21 de Janeiro de 2010 @ 06:16


O conto “Separação”, de Carlos Alberto, recebeu menção honrosa no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ele e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Carlos Alberto para que vocês possam entrar em contato com ele e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para o escritor.

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  • Nome | Carlos Alberto Silva
  • Biografia | Carlos Alberto Silva nasceu na cidade de São Gonçalo do Sapucaí, no sul do estado de Minas Gerais, em 7 de julho de 1970. Trabalhou nos Correios e na Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais e atualmente é economiário. A aptidão pelas letras desde a escola primária o motivaram a continuar escrevendo. Alguns de seus textos foram premiados em concursos literários e publicados em antologias.
  • E-mail | cssgsmg@hotmail.com ou carlosalberto.oi@oi.com.br
  • Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16403549481218065285


Conte a sua relação com a escrita
Carlos Alberto |Creio que a resposta mais verdadeira seja “escrevo porque tenho alguma habilidade para isso, porque um dia escrevi um texto qualquer, tive prazer em fazê-lo e o resultado foi bom”. Mas o que me motiva é tentar escrever melhor. Sabemos que há muitas maneiras de se dizer a mesma coisa e o mérito de um bom escritor é ser capaz de dizer precisamente o que deseja dizer.


A escrita tem relação com sua profissão?
Carlos Alberto | A escrita e o conhecimento da língua certamente me são úteis no trabalho, mas são universos bastante distintos.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Carlos Alberto |Faço literatura desde que me alfabetizei, mas isso sempre aconteceu de forma esporádica. Mesmo hoje leio e escrevo um pouco menos do que deveria, já que escrever é um exercício constante de aperfeiçoamento. Para escrever eu preciso de um tempo e de uma tranquilidade de que nem sempre disponho. O escritor precisa estar ausente da realidade, e para quem não vive da literatura nem todo tempo livre é tempo útil para escrever. Há quem abra o laptop em qualquer lugar público e trabalhe ali mesmo, mas não sou uma dessas pessoas.


Quais são seus escritores favoritos?
Carlos Alberto |Se apontar um escritor favorito, corro o risco de não estar dizendo a verdade. Pode ser algum de quem só li um livro ou pode ser que eu ainda não o tenha lido. Vou citar os dois autores que mais li nos últimos tempos: Fernando Sabino e Rubem Fonseca, tão opostos quanto extraordinários. Enquanto Sabino convida o leitor a uma conversa agradabilíssima, Fonseca parece buscar um nível de violência e imoralidade que chegue a ofender até seu leitor menos escrupuloso. Eu os descobri tarde por serem autores de textos curtos, motivo pelo qual os leio agora, mais por interesse de escritor do que de leitor.


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Carlos Alberto |O conto “Separação” nasceu de uma boa sacada: “E se um homem heterossexual decidisse pedir pensão alimentícia a um ex-colega de apartamento?” Minha intenção era que fosse apenas aparentemente banal e que o leitor não deixasse de perceber nele uma crítica à sociedade atual, com suas leis, códigos e estatutos. Não fiz nenhum planejamento, só tinha em mente que era um texto para escrever à maneira de Luís Fernando Veríssimo, conciso, leve, divertido. Sei que Veríssimo tem uma legião de imitadores, mas quando terminei, percebi que havia me saído muito bem. Eu o escrevi em poucos minutos. Se não consigo assim (e geralmente não consigo) costumo demorar muito. Depois de pronto, mesmo voltando a ele diversas vezes, como faço habitualmente, quase nada foi alterado. Tento escrever logo o texto definitivo, senão começo a achar que está bom o que escrevi, mesmo que não esteja, ou tenho dificuldade em fugir do que já está feito. Na verdade não gosto de fazer alterações. Se depender de mim, até os inconvenientes cacófatos, lugares comuns e afins acabam ficando. Um texto se torna definitivo quando chega às mãos do leitor, então eu sou o meu primeiro leitor. E se não for publicado, ninguém terá acesso a ele, a não ser minha esposa. Ela tem uma capacidade única para perceber detalhes da trama e identificar inconsistências.


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Carlos Alberto |Existe o consenso de que não há histórias ruins, mas histórias mal contadas. Bem, é claro que existem, mas concordo com a afirmação. É possível narrar qualquer coisa de maneira cativante, ou pelo menos eficiente, portanto o desenvolvimento é mais importante do que a ideia. Eu, particularmente, preciso de uma ideia concreta, e acho importante que o texto chegue a algum lugar. O final precisa significar alguma coisa, e, embora eu raramente saiba como será, ele costuma surgir na hora certa. Tenho lido contos bem elaborados sobre coisa nenhuma, mas não gosto disso. Algumas das minhas melhores páginas estão na gaveta porque não se transformaram em uma história.


