NOVOS ESCRITORES

Entrevistado: Camila Fernandes
Biografia por ela mesma | Paulistana, 28 anos, ilustradora, revisora de textos e escritora. Trabalhou por 6 anos como desenhista freelancer, deu aulas de computação gráfica e atualmente presta serviços à Mauricio de Sousa Produções, colorizando livros e revistas. Ainda atua como freelancer nas horas vagas, fazendo capas de livros e revisando textos.
Escreve | Escreve principalmente fantasia, mas prefere não se limitar a gêneros. Participou como contista de 7 antologias: Necrópole – histórias de vampiros (2005), Necrópole – histórias de fantasmas (2006), Visões de São Paulo – ensaios urbanos (2006), Necrópole – histórias de bruxaria (2008) e dos volumes I, II e III da coleção Paradigmas (2009).
E-mail | camilailustradora@gmail.com
Blog | www.camilafernandes.wordpress.com/ (textos)
Site | www.milaf.wordpress.com/ (ilustrações)
Orkut | http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=17040084698518307776&rl=t/
Twitter | http://twitter.com/milaf/
Um gosto de Sampa

Mila F.
Camila Fernandes, nome de batismo, é a escritora. Mila F., a ilustradora. Por que a escolha de nomes diferenciados para cada trabalho? Há alguma questão da influência do nome da escritora no trabalho de ilustração?
Camila | Eu assinava meu nome completo em minhas ilustrações e achava que ele ocupava espaço demais. Não queria reduzir para algo impessoal como C. Fernandes ou CF, então encurtei para Mila F. Tem funcionado, apesar de alguém sempre me perguntar se sou parente da Christiane F.
Como é conciliar o trabalho de revisora, ilustradora e escritora? Como é sua rotina?
Camila | É meio louca. Ilustrar e escrever são duas vocações; a primeira, sigo por profissão, a outra, por teimosia. Revisar textos é uma tarefa adicional que acabou surgindo por conta da minha paixão pelas letras. Por cerca de 6 anos atuei como ilustradora freelancer. É raro um profissional desse tipo ser disciplinado e a maioria de nós têm relógios biológicos ajustados para fusos horários mutantes. Eu trabalhava em casa, trocava o dia pela noite ou tinha uma semana inteira sem serviço nenhum para numa sexta-feira à tarde receber um projeto grande a ser entregue na segunda-feira de manhã. Eu bem que tentava existir em horário comercial, mas sempre fui da noite. Nessa época, tinha mais tempo livre para escrever, mas hoje vejo que o usava muito mal. Uma vida divertida, mas, como tudo o que é livre, muito incerta. Os trabalhos se alternavam entre revisão de livros e ilustrações para publicidade, especialmente endomarketing; daí quase nada do que eu fiz estar à vista do lado de fora das empresas, infelizmente. Por dois anos também dei aulas de Photoshop e Pintura Digital na Cadritech, ótima escola de arte digital. Hoje meus horários são mais normais na marra, já que trabalho de dia no estúdio de arte da Mauricio de Sousa Produções. Fora isso ainda faço alguns freelancers, escolhendo-os com mais critério, já que o tempo agora é curto, e aulas de dança 3 vezes por semana. No meio de tudo isso, não sei como, ainda encontro tempo para dizer que sou escritora. Não posso dizer que escrevo disciplinadamente, todo dia, como uma profissional. Eu escrevo quando dá: obsessivamente.
O processo criativo para a ilustração é muito diferente do para a escrita?
