Reino das névoas

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As fábulas de La Fontaine eram contadas na Corte para entreter os nobres. Os contos dos irmãos Grimm foram coletados da tradição oral de camponeses alemães, e eram, então, histórias passadas de geração a geração, tendo, à época, desenlaces bem mais ácidos do que a versão açucarada que vemos hoje nas cores da Disney.

Bruno Bettelheim, em seu Psicanálise dos contos de fadas, expõe a versão original de contos hoje tão populares, como Bela adormecida e Chapeuzinho vermelho, trazendo à tona sua face contundente, bem mais fiel à psique humana, em que, por haver luz, há sombras.

É com muita propriedade que Camila Fernandes (@milaf) avisa em seu livro: “contos de fadas para adultos”, alertando não apenas para a origem do conto de fada, mas também para o teor surreal e cortante que ela revive. E ela não é inocente. Camila é culpada com mérito. Ela confessa sua premeditação em introdução: “O mundo é cruel. Tomem cuidado”. Sua pena segue a mesma exatidão da lâmina.

Camila narra as histórias com a sonoridade dramática própria desses contos, e, também seguindo o modelo original, traz em cada um deles uma moral. Cada conto é acrescido de uma bela ilustração, obra também da escritora.

O título, Reino das Névoas, é perfeito por ser aguçado, simples, direto. Nas névoas reside o que está escondido, adormecido ou à espreita. A magia do desconhecido nos enfeitiça durante o dia e nos assombra à noite.

Meu conto preferido é “A outra margem do rio”, gostei da história e, embora pudesse supor seu final, nunca teria certeza de qual rota a escritora tomaria. Camila, já disse isso a ela, é imprevisível em suas narrativas e tem o hábito de não ter dó de seus personagens. Esses são os ingredientes iniciais essenciais para uma boa história. Se me permite a sugestão, melhor ainda seria se explicasse cada vez menos, deixando seus leitores sem muita informação sobre o que seus personagens pensam. Que criasse antagonistas com um passado desconhecido pelo leitor, que se desenrolassem a ponto de quase comprimir os demais personagens, como os Jacks de Neil Gaiman em The Graveyard Book. Que se deliciasse com as maldições sem solução, as bruxas e os gatos.

O livro teve apoio do Proac, programa de incentivo da secretaria de estado da cultura, de São Paulo, o que traz para a obra mais credibilidade sobre sua originalidade e criatividade. E foi produzido em parceria com a editora Tarja, essencial para uma boa divulgação e distribuição da obra; parabéns ao editor e também escritor Richard Diegues pela publicação da obra e por sua palavras na orelha da capa.

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