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Carlos Alberto |Uma obra literária deve ser feita para o leitor. Deve ser compreendida por ele e ter algo a oferecer. Deve, creio, se situar acima do leitor em algum aspecto. O escritor precisa saber o que faz, quem ele representa, ou, se propõe algo novo, deve saber exatamente o que é. Quanto a mim, o que escrevo são exercícios, e alguns bem-sucedidos. Eu releio meus textos muitas vezes, mas não mexo nos que considero bons. Os outros, eu procuro corrigir e aperfeiçoar, mas nunca tento reescrever. Ficam sempre à espera de que eu encontre uma porta, um meio de ter acesso a eles para resgatá-los.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Carlos Alberto |Mais de uma vez eu achei que estava pronto, para depois descobrir que não. Hoje tenho consciência do quanto posso evoluir. Mas descobri que nenhum escritor é bom o suficiente. Há algum tempo li um artigo em que o autor distribuía críticas duras a escritores reconhecidos. Classificava escritores como obscuros, falava em gerações inteiras que não resistiram ao tempo e, no final, praticamente afirmava que abaixo de Machado de Assis (que também foi criticado) não existe ninguém. Um exagero, é claro, mas escrevem essas coisas por aí.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“O escritor declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibido a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de seu autor”.


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“Separação”
Pseudônimo: Belo

Eduardo e Jurandir eram dois amigos que dividiam um apartamento havia alguns anos. Conheceram-se por intermédio de uma amiga comum. Por algum tempo a relação fora conveniente, mas chegara a hora de cada um seguir seu caminho.
– Meu relacionamento com a Soninha está ficando sério e eu preciso morar sozinho – disse Eduardo como se não tivessem falado do assunto durante semanas.
Jurandir tinha certeza de que não era verdade. E de fato não era. No tempo das vacas magras, quando eles comiam pão de fôrma e dividiam o desodorante, deram-se por satisfeitos porque nenhum dos dois roncava ou gostava de música romântica sertaneja. Eduardo batalhava por uma carreira de publicitário e Jurandir tentava o mesmo no jornalismo. Mas agora Eduardo colhia os frutos de mais uma campanha vitoriosa para um grande fabricante de bebidas e Jurandir apenas havia trocado os classificados pelo caderno da cidade. Eduardo conhecia mulheres cada vez mais bonitas e comprava desodorantes cada vez mais caros. Tinha um home theater com monitor wide screen gigante e uma coleção de DVDs importados.
Jurandir estava emocionado.
– Desculpe. Uma separação é sempre dramática – ele era sempre dramático.
– Se precisar de alguma coisa, “estamos aí”.
– Acho que podemos resolver tudo amigavelmente.
– Quê?!
– Você vai precisar me pagar uma pensão – Jurandir já não demonstrava nenhuma emoção.
– Tá louco?!
– Você ganha muito mais do que eu. Sabe que eu vou passar por dificuldades.
– E por acaso eu sou seu marido?
“Só pode ser brincadeira”. Eduardo sabia que as inconveniências do Jurandir nunca eram brincadeira.
– A lei está cada vez mais abrangente nessas questões.
– Você só pode estar louco!
– Du, é comum as pessoas confundirem as relações. Entendo que você não tenha se dado conta, mas temos uma história juntos.
– Por acaso constituímos uma família?
– Há várias modalidades de família. Não se lembra de Friends?
Friends! – erguendo o indicador na direção de Jurandir, e como quem diz “Bingo!” – amigos. É isso o que somos. Amigos!
– Nós até já dividimos uma cama de casal, Du!
– No churrasco no sítio do Marcão? Oito pessoas. Só tinha dois quartos. Eu estava virado para os pés. A porta estava aberta e tinha gente dormindo na sala.
– Eles comentam até hoje.
– Gozação. Eles comentam até hoje que você ficou com um travesti no Carnaval de 99. E isso também é mentira.
– Talvez não seja.
Eduardo não tem palavras. Jurandir:
– Também dormimos juntos aqui por um bom tempo. A faxineira pode confirmar.
– Pouquíssimo tempo! Só até você comprar uma cama.
– Tudo bem. Eu tenho provas materiais. O aluguel está no seu nome e sou eu quem paga. Com cheques. O banco pode fornecer cópias.
“Canalha!”
– Mas eu deposito a minha parte na sua conta!
– Nada mais harmonioso.
– Você não vai conseguir nada com isso.
– Nós saímos juntos e tomamos vinho, Du! Amigos não tomam vinho!
– Você toma vinho! Eu tomo cerveja.
– Aquela importada, de garrafinha? Muito suspeita. E o cinema? Nós vamos juntos ao cinema.
– Jackie Chan! Quem você queria que eu chamasse?
– Como pode negar a nossa relação, Du? Eu deixava bilhetinhos em francês para você!
– Mania sua de praticar. Eu não guardei nenhum. E pare de me chamar de Du.
– Tudo bem. E o Le Petit Prince que você me deu? Com aquela dedicatória? Você assinou “Du”.
Eduardo estava derrotado. Tentou uma defesa:
– Você queria uma leitura fácil. Eu achei que aquela era fácil.
Mas era inútil. Um exemplar de Le Petit Prince, original em francês, com aquela dedicatória, e assinado “Du”, era prova cabal, irrefutável, irrecorrível, irretratável.
– Vamos expor nossa intimidade num tribunal, Du? Um caso como esse vai parar na televisão. Meus colegas da imprensa vão se solidarizar. Você não vai querer esse tipo de publicidade. Se resolvermos tudo amigavelmente vai passar despercebido. Casos resolvidos com honestidade e respeito não interessam a ninguém.
Eduardo duvidava disso. Jurandir completou:
– Minha “advogada” disse que você não tem chance!
O advogado do Eduardo o aconselhou a ter cautela. Era preciso pensar em todas as consequências de uma separação. Dar um tempo para ver se não se acertavam ou se Jurandir não se interessava por outra.
Hoje Eduardo e Jurandir ainda vivem juntos. Jurandir ficou com a parte de baixo da geladeira e o banheiro do corredor. Usa a sala nos dias ímpares mas não pode ligar o home theater. Pelo menos não quando o Eduardo está em casa.