Camila | Para mim, são processos semelhantes, que envolvem suar bastante em cima das ideias, reescrevendo ou redesenhando partes até obter o melhor resultado. Surge um tema para um conto ou desenho e, à medida que esse embrião se desenvolve na mente, percebo quais são as lacunas que precisarão ser preenchidas com pesquisas. Ou o contrário: de um trabalho encomendado surge a oportunidade de explorar certo tema, sem argumento ou conhecimento prévio. Daí, parto direto para a pesquisa, começo a devorar referências e as idéias vão porejando na marra. Por exemplo: para ilustrar um guerreiro viking, precisarei conhecer seu biotipo, suas vestimentas, as armas que usava. Para escrever sua história, a pesquisa incluirá também a época em que viveu, os costumes de seu povo, suas ambições e os obstáculos que tinha de transpor para viver. Sou mais compulsiva na escrita que na ilustração: preciso me deter para não retocar demais.
Japonesas

Milla F.
Como é sua relação com a escrita? Quando começou a escrever contos e como é esse processo?
Camila | Como toda criança CDF eu escrevia boas redações. Quando adolescente, passei a escrever de maneira obsessiva. Tenho até alguns romances encalhados dessa época, o tipo de projeto faraônico que todo escritor novato possui. Hoje, mal consigo ler o que então produzia. Espero daqui a 10 anos não dizer a mesma coisa sobre o que escrevo agora, mas, se o fizer, ao menos será um sinal de que evoluí. Escrevi meus primeiros contos lá pelos meus 19, 20 anos. Depois, as facilidades da Internet me encorajaram a expôr meus escritos em comunidades dedicadas a literatura, onde eu podia fazer e receber críticas de outros autores, o que muito aprimorou o meu trabalho. Percebi que o conto era mais que um ótimo exercício para desenvolver estilo e ritmo de forma a um dia escrever um romance; era também uma forma literária legítima e atraente. Em 2004 passei para o papel lançando o NecroZine, publicação que criei junto com Alexandre Heredia, Gian Celli, Giorgio Cappelli e Richard Diegues. Era distribuído gratuitamente em eventos, na versão impressa, e na Web, em PDF, com a intenção de divulgar o nosso trabalho e reconhecer o terreno difícil onde pisávamos na época, o da literatura de terror. Com os mesmos parceiros publiquei meu primeiro livro, a coletânea Necrópole – histórias de vampiros. Creio que sempre tive um forte desejo de me comunicar, de contar histórias e exorcizar demônios. Encontrei minha via de expressão primeiro no desenho, depois na escrita – nessa, talvez, com maior intensidade. As motivações e os propósitos podem até mudar, mas a mania fica.
Do que já ilustrou e escreveu, quais são seus trabalhos prediletos?
Camila | Difícil dizer. Mas tenho um carinho especial por meu primeiro conto publicado em livro, “A casa dos loucos”. Foi minha primeira experiência com um texto encomendado, isto é, definido dentro de um tema e com tamanho limitado. Sonhei com algumas imagens loucas, a casa antiga, o quarto estranho e lisérgico, os personagens e sobretudo as sensações que tentei transportar para o conto. Nas ilustrações, gosto muito dos esboços que fiz em um sketchbook que eu carregava para todo lado. Normalmente, são retratos de personagens das minhas histórias. A absoluta falta de compromisso desses desenhos lhes dá uma espontaneidade que nem sempre consigo levar para meus trabalhos “sérios”. Esse é meu verdadeiro estilo, minha cara.
Pelo o que li de seus contos, percebi que você orquestra as personagens para que elas cumpram o destino mais apropriado à narrativa. Como é sua relação com a construção das personagens?
