De poesia e de medo
admin em 15 de Outubro de 2009 @ 23:27
Em uma oficina literária com Andréa del Fuego, uma das participantes, no meio de todos nós, declarou que não escrevia poesia pois tinha medo. Achei aquilo brilhante e nela descobri também a explicação para minha relação com a poesia. Eu também tenho medo. Medo como medo de criança, que vislumbra o proibido por entre os dedos que tentam esconder os olhos. Medo do desconhecido, que mistura fascínio e reverência. Medo que obriga a reconhecer-nos diante de algo muito maior do que nós mesmos, pois nos envolve e a tudo em um simples verso. Verso pensado para transmitir o todo de forma exata, planejado com a exatidão do cálculo estrutural para tomar a forma da impossibilidade e leveza arquitetônica.
Convidamos um amigo querido para nos falar sobre poesia e o que ele fez? Enviou-nos poemas. Certamente, brilhante.
Perfil poeta| Ricardo Miyake
Biografia por ele mesmo| “He´s a real nowhere man/Sitting in his nowhere land/making all his nowhere plans for no one..” (Lennon e McCartney)
Blog| Arquitetura das Palavras
E-mail| rmiyake@uol.com.br
Livro Publicado: Livro de Coisas, editora ComArte
Poética II
Em palavras de farpas
Sob unhas longas e sonhos breves
Escrevo poemas de amor
Desapaixonadamente
Em vozes dores hiatos
Mas não os escrevo na verdade
Só o que digo me aclara
Os fatos.
Poemas de amor são escritos
Por homens restritos
Exatos.
(In: Livro de Coisas)
para Julia Medrado
Ainda tenho nas mãos o perfume que tu usas,
E teu riso ainda faz eco nos corredores
Onde andavas, distraída. Tu me olhas
No retrato, imagem que paira longe
E entra pela janela sem venezianas.
Faz frio onde tu estás, as pessoas
Não te querem por perto, e o gosto
Do refrigerante de guaraná permanece
Memória que dói, fisgada no meio da perna,
E te pegas ao vazio da praça sem nenhum sono.
O que posso fazer senão te acenar
Do lado de cá do mar que nos aparta?
Os navios ancoram ao largo, à tarde
Automóveis negros trafegam aos roncos,
E nada se pode dizer senão o incerto;
Dança que não valeu: ninguém por perto.
Nenhum sonho
para Maíra
No fundo da floresta os lobos rondam,
Mas, organza sobre o rosto, tu contemplas
O sol aos poucos sumindo, a trilha aberta
E, sem querer, teus olhos de sono piscam.
Tu, entretecida, sorris: é quase um nada
Entre o que tiveste e o que te deram,
E isso não é amor, essa fenda ensangüentada;
Também não é paixão - espinho que te fere o ventre.
E os lobos, extenuados, voltam a suas tocas
Ao te levantares no silêncio que te expressa
Em meio às sombras desenhadas sobre o musgo,
O sol que desmaia, seus braços, nenhum sonho.

Paisagem com vermelho ao fundo
Soprava um vento de suspender os gritos
No lusco-fusco em lâmpadas amarelas,
E tu entraste com teu riso de rosas
Aquecendo as mãos desfeitas pelas águas
Onde resolveste guardar-te dos barcos.
Apenas te olhei, buscando no fundo de
Teus minérios a partilha que fizemos,
Oco dos corpos de gelo e pedra,
Tua face desfeita – sal e água –
Apenas te olhei – e não vi nada.
Agora os carros passam na avenida,
O vento ainda diz que está presente,
E eu, sem remissão, mastigo o vidro
Da lâmpada amarela, enquanto atravessas
Em meio ao trânsito, teu corpo, sem parar.
16/06/2004
Saudações, Ricardo! Agradecemos pela permissão que nos deu para reproduzir aqui esses seus poemas. Quem se interessar pelos poemas do Ricardo, escreva para ele, ok?
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