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Entrevista com Roberto C. Belli

admin em 9 de Janeiro de 2010 @ 23:27


O conto “Olhos amarelos”, de Roberto, recebeu menção honrosa no Concurso da Ofício Editorial.


Fizemos uma breve entrevista com ele e foi-nos autorizado transcrever o conto na íntegra. Deixaremos aqui os dados de Roberto para que vocês possam entrar em contato com ele e pedimos a gentileza de, se desejarem reproduzir algum trecho do texto, peçam a autorização para o escritor.

robertoBELLI - robertoBELLI

  • Nome | Roberto C. Belli

  • Biografia | Roberto C. Belli nasceu em Blumenau, SC. É escritor desde a sua graduação em Letras pela Furb (Universidade Regional de Blumenau), época em que publicou poemas na antologia Outros catarinenses escrevem assim (Ed. Acadêmica, 1979). Nesse ano também tirou o primeiro lugar no Concurso de Contos da Furb, com o conto “O meu fantasma do espaço” e com publicação no livro Os contos da Furb (Ed. Furb, 1986). Criou a coluna “Ficção Científica”, em 1987, no Jornal de Santa Catarina, a qual durou seis meses e foi censurada por críticas ao prefeito local. Concomitante, foi desenhista têxtil de 1975 a 1986, trabalhando para várias indústrias de Blumenau, entre elas estão a Cia. Hering, a Artex e a Sul Fabril. Foi também redator publicitário de duas pequenas agências de propaganda da mesma cidade, Scriba e Direcional. Em 1991, mudou-se para São Paulo, onde foi revisor de textos da editora Scipione por sete anos e teve contato com a literatura do eixo Rio – São Paulo. Em 1997, devido à crise, o grupo Ática, ao qual pertencia a Ed. Scipione, é vendido para empresas estrangeiras e, sendo assim, voltou a trabalhar para várias agências de propagandas de São Paulo, entre elas estão a PA Publicidade, do Grupo Pão de Açúcar, onde ficou vários anos, e a maior agência do ABC paulista, Octopus, de Santo André. Em 2002, volta para Blumenau, para dedicar-se ao universo literário infantil, para o qual já escrevia desde 1999. De 2004 a 2009 foi roteirista para desenhos animados e quadrinhos na Belli Studio Design, estúdio pertencente ao seu irmão, Rubens Belli. Aí, escreveu roteiros de nove números da revista em quadrinhos das “Aventuras de Betinho Carrero” e também uma série de 21 episódios de desenho animado para o Beto Carrero World com os mesmos personagens. Para a Editora Todolivro, sua contribuição abrange contos, quadrinhos, traduções, adaptações e divulgação científica para as Editoras do grupo Todolivro, sendo autor de muitos livros de entretenimento infantil e educativos em circulação nacional. Entre as muitas coleções e títulos, pode-se destacar a “Coleção Sentimentos”, em títulos como O elefante que queria tudo e A abelha que queria ser rainha (Ed. Todolivro, 2004), e a série de cinco histórias de Maguinho, que constam no livro único Aventuras de Maguinho na Cidade do Conhecimento (Ed. Todolivro, 2006). Também publicou vários contos em revistas, como “A fábrica”, para a Revista de Divulgação Cultural da Furb (1995), e antologias, como “Linda” e “Astronomia”, que saíram nas antologias Prosa & Verso, organizadas pela Sociedade Escritores de Blumenau – SEB (2004/2005). Publicou também Os Ceifadores (2007), livro do gênero fantasia e ilustrado pelo saudoso desenhista e quadrinista Eugênio Colonnese, criador da famosa personagem Mirza, a Mulher Vampiro.
  • Blog | www.transiderais.blogspot.com
  • E-mail | robertocbelli@gmail.com
  • Twitter | Não uso.
  • Facebook/ Orkut | Apenas utilizo o Orkut para me comunicar com parentes e amigos.