Camila | Dizem que quando você cria um personagem e lhe dá dimensões realistas a história se desenvolve naturalmente a partir dele e à sua volta. Deveria ser assim, mas nem sempre é. Eu imagino uma situação e faço uma pergunta: o que eu faria no lugar desse personagem? E se ele for alguém muito diferente de mim, como agiria? Se eu quiser escrever um conto sobre um assassinato, penso em quem morreu, quem matou e por quê. Que tipo de pessoa faria isso? Alguém normal, pressionado pelas circunstâncias e depois arrependido? Ou uma criatura imoral procurando eliminar um obstáculo? Se eu tiver uma situação de grande perigo, posso optar por um perfil heróico, que enfrentará a ameaça, ou pelo mais fraco, que irá se acovardar e fugir do problema. Às vezes, a opção mais improvável dá o resultado mais interessante. Brincar com os excessos e as falhas do caráter humano é um dos exercícios mais enriquecedores para o trabalho de um escritor. Frequentemente escrevo do ponto de vista do vilão. Tento ignorar concepções maniqueístas e não fazer com que meus protagonistas sejam apenas heróis ou covardes o tempo todo, afinal, não há nada mais chato do que personagens rasos, perfeitinhos. Você pode começar pelo personagem e ver a que tipo de situação sua personalidade irá levar ou começar pela premissa e encaixar as pessoas certas nos papéis vagos. Não precisa fazer sempre o mesmo caminho ou fórmula. Basta usar a criatividade sem perder a coerência.
Nicolae

Mila F.
Quando escreve, pensa em transmitir ao leitor uma mensagem definida? Você percebe se há alguma crítica/pensamento recorrente na base de suas histórias?
Camila | Não tenho a intenção de moralizar ninguém. Mas sempre que posso insiro alguma crítica bem sutil a comportamentos compulsivos da modernidade, como a vaidade desmedida, a competição social, males dos quais eu própria não escapo… Mais que um pensamento recorrente, a angústia e a insatisfação são combustíveis recorrentes para meus personagens. Creio que também exploro o sensual e o sensorial em quase tudo, talvez por eu própria sentir quase tudo na vida em excesso.
Nelson de Oliveira diz que a boa prosa é a que incomoda o leitor. O que você acha?
Camila | Concordo. Li recentemente esse trecho de uma entrevista com o Nelson no próprio Ofício Editorial e me entusiasmei com sua visão. Mas talvez eu trocasse a palavra “incomodar” por “causar”. Incomodar tem uma conotação algo negativa. Já causar, bem, pode-se causar qualquer coisa, desde intensa dor até intensa alegria. Gosto das obras que mexem com o que há de pior em nós, mas também dos que nos elevam e nos fazem acreditar em pessoas e mundos melhores. Os bons livros têm esse poder de nos tirar do lugar, manipular nossos sentimentos e verdades, nos sacudir por dentro. As melhores histórias marcam para sempre quem as lê.
Quais são seus autores e livros prediletos?
Camila | Não sou uma leitora fiel, minhas paixões nessa área mudam bastante. Mas posso listar as obras que mais derrubaram paredes na minha vida: Os Doze Trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brönte, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, O Físico, de Noah Gordon, a trilogia As Crônicas de Arthur, de Bernard Cornwell, e a saga Estação das Brumas, de Neil Gaiman, na extinta revista Sandman.
Em seu blog, você revela que está trabalhando em um livro solo. Fale sobre isso.
Camila | O livro é Reino das Névoas – contos de fadas para adultos. São sete contos inspirados na essência dos contos de fadas originais. Isto é, narrativas bastante antigas, que, antes de passar pelo polimento nas mãos de autores como Perrault, Andersen e os Irmãos Grimm, eram cheias de violência, traição, sexo, morte e até canibalismo. Os contos de fadas eram a novela do povo antes da invenção da censura e da televisão. Eram contados ao pé do fogo e destinados a entreter, ensinar e chocar, mexendo com os interesses mais mórbidos do ser humano. Meus sete contos são histórias novas, mas que se assemelham às antigas por falarem não só de heroísmo e glória como também de ambição, medo e brutalidade. Claro que há também contos belos, edificantes, bem-humorados. Mas é uma leitura adulta, para deixar longe das mãos das crianças. Cada conto terá uma ilustração de abertura. É um velho sonho meu escrever e ilustrar um livro, afinal, por que dividir se a gente pode juntar tudo? Há outros planos para livros, mas este é meu xodó no momento.
Para quais editoras você envia seus trabalhos como escritora e como é sua relação com elas?
Camila | