Entre o colunismo literário e a crítica

admin em 31 de Outubro de 2009 @ 20:04

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Com o advento das mídias de massas nos anos de 1970 – no Brasil –, a indústria de bens culturais toma corpo em nosso país, e esse fenômeno provoca mudanças significativas em todas as formas de arte, o que não exclui a literatura.

Nesse momento, o que está em jogo é uma mudança de paradigma. A arte – fruto da originalidade, da criação autoral, do valor estético – passa a funcionar de acordo com a lógica da indústria – produção em série, repetição, ausência de autoria –, o que tem consequências profundas para a sua forma. Há muitas divergências em relação a esse tema. Muitos teóricos defendem, em partes, a entrada da arte na lógica da indústria, pois percebem essa mudança como democratização da arte das elites em vistas de um acesso para um público mais amplo. No entanto, não é este o ponto desta discussão.

A questão principal é que valores permeiam a crítica desse tipo de arte, ou qual é o lugar da crítica dentro da lógica da reprodutibilidade.
Não é estranho a nenhum de nós, amantes da literatura, adquirir os jornais e ir, logo, em busca do suplemento literário, no intuito de verificarmos as novidades do mundo das letras. Mas o que encontramos na maioria desses suplementos, diferentemente de “crítica”, é o “colunismo literário”.

Colunismo literário é um termo cunhado já por Antonio Candido (apud Pellegrini, p. 165), que faz referência aos textos, geralmente escritos por jornalistas. Textos estes que, ao invés de estarem comprometidos com a qualidade literária (aspectos estéticos e, portanto, humanizadores), estão relacionados ao marketing do produto livro. Portanto, servem apenas de resumo, reproduzindo o desejo mercadológico de venda do produto. Assim, os que se autodenominam críticos literários, muitas vezes não passam de reprodutores das lógicas do mercado, o que é uma atitude totalmente contrária à crítica.

O principal problema que vem à tona é a influência que esses “críticos” têm em relação à massa de leitores (sendo este número já bastante reduzido), portanto, “formam” (ou deformam) opinião. Esses colunistas literários, muitas vezes, são “patrocinados” pelas próprias editoras, pois recebem os livros, escolhem frases que chamam a atenção do leitor para que este tenha o desejo de consumi-lo, e reproduzem isso, geralmente com um texto de linguagem acessível (poética, muitas vezes), que, longe de uma análise realmente crítica, tem status de propaganda. Nada contra a resenha jornalística, a informação sobre um livro, mas – convenhamos – assim é fácil fazer “crítica”. É fácil elogiar Machado de Assis. É engrandecedor poetisar sobre um novo texto de Gabriel Garcia Marquez. Mas onde está a coragem e o verdadeiro conhecimento literário? Onde está o crítico literário que avalia os livros de escritores não consagrados e aponta aos leitores e a seus pares os erros e acertos?

Segundo Tânia Pellegrini,

“[…] o que se pode perceber, então, é que o crescimento editorial, se não estimula a reflexão crítica – muito pelo contrário, pois o interesse é vender livros e não analisá-los – estimula a ampliação do espaço para a literatura da imprensa, pelo mesmo motivo: notícias, resenhas, colunas, comentários […] sempre colocam o objeto-livro em evidência” (p. 168).

Recomendamos a leitura de A imagem e a letra, de Tânia Pellegrini (Mercado de Letras, 1999). Um bom livro que discute um pouco sobre esse tema.

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Roberto de Sousa Causo e a Ficção Científica

admin em 17 de Outubro de 2009 @ 16:15

Escritor – geração 90
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Roberto de Sousa Causo
Biografia |
Causo foi atendente de biblioteca, ilustrador editorial e publicitário (free-lancer), antes de publicar profissionalmente o seu primeiro trabalho, o conto “A Última Chance”, na revista semiprofissional francesa Antarès — Science fiction et fantastique sans frontières. Desde então tem publicado profissionalmente pelo menos uma história por ano, frequentemente mais. Causo também exerceu e exerce atividades editoriais relacionadas à ficção científica e fantasia no Brasil (fonte: Wikipédia).
Blog | http://rscauso.tripod.com/
E-mail | rscauso@yahoo.com.br
Colunista | http://terramagazine.terra.com.br/colunistas/robertocauso.
Livros |

  • A Dança das Sombras. Editorial Caminho, 1999.
  • Terra Verde. Grupo Editorial Cone-Sul, 2001.
  • Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950. Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2003.
  • A Sombra dos Homens. Editora Devir, 2004.
  • Organização de Histórias de Ficção Científica, Editora Ática, 2005
  • A Corrida do Rinoceronte. Editora Devir, 2006
  • Organização de Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, Editora Devir, 2008.
  • O Par: Uma Novela Amazônica. Humanitas, 2008.
  • Organização de Rumo à fantasia, Editora Devir, 2009.

Além de escritor, você também é pesquisador e crítico da Ficção Científica no Brasil. Na USP, você cursa mestrado também nessa área? Qual é sua pesquisa no meio acadêmico?
Roberto |
Estou no programa de pós-graduação em estudos de literatura e língua inglesa, com um projeto sobre ficção científica brasileira, de enfoque comparativo com a FC anglo-americana, especificamente os movimentos New Wave (da década de 1960) e Cyberpunk (da década de 1980), que representam a inserção e o estabelecimento do pós-modernismo na FC. Além dessa pesquisa de mestrado, tenho publicado artigos em revistas e antologias acadêmicas no Brasil e no exterior. Me interesso por todos os campos de pesquisa dentro do assunto ficção científica e fantasia no Brasil. Ultimamente tenho pesquisado conceitos como pulp fiction e também a história do fandom brasileiro de FC. Fandom é palavra que designa a comunidade de fãs e autores de ficção científica.

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Temos muitos estudos acadêmicos sobre os diversos gêneros dentro do romance. Você acha que a área acadêmica no Brasil carece de estudos sobre a literatura de Ficção Científica e fantasia? Faz falta um estudo de memória da literatura de FC Fantasia no Brasil?
Roberto |
É preciso reconhecer que estudos acadêmicos sobre FC existem no Brasil desde a década de 1970, provavelmente desde o infame livro de Muniz Sodré, A Ficção do Tempo (1973). Antes desse livro, a intelectualidade brasileira já havia abordado o gênero, nos cadernos e revistas de cultura. Mas nos últimos cinco ou seis anos, graças à entrada de um número substancial de jovens interessados em FC, nos programas de pós-graduação de universidades de norte a sul do Brasil, o gênero tem se tornado bem mais presente nos estudos acadêmicos. Eu acredito, porém, que esse potencial mal foi arranhado.

A questão da FC brasileira como assunto desses estudos é mais delicada, porque o corpus é menor e são raros os autores brasileiros que possuem uma produção numerosa e realmente interessante, que justifique uma pesquisa mais aprofundada.


A ficção especulativa seria um rótulo que englobaria a ficção científica, a fantasia e o horror. Por sua vez, dentro de cada um desses gêneros há mais subgêneros. Há alguma pesquisa que discorra sobre todos esses desdobramentos? Essa classificação em vários subgêneros é um diferencial desse campo de literatura?
Roberto |
Certamente. Toda essa “taxonomia” da ficção especulativa (um termo que, no mundo de língua inglesa, abarca a FC, a fantasia e horror) foi formalizada nas páginas de The Encyclopedia of Science Fiction (1993), editada por John Clute & Peter Nicholls, e de The Encyclopedia of Fantasy (1996), de John Clute & John Grant. Como a terminologia e vários conceitos acerca da FC e da fantasia nasceram nas páginas das revistas especializadas e dos fanzines, esses dois livros formalizaram e discorreram sobre tudo isso, e se tornaram a fonte de uma linguagem internacional que norteia as discussões, as abordagens e até mesmo as pesquisas acadêmicas. É um caso único, que uma conceitualização espontânea de um gênero popular tenha esse impacto na crítica acadêmica, formal.

FC e fantasia são gêneros ricos, multifacetados, mas ao mesmo tempo muito reconhecíveis por certos elementos e conjuntos temáticos. Eles formam subgêneros, de modo que um romance de viagem no tempo de hoje, por exemplo, terá que dialogar com uma longa linhagem de outras obras que vêm do século XIX até o presente. Não se trata de uma intertextualidade estanque, mas essas classificações fornecem eixos inevitáveis de diálogo e de interpretação. E o mesmo com outros subgêneros ou tendências. Daí a necessidade de se falar em subgêneros — FC hard e soft; histórias de viagem no tempo ou de exploração espacial; cyberpunk, steampunk; futuro próximo ou futuro distante; histórias de mutantes, super-homens ou de alienígenas náufragos na Terra… Ou, na fantasia, de alta fantasia, fantasia heróica, histórica, contemporânea, urbana, etc., etc. Fala-se inclusive que o leque de subgêneros e de abordagens é tão vasto, que eles não seriam um gênero propriamente, mas todo um campo alternativo de literatura, quando comparados ao mainstream literário. (Recentemente, a acadêmica Farah Mendlesohn ressuscitou essa hipótese, na introdução de The Cambridge Companion to Science Fiction, de 2003.)

Essa problemática se torna ainda complexa quando nos lembramos que a maior parte da FC brasileira é composta de obras escritas por autores do nosso mainstream que, por uma razão ou outra, voltaram-se para a FC em um momento de suas carreiras. Neles, essa intertextualidade específica é atenuada pela presença de valores literários próprios da alta literatura ou ficção literária. Ao mesmo tempo, a atenção dos fãs está concentrada num olhar lateral — voltado para os parâmetros da FC anglo-americana. Isso gera um certo descompasso, um embaraço raramente reconhecido, e argumentos e discussões frequentemente redundantes ou desinformados sobre o que é ou deveria ser a FC.


Ainda sobre a pergunta anterior: essa segmentação do gênero pode ser prejudicial para o leitor e o escritor? Por exemplo, para o leitor, ele se limita a ler somente um gênero dentro da FC? E para o escritor, também não seria uma limitação à criação?
Roberto |
Há puristas em todos os gêneros, eu suponho. Vide a polêmica recente entre autores contemporâneos da “Geração 90” e Milton Hatoum e Bernardo Carvalho, discutindo a predominância do tema urbano e violento na literatura brasileira. Ou aqueles que dizem que o chamado movimento da “literatura marginal” (escrita por favelados, presidiários e suburbanos) tem apenas interesse sociológico e não literário. No campo da FC, os puristas mais chatos são aqueles fãs da FC hard que vivem dizendo que isto e aquilo “não é FC” porque violam as regras da plausibilidade científica. Outros são aqueles que perseguem os modismos como o cyberpunk, a new space opera ou o New Weird… Na fantasia, autores e leitores perfeitamente satisfeitos com duendes, elfos e anões em seus livros, mas que rejeitam sacis e caaporas. No horror, aqueles que apenas lêem ficção sobre vampiros… E os escritores mainstream que se aventuram no gênero repetindo velhos esquemas satíricos ou produzindo especulações inconsistentes em torno de assuntos atuais como clonagem, engenharia genética e realidade virtual.

Então me parece que não é o fato de existirem divisões e conceituações, mas sim as atitudes e preferências pessoais que são generalizadas e utilizadas como baliza pelas pessoas. A literatura, para o descontentamento tanto do leitor ou escritor zelota, quanto do teórico literário, é o terreno do imponderável e do surpreendente. E a ficção especulativa cumpre muito bem esse papel de maravilhar, desautomatizar e surpreender — se o leitor, escritor ou crítico tiver a mente aberta.

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Você nos disse uma vez que há muita confusão entre a fantasia e o fantástico. Poderia explicar o que define cada um deles?
Roberto |
No caso dessa confusão, que existe especificamente no seio do fandom, na verdade não se trata de uma questão de estrutura, mas de estatuto literário. Fantasia é um gênero popular, nascido da atmosfera do Romantismo Europeu no século XIX, misturando pesquisa folclórica, mitos, novelas de cavalaria, romance histórico, mito e religião, e que desemboca no século XX nas páginas das revistas especializada como Weird Tales. Os seus protocolos de escrita e de leitura são populares — eles se baseiam em protagonistas fortes que vivem aventuras fabulosas, descritas, paradoxalmente, de maneira realista. O fantástico também surge no século XIX mas tem um estatuto menos popular e mais “literário”. A fantasia como gênero é feita para abrigar o leitor em um mundo mágico ou sobrenatural, onde o leitor vai acompanhar um protagonista que é capaz de lidar com essa magia; no fantástico, o leitor, assim como o protagonista, tende a assumir uma atitude mais passiva — o fantástico existe ali como o absurdo, o grotesco, a loucura ou como alegoria da arbitrariedade da vida, da condição humana na modernidade ou coisa que o valha. São posições quase antagônicas, embora se cruzem com certa frequência.

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As obras de ficção científica parecem estar voltando também às salas de aula. Em meu tempo de estudante, tínhamos a coleção Vaga-lume, indicada como leitura complementar na escola, com histórias como Spharion. A Ática parece estar investindo nessa literatura. Na sua opinião, a escola poderia tomar como leitura obrigatória uma obra de ficção científica? Esse gênero estaria mais próximo do jovem leitor? O conto de FC e fantasia, por sua extensão, não seria um ótimo material para o professor trabalhar em sala de aula?
Roberto |
Como muita gente, eu tendo a rejeitar a ideia de leitura obrigatória. Mas como me lembro com muito afeto da biblioteca da escola em que fiz o ensino fundamental, sou muito a favor da disponibilidade de ficção científica nas bibliotecas escolares — e também nas salas de aula, como fomentador de discussões eletivas, se isso for possível. Montei para a Ática, na coleção Para Gostar de Ler, a antologia Histórias de Ficção Científica, com contos de autores brasileiros e estrangeiros, e ela foi comprada pela Prefeitura de Belo Horizonte para alimentar as suas bibliotecas.

Ainda não sei dizer qual é a posição da FC nas bibliotecas ou escolas. Surpreendentemente, há uns dez anos se assumia que gêneros como o horror eram mais populares nesses ambientes do que a ficção científica. Eu suponho que agora, com assuntos como o cosmonauta brasileiro, o aquecimento global, a destruição do meio ambiente, a exploração do pré-sal, etc., a FC se torne mais atraente para professores e alunos.


Sobre sua produção literária, seu primeiro romance publicado foi A Corrida do Rinoceronte? Como foi a história da publicação desse livro?
Roberto |
Eu terminei o primeiro rascunho em algum momento do começo deste século, enviei-o a algumas editoras, que o rejeitaram. Então o enviei à Devir, que havia publicado o meu livro de contos de fantasia heróica A Sombra dos Homens em 2004. Douglas Quinta Reis, o Diretor Editorial da Devir, gostou do romance e fez com que ele fosse publicado em outubro de 2006. O livro recebeu boas resenhas — a maioria fora da imprensa cultural —, exceto por uma que saiu em uma revista virtual, que foi aquilo que os americanos chamam de killer review: uma resenha que destrói o livro abordado. Essa resenha se centrou na questão racial, que o livro aborda, mas curiosamente não mencionou nada do seu elemento mais saliente, que é o elemento fantástico.

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Sua obra mais recente – Rumo à Fantasia – como foi a sua organização, produção e seleção de escritores convidados? Fale-nos um pouco sobre ela.
Roberto |
Rumo à Fantasia é uma tentativa de produzir uma antologia internacional de fantasia que sustente a hipótese de esse também é um gênero multifacetado. Assim, temos histórias de autores norte-americanos, de um canadense e um português (Eça de Queiroz), com uma maioria de brasileiros, mas histórias com diferentes abordagens. A seleção dos contos obedeceu a critérios práticos: autores estrangeiros com quem eu já tinha contato, para poupar tempo e dor de cabeça à editora, em termos de contatos e negociação de direitos autorais. E contos brasileiros que eu já havia, em sua maioria, selecionado para a revista Quark, quando fui editor de ficção dessa publicação criada por Marcelo Bandini. A revista existiu apenas durante 2001, e muitos contos programados para sair no ano seguinte ficaram pendurados. Então incluí-los na antologia foi um modo de homenagear o trabalho de Baldini e de reforçar aos autores o meu interesse por suas histórias. Alguns contos, como os de Braulio Tavares e Daniel Fresnot foram incluídos porque abrem caminhos para uma fantasia mais brasileira, que reconhece o material que é fonte da fantasia na própria cultura brasileira: os ecos do medievalismo ibérico nas tradições populares nordestinas, por exemplo. Curiosamente, a maioria dos contos se alinha a um eixo temático que valoriza a morte como tema central — a vida após a morte, o medo da morte, a persistência de compromissos, dívidas e valores após a morte. Isso, eu acredito, ajuda o volume a se tornar mais significativo e memorável ao leitor. Ou é o que eu espero.

Haveria muito mais a ser incluído em um projeto como este, mas um livro de cerca de 200 páginas tem os custos de produção e o preço final ideais, ao meu ver. A capa é uma excelente arte do ilustrador Vagner Vargas, um dos melhores artistas de FC e fantasia do Brasil. Ela também já existia como um trabalho do portfólio de apresentação desse artista.


Temos uma grande preocupação com o escritor ainda em formação. Como foi o início de sua história como escritor? Como foi o caminho percorrido até a publicação do primeiro romance? O que recomenda ao escritor estreiante?
Roberto |
Como muitos escritores de ficção científica e fantasia da minha geração, comecei como fã desses gêneros, escrevendo contos curtos e muito tentativos para as páginas de fanzines como Hiperespaço, Boletim Antares e Somnium. Minhas primeiras histórias apareceram nos fanzines em 1985 e 86, minhas primeiras publicações profissionais em 1989 e 1990. Participei de concursos amadores e profissionais e venci alguns deles, como o Prêmio Jerônimo Monteiro (1990), da Isaac Asimov Magazine; o III Festival Universitário de Literatura (2000) e o 11.º Projeto Nascente (2001). O fato é que desde 1989 que publico profissionalmente pelo menos um texto de ficção curta, e até a publicação de A Corrida do Rinoceronte toda a minha produção foi de contos e novelas. Meu currículo é uma colcha de retalhos de contos publicados em revistas masculinas, científicas, de história em quadrinhos, literárias, acadêmicas e até de ficção científica propriamente! Publiquei em revistas e em antologias no Brasil, na Argentina, Canadá, China, Finlândia, França, Grécia, Portugal (onde saiu o meu primeiro livro de contos, A Dança das Sombras, em 1999), República Checa e Rússia. Há nisso um certo abandono próprio do escritor de ficção de gênero, que deseja antes de mais nada publicar, se remunerado por isso, e que adere menos à preocupação do escritor de ficção literária, que é a de criar um currículo literário distinto.

Atualmente, o escritor novato não tem mais os fanzines como opção de um espaço em que seus primeiros trabalhos podem aparecer e ser avaliados pelos fãs. Hoje é a Internet que realiza essa função. Ao invés de passar pela via crucis de procurar mercados para ficção curta em revistas dos mais diversos tipos, ele pode recorrer àquelas editoras, existentes em bom número, que acolhem textos em antologias, em regime de cooperativa, em que cada autor “compra” uma quota da produção ou número de exemplares da antologia. O primeiro conselho aqui é escolher uma editora que trabalha assim mas que seleciona o material; isto é, uma que aceitará o seu trabalho porque você está pagando e porque ele é publicável, e não apenas porque você está pagando. E o segundo conselho — certamente o mais importante — é o de não se contentar com essa prática; quer dizer, tentar fazer a transição, o quanto antes inclusive, de pagar para ser publicado, para ser pago para ser publicado.

A Internet é a grande ferramenta nesse processo, especialmente aqueles fóruns e comunidades que congregam fãs e profissionais. Mas a educação do escritor tanto no mercado quando nas questões literárias pelas quais ele será julgado pela crítica ou pela história literária obrigatoriamente vão além da Internet. Estão nas revistas literárias e nos cadernos de cultura dos grandes jornais, nas livrarias e nos eventos literários. Observe, frequente, estude e investigue. Pense em contratar um agente literário, se achar que está pronto para tentar as grandes editoras, mas estude as condições, os autores que com quem ele já trabalha, e que ônus essa contratação trará a você.

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Quais são seus escritores e obras preferidos?
Roberto |
Na ficção científica, Orson Scott Card, Ursula K. Le Guin, David Brin, Joe Haldeman, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, Richard McKenna, Braulio Tavares, Ivanir Calado, Bruce Sterling e Philip K. Dick. Na fantasia, Robin Hobb, Fritz Leiber, Robert E. Howard e Barbara Hambly. No horror, Stephen King, Stephen Gallagher e Dan Simmons. Fora da ficção especulativa eu acompanho Robert B. Parker na ficção de detetive e gosto dos faroestes de Elmore Leonard. Outros autores favoritos são Anton Myrer (que escreveu alguns romances fabulosos de ficção militar, como The Big War e Uma Vez uma Águia), David Poyer, Pat Conroy e Cormac McCarthy. Sou admirador de Ernest Hemingway, William Faulkner, Carson McCullers, John Steinbeck, Afonso Schmidt e Richard Wright. Acho que tenho alguma predileção por autores do Sul dos Estados Unidos, mas também gosto da ficção militar de Poyer e de Laine Heath.

Uma Vez uma Águia é meu romance favorito, aquele que eu gostaria de ler todo ano, embora tenha 1.100 páginas. Na ficção científica algumas das obras que mais me impressionaram são aquela FC antropológica, de base científica mas com um olhar humano, como Orador dos Mortos, de Orson Scott Card; A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin; e Solaris, de Stanislaw Lem. Gosto de space opera pois cresci lendo a série alemã Perry Rhodan, mas tenho encontrado dificuldade para encontrar uma space opera atual que combine ficção militar e que eu realmente aprecie — talvez por isso tenha resolvido escrever a minha própria série de space opera militar, “As Lições do Matador”, cuja primeira história, “Descida no Maelström”, apareceu este ano na antologia Futuro Presente, de Nelson de Oliveira.

Na fantasia eu gosto muito da trilogia Farseer, de Robin Hobb, e das histórias da Fahfrd e Grey Mouser de Fritz Leiber. No horror, tudo ou quase, que Stephen King escreveu.

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Agradecemos Roberto Causo pela entrevista e desejamos muito sucesso em sua pesquisa acadêmica e em sua vida literária!

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De poesia e de medo

admin em 15 de Outubro de 2009 @ 23:27


Em uma oficina literária com Andréa del Fuego, uma das participantes, no meio de todos nós, declarou que não escrevia poesia pois tinha medo. Achei aquilo brilhante e nela descobri também a explicação para minha relação com a poesia. Eu também tenho medo. Medo como medo de criança, que vislumbra o proibido por entre os dedos que tentam esconder os olhos. Medo do desconhecido, que mistura fascínio e reverência. Medo que obriga a reconhecer-nos diante de algo muito maior do que nós mesmos, pois nos envolve e a tudo em um simples verso. Verso pensado para transmitir o todo de forma exata, planejado com a exatidão do cálculo estrutural para tomar a forma da impossibilidade e leveza arquitetônica.

Convidamos um amigo querido para nos falar sobre poesia e o que ele fez? Enviou-nos poemas. Certamente, brilhante.

ricardo - ricardo

Perfil poeta| Ricardo Miyake
Biografia por ele mesmo| “He´s a real nowhere man/Sitting in his nowhere land/making all his nowhere plans for no one..” (Lennon e McCartney)
Blog| Arquitetura das Palavras
E-mail| rmiyake@uol.com.br
Livro Publicado: Livro de Coisas, editora ComArte

Poética II

Em palavras de farpas
Sob unhas longas e sonhos breves
Escrevo poemas de amor
Desapaixonadamente
Em vozes dores hiatos

Mas não os escrevo na verdade
Só o que digo me aclara
Os fatos.

Poemas de amor são escritos
Por homens restritos
Exatos.
(In: Livro de Coisas)

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Poema para quem está distante

para Julia Medrado

Ainda tenho nas mãos o perfume que tu usas,
E teu riso ainda faz eco nos corredores
Onde andavas, distraída. Tu me olhas
No retrato, imagem que paira longe
E entra pela janela sem venezianas.

Faz frio onde tu estás, as pessoas
Não te querem por perto, e o gosto
Do refrigerante de guaraná permanece
Memória que dói, fisgada no meio da perna,
E te pegas ao vazio da praça sem nenhum sono.

O que posso fazer senão te acenar
Do lado de cá do mar que nos aparta?
Os navios ancoram ao largo, à tarde
Automóveis negros trafegam aos roncos,
E nada se pode dizer senão o incerto;
Dança que não valeu: ninguém por perto.

nenhum sonho - nenhum sonho

Nenhum sonho

para Maíra

No fundo da floresta os lobos rondam,
Mas, organza sobre o rosto, tu contemplas
O sol aos poucos sumindo, a trilha aberta
E, sem querer, teus olhos de sono piscam.
Tu, entretecida, sorris: é quase um nada

Entre o que tiveste e o que te deram,
E isso não é amor, essa fenda ensangüentada;
Também não é paixão - espinho que te fere o ventre.

E os lobos, extenuados, voltam a suas tocas
Ao te levantares no silêncio que te expressa
Em meio às sombras desenhadas sobre o musgo,
O sol que desmaia, seus braços, nenhum sonho.

vermelho - vermelho
Paisagem com vermelho ao fundo

Soprava um vento de suspender os gritos
No lusco-fusco em lâmpadas amarelas,
E tu entraste com teu riso de rosas
Aquecendo as mãos desfeitas pelas águas
Onde resolveste guardar-te dos barcos.

Apenas te olhei, buscando no fundo de
Teus minérios a partilha que fizemos,
Oco dos corpos de gelo e pedra,
Tua face desfeita – sal e água –
Apenas te olhei – e não vi nada.

Agora os carros passam na avenida,
O vento ainda diz que está presente,
E eu, sem remissão, mastigo o vidro
Da lâmpada amarela, enquanto atravessas
Em meio ao trânsito, teu corpo, sem parar.

16/06/2004



Saudações, Ricardo! Agradecemos pela permissão que nos deu para reproduzir aqui esses seus poemas. Quem se interessar pelos poemas do Ricardo, escreva para ele, ok?

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O narrador no romance brasileiro: ética e estética, Jaime Ginzburg (FFLCH-USP)

admin em 5 de Outubro de 2009 @ 13:23

jaime ginzburg 1 - jaime ginzburg 1
Foto fonte: www.spanport.umn.edu/news/images/JGinzburg.jpg , www.spanport.umn.edu/news/events.php

Apresentação realizada no colóquio Escritas da Violência “Representações da violência na história e na cultura contemporâneas da América Latina”, no dia 9 de setembro de 2009.


Nesse colóquio, o professor Jaime Ginzburg (FFLCH-USP) presenteou a plateia com uma provocação: a aproximação da ética e da estética à literatura. A partir dessa palestra, resumimos alguns itens e pensamos em outros. Não culpem o professor por esse post, ok? É uma releitura livre e limitada de uma palestra brilhante.


A Ética pode ser considerada por dois fatores: as convicções pessoais (crenças e valores), que compõem o campo privado, e as leis formais do Estado, que compõem o campo público. O campo de estudo da ética seria o do conflito entre o público e o privado, naquilo que fica como indefinido entre os dois. Daí podemos supor que o problema da ética é o do critério de escolha.


Na estética, o ângulo do qual se fala da obra de arte é também uma questão de escolha. A escolha do foco narrativo estabelece o que é e o que não é relevante para se contar a história.


A indeterminação ética em se definir o que é certo e o que é errado pode ser associada à indeterminação em relação ao foco narrativo. Vale pensar isso para uma teoria do narrador, da narrativa (baseado em Adorno, em A posição do narrador no romance contemporâneo).


Extrapolando a palestra, pensamos os mecanismos da narrativa, no que possibilita que a obra, em sua história e forma, seja definida pelo escritor. Ambas estão relacionadas às técnicas narrativas: ética e estética como decorrentes da história que é narrada, no conflito apresentado, no que as personagens decidem ou não contar. Na literatura, a qualidade de uma obra define-se não somente pelo conteúdo, pela história narrada, mas pela forma, as técnicas usadas na narrativa. Aos dois podem-se agregar valores como enriquecedores, como, por exemplo, o uso da metalinguagem (para expor a incerteza, como Clarice Lispector); a exploração da tragédia, no sentido de que a atribuição maior de sentido à vida é conquistada quando a vida se perde (exemplo, A hora da estrela).
Algumas tendências do romance brasileiro foram elencadas e nos permitimos acrescentar outras:

  • Voltar ao mesmo tema: como que se houvesse, no cânone literário brasileiro, um “inconsciente historiográfico”:
  • Memória da dor: a memória da perda, o narrador melancólico, que tem a memória da perda e não consegue superá-la (a base teórica para o estudo da melancolia: Walter Benjamin). A melancolia é o elemento para a revelação da finitude humana; é a motivação criativa de uma forma de produção de conhecimento, na narrativa é a investigação sobre o passado de um personagem, é o personagem tentando encontrar a solução para uma memória do passado, procurando sua remissão aos olhos do leitor);
  • Imagem da mulher: o personagem principal se constrói sob efeito da ação ou memória de uma personagem feminina. A mulher aparece como não compreendida pelo protagonista, normalmente à mulher é associado o sacrifício. A sua morte sempre é carregada de significado (cada tipo de morte, carrega um significado: acidental, assassinato, suicídio);
  • Escolha do foco narrativo: o narrador comenta sua narração (metalinguagem);
  • Não há segurança na narração. Os narradores não sabem como contar a história e não distinguem com propriedade o certo do errado. Sua fala se contradiz à sua ação, a dúvida é crucial, o conflito não pode ser previsto ou diminuído etc.;
  • Não há equilíbrio entre dano e reparo: a memória do passado se revela como forma de procurar a justiça, o que era correto, mas isso não se concretiza no presente da narrativa;
  • Conexão entre forma e tema: a forma de constituir a narrativa é tão importante quanto o tema a ser tratado. Por exemplo, em uma história em que o tema é a dor, a forma pode ser a da fragmentação;
  • A narrativa não pode menosprezar a dúvida, o conflito e a morte.


A realidade no romance é a que o escritor cria. Ela há de ser verossímil para o leitor. Se os escritores, na corrente literária francesa Oulipo, são vistos como ratos que constroem seus próprios labirintos e depois se propõem a sair, a literatura poderia ser o labirinto, e, talvez, seja mais rica à medida que põe o leitor em seu centro, acompanha-o em algumas curvas, mas depois o deixa só, e o convida a encontrar seu próprio caminho até a saída.

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A democratização do homem de letras: a questão das oficinas literárias

admin em 29 de Setembro de 2009 @ 13:34

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    “Não escrevemos por acaso. Temos necessidade de nos deixar ao outro e essa é uma atividade eminentemente humana” (Luiz Hermenegildo Fabiano).

Fazer um curso de pintura não faz obrigatoriamente de ninguém um artista. Saber alguns acordes no violão também não garante que alguém seja músico. Mas isso não nos impede de apreciar a arte e até nos permitir apreendê-la e exercê-la para nossa ludicidade e humanização.

Não que literatura seja somente talento, como também não o é a música ou a pintura. A técnica é importante, sim, para desenvolver a arte de escrever, como já nos disse Raimundo Carrero. No século XVI, a literatura latina era descrita como “ingenium et ars”, ou seja, a perfeita junção entre talento e técnica. Em latim, Ars, a Arte, não é sinônimo de talento, mas sim de técnica. Arte, portanto, não tem relação com inspiração, inclinação ou talento, mas, propriamente, com a habilidade advinda do domínio de técnicas. A literatura, como uma Arte, é também fruto da habilidade do escritor no manejo das palavras. Como em qualquer Arte, o diferencial do artista será sua sensibilidade, sua criatividade e sua habilidade. Como nos diz Clarice Lispector, viver só se aprende vivendo; assim podemos afirmar que muitas das facetas de um artista são fruto de sua vivência. Mas a técnica pode, sim, ser ensinada e aprendida. A artista plástica aprende sua técnica nos ateliês; o músico, nos conservatórios; e o escritor, na oficina literária.

O que quero tratar aqui é a questão da proliferação das oficinas literárias ou dos cursos de formação de escritores. De modo algum postulo contra eles, pelo contrário, acredito que, em virtude do fácil acesso dos escritores amadores ao mercado editorial – graças às edições do autor e das editoras sob demanda –, o grande número de obras no mercado prejudica a qualidade, já que grande parte das publicações muitas vezes é de obras que nem sequer passaram por um crivo crítico. Assim, as oficinas, trabalhando na formação dos escritores amadores, podem contribuir com a qualidade das obras que alcançam a publicação. Mais um ponto positivo das oficinas é que o escritor passa a conhecer outros escritores, criando assim uma rede de afinidade que possibilitaria a ajuda mútua, por exemplo, pela leitura e crítica dos escritos uns dos outros.

Ao terminar a oficina, o aluno seria então um escritor? É importante então refletir que não é porque se faz uma oficina de escrita (ou curso de formação de escritores) que alguém se torna escritor no sentido pleno da palavra.

Primeiro ponto a ser considerado: o escritor é um profissional da literatura. Isso quer dizer que, muito mais que escrever, ele tem uma prática de leitura tanto de textos de ficção, quanto de textos teóricos. O que se vê atualmente é que grande parte dos candidatos a escritor não têm uma prática de leitura, ou seja, não estudam os principais textos da literatura mundial. O escritor tem de ter uma reflexão acerca do fazer literário, da importância da arte literária, da contraposição da literatura como produto de consumo e como arte. Obrigatoriamente, tem de conhecer a fundo o gênero a que se dedica a escrever e conhecer seus contemporâneos. Não estou desejando afirmar que é preciso cursar a faculdade de letras para ser escritor. Mas é preciso ir além de gravar no papel reflexões que dizem respeito somente a si mesmo e depois querer transportá-las para o grande público. Para isso existe o diário.

Segunda questão: quem pode ministrar um curso de formação de escritores? Isso é um grande problema. Muitos dos professores dessas oficinas são desconhecidos do mundo literário. A questão não está somente no fato de ser reconhecido, mas na sua formação e se ele realmente tem experiência para transmitir aos alunos. Assim, é preciso antes de ingressar em alguma oficina procurar saber quem são os professores, sua experiência no mercado editorial, sua didática, a organização do curso. Conheça o curso e estude se a proposta realmente será eficaz com você. Mario Bellatin, escritor mexicano, dirige a Escuela Dinámica de Escritores , uma escola de formação de escritores em que se é proibido escrever como exercício da escola. O grupo francês Oulipo propõe exercícios de restrição (como, por exemplo, não usar o artigo “a”, não usar adjetivo algum) como superação e aperfeiçoamento da técnica. Propostas de didática existem na maior variedade possível.

Como diz Raimundo Carrero , “O trabalho literário exige disciplina e método”. Assim, se você deseja ser escritor, invista em sua carreira. Escreva muito, sim. Mas leia muito mais. Busque os clássicos, busque os escritores contemporâneos, busque os críticos. A literatura é uma profissão, então precisa de empenho e dedicação.

Gostaria de convidar as pessoas que fizeram alguma oficina literária ou curso de formação de escritores a relatarem a sua experiência aqui, no intuito de enriquecer a reflexão.

Saudações literárias,

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O que nos diz a crítica literária?

admin em 21 de Setembro de 2009 @ 17:51

José Castello, “O Crítico Aprendiz”, O Globo, 12 set. 2009, Prosa e Verso, p. 4
critica - critica

No artigo, José Castello discorre sobre a crítica de um texto de um autor novo, primeiro livro. Aí, a nosso ver, está a tarefa da crítica, tão bem feita por Manoel Bandeira, ler os escritores estreiantes e apresentá-los ao mundo literário. A tarefa é difícil, sabemos. Mas qual a razão de uma crítica cujo objeto são somente escritores consagrados?

Selecionamos excertos:

“…diante de um primeiro livro, o crítico se vê obrigado a exercitar, mais que nunca, o fundamento de qualquer leitura: a capacidade de se assombrar.”


“Também escrever um primeiro livro é desconstruir-se, into é, livrar-se do que ‘naturalmente somos’. Nada há de natural na literatura. Não se escreve sem, antes disso, destruir um mundo.”


“ Mais que o corpo, é a linguagem que, despida de sua ilusória bondade, passa a nos falhar. Só quando revira e torce a linguagem, um escritor começa a escrever.”


“A literatura não se interessa pela civilização e pelo progresso. Ela não é a montagem de ideais, mas, ao contrário, sua desmontagem. Nada assegura que um romance escrito no século XX seja superior (um ‘avanço’) a um romance do século XIX. A literatura é indiferente à lógica dos relógios. É extemporânea.”


“A cada palavra que escreve (que lhe sai), o escritor desmente a palavra planejada. Nos livros de estreia, ainda temerosos de se arriscar, os escritores em geral se agarram aos ideais antigos de boa educação, desenvolvimento e progresso. Ocorre que as torrentes da escrita são mais fortes. Se o autor escreve para valer, elas logo o arrastarão para fora de seu caminho. A isso se pode chamar de destino.”

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Beth Finholdt no mundo da arte

admin em 14 de Setembro de 2009 @ 21:30

NOVOS ILUSTRADORES

abertura 1 - abertura 1
Nome | Beth Finholdt
Email |
beth.finholdt@terra.com.br
Blog | http://saymourglass.blogspot.com/ e http://bethfinholdt.blogspot.com/
Minibiografia | Nasceu no Triângulo Mineiro (Uberaba) em 24 de março de 1983. Filha de artista autodidata. Seu pai sempre trabalhou com propaganda artística. Desde cedo a levava para ajudá-lo a pintar painéis e letreiros; e, a partir dos 8 anos, ela pôde pintar telas no atelier do progenitor. Iniciou sua vida profissional como costureira. Foi um longo aprendizado autônomo com bordados, tricô, crochê, tapeçaria, corte e modelagem de vestuário, crafts… Desde 2003, procurou conciliar o trabalho de pintura e desenho com a costura, mas a pintura falou mais alto. Atualmente estuda Artes Visuais na UFMG, colabora como ilustradora freelancer para editoras como a Canto Escuro (Portugal) e Hemisfério Sul (Brasil) etc.


Fale sobre suas atividades como ilustradora
Beth | Ainda estou me familiarizando com o universo da ilustração. Procuro conhecer o trabalho de diversos colegas, pois acho fundamental se inteirar com o que está a nossa volta. Meu trabalho é mais artesanal, baseado em desenho e pintura.

3n beth - 3n beth

Como ilustradora, você fez trabalhos para o mercado editorial, como capa, ilustração interna de livro, revista? Conte-nos sua experiência nessa área
Beth | O autor Daniel Ricardo Barbosa me incentiva muito a estudar artes de uma maneira ampla. Em 2003 me apresentou o projeto de seu livro Os Nomes na Máquina, que achei fantástico, e propôs que eu fizesse as ilustrações internas e a capa. O mesmo se deu com a capa do livro Elo, Entrelinhas & Alucinações – publicados em 2008 e 2009 respectivamente e em ordem inversa. É muito bacana trabalhar a ilustração a partir da interpretação de um texto e espero fazer isso mais vezes.

345 beth - 345 beth

A escrita e a ilustração são linguagens distintas. Por isso cada uma tem suas particularidades. De acordo com sua experiência, o que é positivo e o que pode ser negativo na união dessas duas formas de linguagem? Fale também de seu contato com escritores e editoras
Beth | Para mim a escrita e a ilustração não são linguagens distintas, mas sim complementares. Elas têm a mesma origem e finalidade. Creio que a ilustração aliada ao texto aborda o expectador de uma maneira mais abrangente e vice-versa. Obviamente existem fatores culturais e sociais que direcionam a leitura que se faz tanto do texto quanto da ilustração.

Cancao beth 1 - Cancao beth 1

Conhece a SIB (Sociedade Brasileira de Ilustradores do Brasil) e a AEILIS (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil)? Acha importante que o ilustrador se filie a sociedades e comunidades de ilustradores?
Beth | Ainda não conhecia as instituições. Acho importante a existência dessas associações para a troca de experiências e apoio ao profissional de ilustração.

An  nimo beth - An  nimo beth

Comente sobre seu estilo de ilustração e influências
Beth | Acho que ainda não tenho um estilo de ilustração definido. Minhas influências não vêm necessariamente das HQ’s. As referências são da natureza e do dia a dia. Penso que o estilo de um artista é mutável, depende de pesquisas em que se trabalha, influência de cores, trabalhos de outros colegas, momento histórico e político…

Elo Imagem beth - Elo Imagem beth

Vi algumas de suas ilustrações e devo admitir que me lembrei muito do traço futurístico na animação Aeon Flux. Você pretende ampliar seu trabalho como capista de livros de ficção científica?
Beth | As minhas influências em ficção científica advêm principalmente de filmes como Jornada nas Estrelas, Matrix e livros como Spharion, de Lúcia Machado de Almeida e Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne. O mundo das HQ’s não me influencia diretamente. Até porque ainda não tive muito contato com ele. Mas fico feliz pela associação. Desde que o projeto me interesse, apresente-me alguma proposta que me desperte a atenção, estou aberta a trabalhos sobre qualquer tema – inclusive ficção científica.

 seis  2001beth -  seis  2001beth

Qual foi seu trabalho mais interessante?
Beth | Todos os trabalhos são interessantes, oferecem um desafio e trazem aprendizado. Foi muito bom fazer as ilustrações para Os Nomes na Máquina, pois cada desenho interpretava o universo de um personagem. Mas gosto igualmente de desenvolver ideias com pintura e diversos materiais.

Casa da praia - Casa da praia

Qual seu conselho aos ilustradores que estão iniciando a carreira agora?
Beth | Trabalhar com algo com que se tenha afinidade, em qualquer que seja a área de atuação, é fundamental. Aquele entusiasmo que sentimos se transferirá automaticamente para o trabalho.


Beth, agradecemos pela entrevista e desejamos muito sucesso!

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Camila Fernandes

admin em 2 de Setembro de 2009 @ 13:02

NOVOS ESCRITORES
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Entrevistado: Camila Fernandes
Biografia por ela mesma | Paulistana, 28 anos, ilustradora, revisora de textos e escritora. Trabalhou por 6 anos como desenhista freelancer, deu aulas de computação gráfica e atualmente presta serviços à Mauricio de Sousa Produções, colorizando livros e revistas. Ainda atua como freelancer nas horas vagas, fazendo capas de livros e revisando textos.
Escreve | Escreve principalmente fantasia, mas prefere não se limitar a gêneros. Participou como contista de 7 antologias: Necrópole – histórias de vampiros (2005), Necrópole – histórias de fantasmas (2006), Visões de São Paulo – ensaios urbanos (2006), Necrópole – histórias de bruxaria (2008) e dos volumes I, II e III da coleção Paradigmas (2009).
E-mail | camilailustradora@gmail.com
Blog | www.camilafernandes.wordpress.com/ (textos)
Site | www.milaf.wordpress.com/ (ilustrações)
Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=17040084698518307776&rl=t/
Twitter | http://twitter.com/milaf/

Um gosto de Sampa
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Mila F.


Camila Fernandes, nome de batismo, é a escritora. Mila F., a ilustradora. Por que a escolha de nomes diferenciados para cada trabalho? Há alguma questão da influência do nome da escritora no trabalho de ilustração?
Camila | Eu assinava meu nome completo em minhas ilustrações e achava que ele ocupava espaço demais. Não queria reduzir para algo impessoal como C. Fernandes ou CF, então encurtei para Mila F. Tem funcionado, apesar de alguém sempre me perguntar se sou parente da Christiane F.


Como é conciliar o trabalho de revisora, ilustradora e escritora? Como é sua rotina?
Camila | É meio louca. Ilustrar e escrever são duas vocações; a primeira, sigo por profissão, a outra, por teimosia. Revisar textos é uma tarefa adicional que acabou surgindo por conta da minha paixão pelas letras. Por cerca de 6 anos atuei como ilustradora freelancer. É raro um profissional desse tipo ser disciplinado e a maioria de nós têm relógios biológicos ajustados para fusos horários mutantes. Eu trabalhava em casa, trocava o dia pela noite ou tinha uma semana inteira sem serviço nenhum para numa sexta-feira à tarde receber um projeto grande a ser entregue na segunda-feira de manhã. Eu bem que tentava existir em horário comercial, mas sempre fui da noite. Nessa época, tinha mais tempo livre para escrever, mas hoje vejo que o usava muito mal. Uma vida divertida, mas, como tudo o que é livre, muito incerta. Os trabalhos se alternavam entre revisão de livros e ilustrações para publicidade, especialmente endomarketing; daí quase nada do que eu fiz estar à vista do lado de fora das empresas, infelizmente. Por dois anos também dei aulas de Photoshop e Pintura Digital na Cadritech, ótima escola de arte digital. Hoje meus horários são mais normais na marra, já que trabalho de dia no estúdio de arte da Mauricio de Sousa Produções. Fora isso ainda faço alguns freelancers, escolhendo-os com mais critério, já que o tempo agora é curto, e aulas de dança 3 vezes por semana. No meio de tudo isso, não sei como, ainda encontro tempo para dizer que sou escritora. Não posso dizer que escrevo disciplinadamente, todo dia, como uma profissional. Eu escrevo quando dá: obsessivamente.


O processo criativo para a ilustração é muito diferente do para a escrita?
Camila | Para mim, são processos semelhantes, que envolvem suar bastante em cima das ideias, reescrevendo ou redesenhando partes até obter o melhor resultado. Surge um tema para um conto ou desenho e, à medida que esse embrião se desenvolve na mente, percebo quais são as lacunas que precisarão ser preenchidas com pesquisas. Ou o contrário: de um trabalho encomendado surge a oportunidade de explorar certo tema, sem argumento ou conhecimento prévio. Daí, parto direto para a pesquisa, começo a devorar referências e as idéias vão porejando na marra. Por exemplo: para ilustrar um guerreiro viking, precisarei conhecer seu biotipo, suas vestimentas, as armas que usava. Para escrever sua história, a pesquisa incluirá também a época em que viveu, os costumes de seu povo, suas ambições e os obstáculos que tinha de transpor para viver. Sou mais compulsiva na escrita que na ilustração: preciso me deter para não retocar demais.

Japonesas
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Milla F.


Como é sua relação com a escrita? Quando começou a escrever contos e como é esse processo?
Camila | Como toda criança CDF eu escrevia boas redações. Quando adolescente, passei a escrever de maneira obsessiva. Tenho até alguns romances encalhados dessa época, o tipo de projeto faraônico que todo escritor novato possui. Hoje, mal consigo ler o que então produzia. Espero daqui a 10 anos não dizer a mesma coisa sobre o que escrevo agora, mas, se o fizer, ao menos será um sinal de que evoluí. Escrevi meus primeiros contos lá pelos meus 19, 20 anos. Depois, as facilidades da Internet me encorajaram a expôr meus escritos em comunidades dedicadas a literatura, onde eu podia fazer e receber críticas de outros autores, o que muito aprimorou o meu trabalho. Percebi que o conto era mais que um ótimo exercício para desenvolver estilo e ritmo de forma a um dia escrever um romance; era também uma forma literária legítima e atraente. Em 2004 passei para o papel lançando o NecroZine, publicação que criei junto com Alexandre Heredia, Gian Celli, Giorgio Cappelli e Richard Diegues. Era distribuído gratuitamente em eventos, na versão impressa, e na Web, em PDF, com a intenção de divulgar o nosso trabalho e reconhecer o terreno difícil onde pisávamos na época, o da literatura de terror. Com os mesmos parceiros publiquei meu primeiro livro, a coletânea Necrópole – histórias de vampiros. Creio que sempre tive um forte desejo de me comunicar, de contar histórias e exorcizar demônios. Encontrei minha via de expressão primeiro no desenho, depois na escrita – nessa, talvez, com maior intensidade. As motivações e os propósitos podem até mudar, mas a mania fica.


Do que já ilustrou e escreveu, quais são seus trabalhos prediletos?
Camila | Difícil dizer. Mas tenho um carinho especial por meu primeiro conto publicado em livro, “A casa dos loucos”. Foi minha primeira experiência com um texto encomendado, isto é, definido dentro de um tema e com tamanho limitado. Sonhei com algumas imagens loucas, a casa antiga, o quarto estranho e lisérgico, os personagens e sobretudo as sensações que tentei transportar para o conto. Nas ilustrações, gosto muito dos esboços que fiz em um sketchbook que eu carregava para todo lado. Normalmente, são retratos de personagens das minhas histórias. A absoluta falta de compromisso desses desenhos lhes dá uma espontaneidade que nem sempre consigo levar para meus trabalhos “sérios”. Esse é meu verdadeiro estilo, minha cara.


Pelo o que li de seus contos, percebi que você orquestra as personagens para que elas cumpram o destino mais apropriado à narrativa. Como é sua relação com a construção das personagens?
Camila | Dizem que quando você cria um personagem e lhe dá dimensões realistas a história se desenvolve naturalmente a partir dele e à sua volta. Deveria ser assim, mas nem sempre é. Eu imagino uma situação e faço uma pergunta: o que eu faria no lugar desse personagem? E se ele for alguém muito diferente de mim, como agiria? Se eu quiser escrever um conto sobre um assassinato, penso em quem morreu, quem matou e por quê. Que tipo de pessoa faria isso? Alguém normal, pressionado pelas circunstâncias e depois arrependido? Ou uma criatura imoral procurando eliminar um obstáculo? Se eu tiver uma situação de grande perigo, posso optar por um perfil heróico, que enfrentará a ameaça, ou pelo mais fraco, que irá se acovardar e fugir do problema. Às vezes, a opção mais improvável dá o resultado mais interessante. Brincar com os excessos e as falhas do caráter humano é um dos exercícios mais enriquecedores para o trabalho de um escritor. Frequentemente escrevo do ponto de vista do vilão. Tento ignorar concepções maniqueístas e não fazer com que meus protagonistas sejam apenas heróis ou covardes o tempo todo, afinal, não há nada mais chato do que personagens rasos, perfeitinhos. Você pode começar pelo personagem e ver a que tipo de situação sua personalidade irá levar ou começar pela premissa e encaixar as pessoas certas nos papéis vagos. Não precisa fazer sempre o mesmo caminho ou fórmula. Basta usar a criatividade sem perder a coerência.

Nicolae
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Mila F.


Quando escreve, pensa em transmitir ao leitor uma mensagem definida? Você percebe se há alguma crítica/pensamento recorrente na base de suas histórias?
Camila | Não tenho a intenção de moralizar ninguém. Mas sempre que posso insiro alguma crítica bem sutil a comportamentos compulsivos da modernidade, como a vaidade desmedida, a competição social, males dos quais eu própria não escapo… Mais que um pensamento recorrente, a angústia e a insatisfação são combustíveis recorrentes para meus personagens. Creio que também exploro o sensual e o sensorial em quase tudo, talvez por eu própria sentir quase tudo na vida em excesso.


Nelson de Oliveira diz que a boa prosa é a que incomoda o leitor. O que você acha?
Camila | Concordo. Li recentemente esse trecho de uma entrevista com o Nelson no próprio Ofício Editorial e me entusiasmei com sua visão. Mas talvez eu trocasse a palavra “incomodar” por “causar”. Incomodar tem uma conotação algo negativa. Já causar, bem, pode-se causar qualquer coisa, desde intensa dor até intensa alegria. Gosto das obras que mexem com o que há de pior em nós, mas também dos que nos elevam e nos fazem acreditar em pessoas e mundos melhores. Os bons livros têm esse poder de nos tirar do lugar, manipular nossos sentimentos e verdades, nos sacudir por dentro. As melhores histórias marcam para sempre quem as lê.