Entrevista


Conte a sua relação com a escrita
Roberto | É muito complicada, pois ainda não tenho todo o meu tempo disponível para escrever o que eu, quero que é ficção científica e fantasia. Porém, admito que tive a felicidade de encontrar um nicho de mercado na área infantil e um editor que apostou nisso e possibilitou uma remuneração pelo que escrevo. Essa experiência é muita boa, mas meu texto verdadeiro estaria com a ficção científica, que faço nas horas vagas. Tenho escrito e reescrito muitos contos e elaborado complexas histórias para romances de ficção científica. Nos poucos concursos de contos de que participei na minha cidade, Blumenau, tirei primeiro lugar, e o mais marcante foi o da Universidade de Blumenau (1979). Mas nessa época, os professores consideravam o gênero ficção científica como subliteratura de bolso e não se podia nem pensar em seguir carreira de escritor. Aqui em Blumenau, trabalhar na indústria era só o que importava, e ser escritor não era uma profissão bem vista (e ainda não é, a não ser que você seja escritor infantil…). Hoje, tenho tido mais tempo e vou retirando da gaveta os romances e contos e vou lapidando-os. A escrita da ficção científica depende muito de novidades e de imaginação (inventar coisas que os outros ainda não inventaram). Para mim, isso não tem sido uma tarefa muito difícil. E, por isso, finalmente, sinto que estou novamente indo ao encontro do meu verdadeiro texto, a ficção científica. Estou começando a ficar muito feliz por isso!


A escrita tem relação com sua profissão?
Roberto |Sim. Desde que me desliguei do desenho das indústrias têxteis de Blumenau, nas quais trabalhei durante 12 anos, e, após me formar em Letras, passei a trabalhar com redação em agências de propaganda e revisor de textos em editoras de livros. Daí a ser escritor profissional foi mais ou menos rápido, coisa que faço desde 1999. Desenvolvi roteiros para animação e quadrinhos para o estúdio de meu irmão, a Belli Studio, concluindo essa fase até o ano passado, que considero experiência excelente. No momento, escrevo literatura infantil e adaptações dos clássicos juvenis para a Editora Todolivro.


Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?
Roberto |Venho para o computador lá pelas oito horas da manhã, leio meus e-mails de trabalho e os respondo, estabelecendo as urgências do dia ou da semana. Leio os jornais e as crônicas de amigos escritores. Muito raramente escrevo de manhã. À tarde e à noite é que as ideias fluem melhor, sendo, portanto, este o horário que mais avanço nos meus textos.


Quais são seus escritores favoritos?
Roberto |Muitos! Comecei a ler ficção científica (hard) na adolescência, por isso Clarke, Asimov e Heinlein são os meus favoritos desde sempre. Edgar Allan Poe, Ray Bradbury, Philip K. Dick, Frank Herbert, Orson Scott Card, Poul Anderson, Stanislaw Lem, etc. também vieram juntos e garantem os primeiros lugares da lista, assim como Douglas Adams e Neil Gaiman. Dos brasileiros, Roberto de Sousa Causo, Jorge Luiz Calife, Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, além, é claro, de Fausto Cunha e Jerônimo Monteiro são, além de favoritos, minhas referências. Claro que gosto muito de Saramago e Ruben Fonseca! Adoro literatura de divulgação científica e os meus favoritos são Carl Sagan, Richard Dawkins, Stephen Hawkins e Stephen Jay Gould e do lado brasileiro, Marcelo Gleiser. Não posso deixar de citar os meus colegas blogueiros, que embora não conheça todos, nunca deixo lê-los, como Giulia Moon, Martha Argel, Adriano Siqueira etc. E o cronista e escritor do Jornal de Santa Catarina Maicon Tenfen, com quem troco ideias.


Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)
Roberto |Quando soube do Concurso de Contos da Ofício Editorial, vi que era uma oportunidade para criar um conto novo. E logo me veio a ideia de um rapaz com a habilidade única de distinguir invasores alienígenas no meio da multidão apenas “sentindo” que eles tinham olhos amarelos. Escrevi primeiro a parte do personagem Antônio a lápis no primeiro papel que vi pela frente. Depois, vi que não tinha uma história. Então, tive a ideia de o rapaz Antônio (Tom) ser interrogado dentro de um sanatório, mas deixando esse cenário meio que em aberto, para trazer um clima de “Arquivo X”. Num conto curto, precisava passar rapidamente essa ideia e, então, veio-me a estrutura de começar com um narrador-observador (3ª pessoa), depois passar para narrador-personagem (1ª pessoa) e finalizar em tom mais dramático possível novamente com o narrador-observador (3ª pessoa). Mas isso foi feito intuitivamente, pois só agora percebo que escolhi o narrador-observador e não o narrador-onisciente pelo motivo de que o observador é o único que poderia dar o ar misterioso e deixar em aberto para o leitor ficar com suspeitas. Não cheguei a reescrever, mas fiz mais de cinco alterações (sempre faço muitas alterações). Deixei o conto de lado e retomei uma semana depois para finalizar. Dei para a minha esposa, Cristina, que gostou muito. Aí, fizemos a correção ortográfica (minha esposa é uma excelente revisora de textos) e enviei.


O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?
Roberto |Acho que uma ideia inovadora já vem com um bom texto. Entretanto, ficar trabalhando muito o texto pode parecer que, na verdade, não se tem uma história de fato para contar. Aprendi isso lendo Syd Field. Eu só trabalho o texto quando tenho uma história, faço e refaço dezenas de vezes. Se ainda não ficou bom, deixo de lado e vou retomar uma semana ou um mês depois, para ver se tem solução. Praticamente, todos os meus contos ainda não foram publicados, o que me dá a oportunidade de ficar mexendo neles. Alguns já viraram até romance…


Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?
Roberto |Eu sou muito crítico com o meu trabalho. Talvez por isso nunca publiquei um romance ou um livro de contos só meu. Sempre tenho algo a acrescentar ou a retirar. Acho que o apuro literário vem quando você consegue encontrar as palavras exatas. Isso é muito difícil para mim. Por isso, estou sempre relendo e reescrevendo. Não existem mais primeiras versões de meus textos, pois como são guardados em arquivos, eles já foram muitas vezes modificados. Tenho contos antigos que eu poderia dizer que seriam “primeiras versões”, mas são desdobramentos de outros contos ou ideias. Eu guardo essas “primeiras versões” para ver o rumo que dá à história modificada em outro arquivo ou desdobramento.


De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?
Roberto |Quando comecei a escrever, fazia isso intuitivamente e de maneira desorganizada. Aprendi, primeiro, que se deve revisar o texto exaustivamente, até ter certeza que não há um erro que fará com que todo o trabalho que levou dias fique perdido na impressão. Aprendi isso quando tive uma coluna de jornal… Em segundo lugar, não pensar que o leitor precise de todas as explicações. A linha tênue entre um bom texto e um mau texto está exatamente nas explicações desnecessárias. Por isso, a “lei do corte” vale muito, porque o leitor precisa imaginar alguma coisa. Mesmo que seja uma criança.


Agradecemos sua participação no concurso e desejamos muito sucesso!


“O escritor declara que o texto é original e de sua exclusiva autoria. É proibida a reprodução parcial ou integral deste texto sem autorização expressa de seu autor”.

olhosamarelos - olhosamarelos


Conto

“Olhos amarelos”
Codinome: Cid Campos

Dois homens de guarda-pó branco caminhavam por um corredor úmido e pouco iluminado.
— Esta será a última tentativa… — disse, irritado, Cabelos Escuros.
— Mas, agora, a solução é perfeita. Ele vai reagir bem — disse Careca.
— E esse tique nervoso? Dá pra corrigir isso? — e, dizendo isso, seus lábios entortaram como se fossem puxados para trás. Depois, voltou ao normal.
— Não se preocupe, é uma questão de calibragem.
Pararam diante da porta que dava para a sala de interrogatórios. Um segundo depois, entraram. Ali, Antônio aguardava entediado, arrumou-se na cadeira ao vê-los.
— Podemos começar? — disse Careca.
Nervosamente, Antônio procurou olhar nos olhos dos visitantes que se sentavam à mesa. Os homens esperaram por uma resposta do rapaz.
— Tá… Tudo bem! — disse Antônio com um gesto inseguro.
— Se não estiver se sentindo bem, Tom, podemos voltar amanhã — disse Cabelos Escuros.
— Nã-não! Estão limpos. Acho que não vejo em vocês o que vejo nos outros…
Então, abriram as maletas e retiraram a câmera e o tripé. Ligaram.
— Poderia contar tudo, por favor?

olhos2 - olhos2

Quando vi pela primeira vez os homens de olhos amarelos espreitando a raça humana — eu sei que falar dessa maneira soa esquisito, mas é assim mesmo que eu os vejo — foi no dia do meu aniversário.
A festa era na chácara do meu avô. Convidei só a galera mais chegada, dezesseis pessoas. E, claro, convidei a Natália. Eu tava muito a fim dela. Ela nem fazia ideia, sabe? Eu queria pedir para namorar nesse dia.
À tardinha, finalmente, eu consegui destravar. Era o momento certo, tinha até um perfume de flores no ar, um calor gostoso, e a piscina estava ótima. A chácara do meu avô é demais! Aí, falei pra ela… E ela:
— Tom, desculpa… Eu gosto de você como amigo.
Aí, fiquei em silêncio. Não sei por que, mas eu já esperava por isso. Ela era a Bonitinha da Classe e tinha o nariz empinado. E eu? Só um cara comum. Comum até demais… Bem, mas meu silêncio naquele momento não foi porque eu estava chateado com a Natália. Foi porque eu vi dois olhos amarelos nos espreitando da mata, perto da chácara. Ainda lembro o que ela me disse:
— Não fica assim. Não vamos estragar uma amizade que mal começou…
Mas, nesse momento, eu saí da piscina e, todo molhado, corri atrás do “alienígena” — não é a palavra certa? Sinto muito! — “Aquilo” correu e se embrenhou nas capoeiras da região.
Quando retornei, a galera já tinha ido embora. A festa acabou. E meus avós me esperavam na varanda. Ajudaram a me limpar e a passar remédio nos arranhões feitos pelos espinhos da vegetação.
— Você os viu de novo? — perguntou meu avô.
— Vi. Olhem, consegui isso aqui. Caiu no caminho.
Mostrei um aparelho retangular, poderia ter sido feito para a comunicação deles. Minha avó me abraçou e me levou para a sala, onde me serviu um chá de hortelã.
No dia seguinte, no colégio, não só a Natália evitou falar comigo como também a galera toda. Era sempre assim! Quando apareciam os olhos amarelos, eu perdia amigos. Ninguém mais queria falar comigo. Talvez fosse um complô contra sujeitos como eu, que distinguem os olhos amarelos no meio da multidão. E aí, todos ficam achando que sou maluco… E querem saber? Tava ficando mesmo! — Vim até parar aqui. O que é isso? Um sanatório?
Bem, voltando ao colégio — aquilo foi terrível! — Um homem estranho substituiu o professor de matemática que eu mais admirava. Ele só olhou para a turma depois de abrir três livros sobre a mesa, ler a chamada inteira, verificar arquivos no seu laptop e… E quando ele nos olhou, eu vi — Não! Na verdade, eu senti… — os olhos amarelos. Eles passaram a me encarar ameaçadoramente. Eu sei que eles estavam me dizendo que os “alienígenas” já sabiam onde eu morava, onde eu estudava… Sabiam tudo! Minha primeira reação foi ficar paralisado; depois, não consegui ficar na sala de aula. Enfiei meu material de escola na mochila e saí tropeçando em tudo.
Não queria ficar no apartamento dos meus avós. Mas, para eu desaparecer, precisava de algum dinheiro e… Bem, não deu tempo, não é? Uns caras de branco vieram e puseram-me numa ambulância. Eles usavam óculos escuros para disfarçar… E vim parar aqui!