Quais são seus autores e livros prediletos?
Camila | Não sou uma leitora fiel, minhas paixões nessa área mudam bastante. Mas posso listar as obras que mais derrubaram paredes na minha vida: Os Doze Trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brönte, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, O Físico, de Noah Gordon, a trilogia As Crônicas de Arthur, de Bernard Cornwell, e a saga Estação das Brumas, de Neil Gaiman, na extinta revista Sandman.


Em seu blog, você revela que está trabalhando em um livro solo. Fale sobre isso.
Camila | O livro é Reino das Névoas – contos de fadas para adultos. São sete contos inspirados na essência dos contos de fadas originais. Isto é, narrativas bastante antigas, que, antes de passar pelo polimento nas mãos de autores como Perrault, Andersen e os Irmãos Grimm, eram cheias de violência, traição, sexo, morte e até canibalismo. Os contos de fadas eram a novela do povo antes da invenção da censura e da televisão. Eram contados ao pé do fogo e destinados a entreter, ensinar e chocar, mexendo com os interesses mais mórbidos do ser humano. Meus sete contos são histórias novas, mas que se assemelham às antigas por falarem não só de heroísmo e glória como também de ambição, medo e brutalidade. Claro que há também contos belos, edificantes, bem-humorados. Mas é uma leitura adulta, para deixar longe das mãos das crianças. Cada conto terá uma ilustração de abertura. É um velho sonho meu escrever e ilustrar um livro, afinal, por que dividir se a gente pode juntar tudo? Há outros planos para livros, mas este é meu xodó no momento.


Para quais editoras você envia seus trabalhos como escritora e como é sua relação com elas?
Camila | Atualmente tenho participado das antologias da série Paradigmas, da Tarja Editorial. Seus donos, Richard Diegues e Gian Celli, são parceiros de longa data que começaram quase junto comigo no ramo literário. Depois que publicamos a coleção Necrópole com a Alaúde, eles abriram sua própria editora. Tive uma boa relação com a Alaúde, mas pelo seu foco editorial eu não acredito que ela se interessaria pelo meu trabalho hoje. Com Richard e Gian é natural que tenha também boas relações e pretendo enviar meus originais para eles antes de qualquer outra editora. A Tarja está fazendo um excelente trabalho em novos talentos da literatura nacional de fantasia e FC. No momento, não tenho contato com outras editoras da área. Se precisar, vou ralar para conseguir, mas já ajuda conhecer alguém que conhece alguém e por aí vai – por isso é importante o escritor cultivar uma rede de contatos dentro de seu ramo, exatamente como os publicitários fazem. Sei que é difícil publicar literatura fantástica no Brasil, mais ainda quando se é um autor pouco conhecido. Mas também sei que esse discurso se desgasta, pois o panorama está se transformando aos poucos e mais editoras estão passando a prestar atenção a esse nicho. Hoje temos a Tarja, a Não-Editora, a Terracota, a Novo Século, entre outras, e o número de publicações tende a aumentar. Assim como a qualidade.

Agradeço imensamente ao pessoal da Ofício Editorial pela oportunidade de responder às suas questões e falar um pouco sobre o que faço. Aproveito para parabenizá-los pela dedicação e pelo alto nível do seu trabalho no site. Valeu, pessoal!

Nosferatu
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Mila F.


Nós que agradecemos. E aproveitamos para informar que quem quiser conversar com a Camila ou adquirir os livros com seus contos pode escrever para: camilailustradora@gmail.com, ou entrar no site da Tarja Editorial (Tarja Livros) www.tarjalivros.com.br

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Regras básicas de leitura e escrita

admin em 28 de Agosto de 2009 @ 21:49

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PARA LER
1. Ignorar os best-sellers, por maior que seja a tentação. Deixe passar cinco anos. Se o livro ainda respirar bem, pode investir.
2. Ler com desconfiança o que lê. Se o livro resistir a essa leitura, é porque é bom.
3. Ler com um lápis na mão. E usá-lo.
4. Conhecer pessoalmente o escritor só depois de ler o livro; caso contrário, a figura do escritor ficará colada ao texto, como um fantasma.
5. Ler edições que tenham bom gosto. Uma edição amadora piora dramaticamente o livro.

PARA ESCREVER
1. Dedicar mais tempo à leitura do que à escrita.
2. Usar em abundância o ponto final, especialmente quando a frase resiste a qualquer conserto.
3. Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis.
4. Não levar o laptop para a cozinha ou para a sala de visitas. Se não tiver um gabinete exclusivo, o quarto é uma boa escolha.
5. Escrever apenas sobre o que conhece perfeitamente, mesmo que seja um romance passado no futuro.

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL | é professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e autor de “Ensaios Íntimos e Imperfeitos” (L&PM), entre outros livros.
“Escritores em construção”, Folha de S. Paulo, 16 ago. 2009, caderno Mais!

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Interview with Fred Schepartz

admin em 25 de Agosto de 2009 @ 17:28

NOVOS ESCRITORES
Fred 1 - Fred 1

    Interview with Fred Schepartz
    Biography | Fred Schepartz is a published science fiction writer and is the publisher and executive editor of Mobius: The Journal of Social Change (www.mobiusmagazine.com). This is Fred’s true identity, but in the make-believe world of market capitalism, he pays the bills driving cab at Union Cab, a worker-owned-and-operated taxi company in Madison, Wisconsin, happily subverting from within since 1979.
    E-mail | fmschep@charter.net
    Blog | http://vampire-cabbie.livejournal.com/
    Blog | www.vampirecabbie.com
    Facebook | Fred Schepartz
    Book | Vampire Cabbie
    Publisher | Literaryroad.com (October 10, 2007)

  • You wrote a book entitled Vampire Cabbie. Was it your first book? Tell us a little about it.
    FRED |
    Vampire Cabbie is my first published novel, but it’s actually my third novel. I wrote a mainstream, literary novel and then a science fiction novel. The first novel I think was actually publishable. The second one may not have been.
    Vampire Cabbie is about a 1000-year-old vampire who loses his vast fortune in the stock market crash of 1987 and is forced to get a job. He moves to Madison, WI, where I live, for a job that had been found for him working in a laboratory on the University of Wisconsin campus, but when he arrives here, he finds that the job had fallen through. He’s stranded and desperate. He gets a sudden inspiration that maybe cab driving might be something to do for a living, as it were. He applies for a job at a worker-owned-and-operated cooperative cab company, which is based on Union Cab Coop where I’ve worked for the last 21 years. I can tell you the details about cab driving are accurate. The details about the inner workings of a worker’s cooperative are accurate. As to the vampire details, well, I’m only guessing.
    I wrote the novel in the mid 1990s, but I’m amazed at how the vampire’s economic circumstances are so similar to what’s going on right now. I’d have to say, that’s kind of a happy accident in terms of the timing of the book’s publication. I think that gives the story so much more meaning. Also, I have to say, I’m really proud of the fact that the book portrays mostly working class characters and does so in a positive and honest way. One of the conflicts in the book concerns how the vampire deals with working side by side with people he considers to be his inferiors.

  • To write Vampire Cabbie, from where did you get inspiration? Some writers dream about their stories, another get a hint by some other book. How was the creative process to write Vampire cabbie?
    FRED |
    The idea of a vampire cabbie just came to me one day while I was in the cab driving. I think I remember exactly what street I was on, but I’m not sure. Suddenly, it hit me, and it just seemed so obvious. I liked vampires, and I knew about driving a taxicab. Ah ha! I should write about a vampire cab driver.

  • Al Farkus, the protagonist, has to work as a cabdriver. We could easily see that he is not the vampire stereotype. Do you think the readers will enjoy it? Did you think specifically in one kind of reader when you were writing?
    FRED |
    I intentionally created Al to work against the standard vampire archetype. I mean, there’s nothing wrong with the archetypes, but there’s a lot to be said for working against type. That’s what originality is all about. I should mention that I wrote a short story called, “These Guys Really Suck,” which concerns vampires on an afternoon talk show. The story’s mostly for laughs. Al appears on the show along with three other vampires who all portray and thus skewer three well-established vampire archetypes.
    I think intelligent readers appreciate this approach, and those are the kinds of readers I want to appeal to. However, I do have to say that because the book wasn’t like most other vampire novels, and because Al wasn’t like most other vampires, that’s probably why it took a good 12 years for the book to get published. The big time book publishers play a high stakes game, and I don’t think they wanted to take a chance on something unproven. I guess if I wrote like Anne Rice, the publishing industry would’ve felt more comfortable with it, but I don’t. Also, given that in the United States we don’t like to talk about class and we don’t like to portray workers in genre fiction, that might’ve had something to do with it as well.

  • In the book, you discussed some important topics, such as cooperatives. Were they reflection of your work at Mobius (The Journal of Social Change)?
    FRED |
    I’m so glad you asked me that question. It’s good to see that the rest of the world isn’t as freaked out about left wing politics as the United States. That’s the problem here. The range of accepted political discourse is so narrow. If you’re to the left of the Democratic Party, you’re considered a radical and potentially dangerous.
    I’m a card carrying member of the International Communist Conspiracy. In fact, if you look in my wallet, you’ll see my card. By the way, that’s a joke. I do have a card. It was one of many made by my best friend when we were all in college in the early 1980s. Back then we all used to be heavily involved with activist work on various social justice causes. And most of us still are involved, though in our own ways. I don’t really do activist work anymore. I changed tactics, but not strategy. I believe that to change our society for the better, we need to educate ourselves. That’s why I write fiction. That’s why I publish and edit Mobius. That’s why I blog. It’s all about what I can do to help create a better tomorrow.
    Oh, and politically, I should say I’m essentially a syndicalist with Marxist leanings. Specifically, I’m a neo-syndicalist. For details of what I mean by that, check out my blog.

  • About Mobius: “At Mobius we believe that writing is power and good writing empowers both the reader and the writer”. Which are the elements that characterize a book as worthy to be read?
    FRED |
    First and foremost, I look for good writing. However, to be honest, I’m first looking for bad writing as a means to weed out those stories that won’t make it. I have to confess that as an editor, I’m looking for reasons to not publish your fiction.
    A story needs to be technically proficient. It needs a strong plot and well drawn characters. But to be a Mobius story, it needs to have something to say. It doesn’t need to be politically partisan, but it needs to offer some kind of social commentary.

  • ” ‘Well don’t forget it, Count. The customer is always right, that is, unless they’re a raving psychotic.’
    That last remark gave me pause. Raving psychotic? Just how psychotic might a raving psychotic be?”
    When Al Farkus (called ‘Count’ by his coworkers) is learning how to work as a cabdriver the story gains a lot of humor. Does your real work as a cabdriver give you a lot of material to write fiction?
    FRED |
    Well, there’s crazy and then there’s crazy and then there’s batshit crazy. I recently had this guy in my cab who was absolutely batshit crazy. I mean schizophrenic. It came out in the local news that they found the mummified remains of his aunt a week after he was in my cab, and I dropped him off at his house. His aunt had been missing since sometime in July. I had him in my cab in early August. This is all absolutely true. If I ever write a Vampire Cabbie sequel, this will have to make it into the story somehow.
    So, yes, there are always real life cab driving stories that could and do work as fiction. Vampire Cabbie has a few real stories. In fact, there was one incident that happened after I had written the book. It was so funny I had to add it to the manuscript.

  • Speaking about you and about work as a cabdriver: could you tell us a little about your daily routine? When do you write?
    FRED |
    I hate to admit this, but I really don’t find the time to write right now. My wife quit her job last summer, and she’s in grad school. I’m working an extra shift every other week to make ends meet. Plus, I’m often working past my end time. I’m probably working about 48-50 hours a week, which doesn’t allow much time for much of anything. I have fewer days off, so I’m exhausted during my days off, and I have to spend the time doing stuff I don’t get time to do otherwise.
    Still, I steal time here and there. I’m doing the rewrites on my next novel, Guitar God, which I describe as a Jewish, suburban rock and roll fantasy with a 1970s soundtrack. I’ve done two complete rewrites, but I need to find a routine to get going with the third rewrite. Ideally, I’d do one chapter every day, but so often I work, get home, get to bed about three AM, get up about 9:30 the next morning, drink some coffee, read the paper and get out the door just in time for my next shift.

  • Your story offers to the reader murder, romance, suspense and humor. Those are essential elements to a catchy story?
    FRED |
    Yes and no. The main essential element to a catchy story is tension. The reader needs a reason to turn the page. Tension can be achieved in various ways, but it’s key.

  • Let’s talk about humor. It is important to put humor in a plot?
    FRED |
    I’m reminded of a story of some great actor who on his deathbed said, “Dying is easy. Comedy is difficult.”
    I think humor is important. Some plots get so deadly serious that they need some kind of comic relief just to keep the reader from slitting their wrists. Humor is certainly important for me because I’m a funny guy. If I’m not using humor in some way, shape or form, I’m not working to my strength as a writer. On the other hand, if you’re not funny, don’t try putting humor into your work because it just won’t work. And that’s just the way it is. Some writers are funny. Some aren’t. Christopher Moore is funny. John Milton is not funny.
    I’m also reminded of my English lit teacher giving an example of “humor” in Daisy Miller by Henry James. Winterbourne is chatting with Daisy’s younger brother. He asks the kid where their father is. The kid says, “He’s in a better place.” “Oh, I’m sorry,” an embarrassed Winterbourne replies. “Yeah,” he kid continues, “he’s in Schenectady.”

  • About your reader: who do you like to read your book? There is any kind of reader that you dislike or that you do not like to read your book?
    FRED |
    I like anybody and everybody to read my book. More importantly, I like anybody and everybody to BUY my book.
    However, a funny story. At my book release party, I noticed the daughter of my best friend’s wife sitting in a corner reading my book. I was horrified. She was 13! I’m thinking, this book is indecent. A little girl shouldn’t be reading it. Then my wife tells me she’s seen what the girl is reading, and my book is tame in comparison. The kid’s a big reader and reads past her grade level. That’s great.
    Since then I’ve done some research on the young adult market. I’m amazed at what’s considered taboo and what’s considered tame. My work is relatively tame.
    Oh, I should mention that Flo has read Vampire Cabbie twice. I’m also using her as a focus group for my next book. Also, it turned out that Vampire Cabbie was hugely popular among freshman at East High School here in Madison. Unfortunately, I think the kids all read the same passed-around copy of my book.

  • About vampires: it is still a good theme to write about? And what do you think about the vampire stories that have been published nowadays?
    FRED |
    Vampires will always be a good thing to write about, but we may soon reach the saturation point of vampires, but I think from a narrative point of view, vampires will always be cool.
    I haven’t actually read any of the Sookie Stackhouse books or any of the Twilight novels. However, I love True Blood. The premise is great. The characters are great. She’s done interesting things with the canon. The vampire power structure is interesting. As far as Twilight goes, based on everything I’ve heard, I don’t think I’d like it. It sounds a bit infantile, and my understanding is that the writing isn’t very good, but who knows? I might be surprised if I read Twilight. My sense of it, however, is that it’s very much in the romance genre, which, well, isn’t my favorite.
    One trend I think is a bit overdone is vampirism as a virus. It seems a lot of people came up with that at about the same time, figuring it was an original take.

  • Vampire Cabbie was conceived to be a book since the beginning? How much time do you apply to write it? And, when did you finish it, how was the response that you had from the publishers?
    FRED |
    Vampire Cabbie started as short stories. Then I decided the short stories could be cobbled together into a novel, which is why the novel may feel a bit episodic. It took exactly a year to write, rewrite and complete the novel.
    As far as the response from publishers, well, it wasn’t overwhelming. Again, I think the book was good enough to be published, but I think it was too atypical. Publishers weren’t sure what to make of it. It wasn’t gothic romance. It portrayed a pretty mundane setting. An agent said, “doesn’t grab me by the throat and not let go.” One editor called it “intelligently written.” Now that’s the kiss of death if I’ve ever seen it.
    Part of the problem is that I picked a bad time to start writing fiction, roughly 1985. Throughout the 1980s and 1990s we saw more and more people writing fiction and less and less people publishing fiction. The big presses were all swallowed up by corporate conglomerates. Books have to make money so they can turn a profit, which is turned over as tribute to some far off board of directors. Small presses tried to make it, but survival was quite difficult. Technology was making life easier, but it wasn’t saving them money, not yet. Finally really just a few years ago, technology advanced to a point where small presses had a decent chance to make it, so now we’re really at a revolutionary time in book publishing. There’s now a good number of outlets for less established writers who aren’t regurgitating all the same old crap.

  • About your editor: Has she suggested any modifications in the story?
    FRED |
    No, she pretty much loved it as it was.

  • And — I could not help myself –, as once was asked to Al Farkus, I would like to ask you: “If they made a movie of your life, who would you want to play you?”
    FRED |
    No question. Johnny Depp!

    Rs rs rs! My husband’s answer was just the same… Men…

Thank you very much and we wish luck and success to you and your book
vampire cabbie 1 2 - vampire cabbie 1 2

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