olhos2b - olhos2b

— Éramos nós — declarou Careca.
Antônio olhou para eles com desconfiança e perguntou:
— E isso aqui, o que é? É um sanatório?
— É uma clínica de repouso. Mas amanhã estará liberado para visitas. Seus avós ficaram muito preocupados com o seu… destemperamento. E tem outra pessoa preocupada com você.
— Ah, é?
— Chama-se Natália. Será a mesma?
Antônio ficou pensativo.
— Engraçado, ela nem queria mais falar comigo!
— As pessoas mudam… — disse Careca, retorcendo os lábios descontroladamente. Depois de muito esforço, voltou ao normal. — Ahn… des-desculpe.
Antônio quis rir, mas o outro repetiu o mesmo tique nervoso.
— Ué! Estão tirando uma com a minha cara?
— Como? — falou Careca, fingindo que não era com ele e preparando-se para recolher a câmera.
— Ninguém é capaz de fazer uma coisa dessas. Façam de novo — pediu Antônio.
Os homens se entreolharam. Depois, Careca se antecipou.
— Tique nervoso! É isso! Sabe como é, tanto tempo trabalhando com maluco, a gente começa a fazer palhaçada! — e gargalhou espalhafatosamente, batendo no ombro do rapaz.
Antônio riu dos dois. Mas logo baixou a cabeça. Careca ficou sério e pôs a mão sobre o ombro do rapaz.
— Eu sei como se sente, Tom. Você sofreu com a morte dos seus pais, recentemente. Mas tem de voltar à vida normal. Temos certeza de que essa fase já está passando, não é?
Antônio fez que sim com a cabeça.
— Ótimo. Daqui a pouco a enfermeira vem buscá-lo.
Os dois pegaram os equipamentos e saíram da sala. Após fecharem a porta, pararam um segundo no corredor. Com gestos sincronizados, cada um pegou seu aparelho retangular do bolso do guarda-pó e apertaram um botão. Então, continuaram a andar pelo corredor. Antes do elevador, porém, cruzaram com a enfermeira.
— Ei! — disse Cabelos Escuros, apontando para o aparelho. — Ligue-o. Tom consegue ver os nossos olhos…
A mulher obedeceu. Apertou o botão e seus olhos adquiriram um visual humano. Os homens entraram no elevador.
— Finalmente! Podemos prosseguir com a Ocupação — falou Careca.
— Mas temos que acabar com esse tique nervoso — disse Cabelos Escuros.
O elevador levou-os até o subterrâneo. Lá, recepcionaram várias legiões de olhos amarelos.

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Entenda por que é mais difícil fazer ficção científica nos dias de hoje

admin em 16 de Novembro de 2009 @ 12:00

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Entre o colunismo literário e a crítica

admin em 31 de Outubro de 2009 @ 20:04

Imagem livro 1 - Imagem livro 1

Com o advento das mídias de massas nos anos de 1970 – no Brasil –, a indústria de bens culturais toma corpo em nosso país, e esse fenômeno provoca mudanças significativas em todas as formas de arte, o que não exclui a literatura.

Nesse momento, o que está em jogo é uma mudança de paradigma. A arte – fruto da originalidade, da criação autoral, do valor estético – passa a funcionar de acordo com a lógica da indústria – produção em série, repetição, ausência de autoria –, o que tem consequências profundas para a sua forma. Há muitas divergências em relação a esse tema. Muitos teóricos defendem, em partes, a entrada da arte na lógica da indústria, pois percebem essa mudança como democratização da arte das elites em vistas de um acesso para um público mais amplo. No entanto, não é este o ponto desta discussão.

A questão principal é que valores permeiam a crítica desse tipo de arte, ou qual é o lugar da crítica dentro da lógica da reprodutibilidade.
Não é estranho a nenhum de nós, amantes da literatura, adquirir os jornais e ir, logo, em busca do suplemento literário, no intuito de verificarmos as novidades do mundo das letras. Mas o que encontramos na maioria desses suplementos, diferentemente de “crítica”, é o “colunismo literário”.

Colunismo literário é um termo cunhado já por Antonio Candido (apud Pellegrini, p. 165), que faz referência aos textos, geralmente escritos por jornalistas. Textos estes que, ao invés de estarem comprometidos com a qualidade literária (aspectos estéticos e, portanto, humanizadores), estão relacionados ao marketing do produto livro. Portanto, servem apenas de resumo, reproduzindo o desejo mercadológico de venda do produto. Assim, os que se autodenominam críticos literários, muitas vezes não passam de reprodutores das lógicas do mercado, o que é uma atitude totalmente contrária à crítica.

O principal problema que vem à tona é a influência que esses “críticos” têm em relação à massa de leitores (sendo este número já bastante reduzido), portanto, “formam” (ou deformam) opinião. Esses colunistas literários, muitas vezes, são “patrocinados” pelas próprias editoras, pois recebem os livros, escolhem frases que chamam a atenção do leitor para que este tenha o desejo de consumi-lo, e reproduzem isso, geralmente com um texto de linguagem acessível (poética, muitas vezes), que, longe de uma análise realmente crítica, tem status de propaganda. Nada contra a resenha jornalística, a informação sobre um livro, mas – convenhamos – assim é fácil fazer “crítica”. É fácil elogiar Machado de Assis. É engrandecedor poetisar sobre um novo texto de Gabriel Garcia Marquez. Mas onde está a coragem e o verdadeiro conhecimento literário? Onde está o crítico literário que avalia os livros de escritores não consagrados e aponta aos leitores e a seus pares os erros e acertos?

Segundo Tânia Pellegrini,

“[…] o que se pode perceber, então, é que o crescimento editorial, se não estimula a reflexão crítica – muito pelo contrário, pois o interesse é vender livros e não analisá-los – estimula a ampliação do espaço para a literatura da imprensa, pelo mesmo motivo: notícias, resenhas, colunas, comentários […] sempre colocam o objeto-livro em evidência” (p. 168).

Recomendamos a leitura de A imagem e a letra, de Tânia Pellegrini (Mercado de Letras, 1999). Um bom livro que discute um pouco sobre esse tema.

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De poesia e de medo

admin em 15 de Outubro de 2009 @ 23:27


Em uma oficina literária com Andréa del Fuego, uma das participantes, no meio de todos nós, declarou que não escrevia poesia pois tinha medo. Achei aquilo brilhante e nela descobri também a explicação para minha relação com a poesia. Eu também tenho medo. Medo como medo de criança, que vislumbra o proibido por entre os dedos que tentam esconder os olhos. Medo do desconhecido, que mistura fascínio e reverência. Medo que obriga a reconhecer-nos diante de algo muito maior do que nós mesmos, pois nos envolve e a tudo em um simples verso. Verso pensado para transmitir o todo de forma exata, planejado com a exatidão do cálculo estrutural para tomar a forma da impossibilidade e leveza arquitetônica.

Convidamos um amigo querido para nos falar sobre poesia e o que ele fez? Enviou-nos poemas. Certamente, brilhante.

ricardo - ricardo

Perfil poeta| Ricardo Miyake
Biografia por ele mesmo| “He´s a real nowhere man/Sitting in his nowhere land/making all his nowhere plans for no one..” (Lennon e McCartney)
Blog| Arquitetura das Palavras
E-mail| rmiyake@uol.com.br
Livro Publicado: Livro de Coisas, editora ComArte

Poética II

Em palavras de farpas
Sob unhas longas e sonhos breves
Escrevo poemas de amor
Desapaixonadamente
Em vozes dores hiatos

Mas não os escrevo na verdade
Só o que digo me aclara
Os fatos.

Poemas de amor são escritos
Por homens restritos
Exatos.
(In: Livro de Coisas)

poema 2 - poema 2
Poema para quem está distante

para Julia Medrado

Ainda tenho nas mãos o perfume que tu usas,
E teu riso ainda faz eco nos corredores
Onde andavas, distraída. Tu me olhas
No retrato, imagem que paira longe
E entra pela janela sem venezianas.

Faz frio onde tu estás, as pessoas
Não te querem por perto, e o gosto
Do refrigerante de guaraná permanece
Memória que dói, fisgada no meio da perna,
E te pegas ao vazio da praça sem nenhum sono.

O que posso fazer senão te acenar
Do lado de cá do mar que nos aparta?
Os navios ancoram ao largo, à tarde
Automóveis negros trafegam aos roncos,
E nada se pode dizer senão o incerto;
Dança que não valeu: ninguém por perto.

nenhum sonho - nenhum sonho

Nenhum sonho

para Maíra

No fundo da floresta os lobos rondam,
Mas, organza sobre o rosto, tu contemplas
O sol aos poucos sumindo, a trilha aberta
E, sem querer, teus olhos de sono piscam.
Tu, entretecida, sorris: é quase um nada

Entre o que tiveste e o que te deram,
E isso não é amor, essa fenda ensangüentada;
Também não é paixão - espinho que te fere o ventre.

E os lobos, extenuados, voltam a suas tocas
Ao te levantares no silêncio que te expressa
Em meio às sombras desenhadas sobre o musgo,
O sol que desmaia, seus braços, nenhum sonho.

vermelho - vermelho
Paisagem com vermelho ao fundo

Soprava um vento de suspender os gritos
No lusco-fusco em lâmpadas amarelas,
E tu entraste com teu riso de rosas
Aquecendo as mãos desfeitas pelas águas
Onde resolveste guardar-te dos barcos.

Apenas te olhei, buscando no fundo de
Teus minérios a partilha que fizemos,
Oco dos corpos de gelo e pedra,
Tua face desfeita – sal e água –
Apenas te olhei – e não vi nada.

Agora os carros passam na avenida,
O vento ainda diz que está presente,
E eu, sem remissão, mastigo o vidro
Da lâmpada amarela, enquanto atravessas
Em meio ao trânsito, teu corpo, sem parar.

16/06/2004



Saudações, Ricardo! Agradecemos pela permissão que nos deu para reproduzir aqui esses seus poemas. Quem se interessar pelos poemas do Ricardo, escreva para ele, ok?

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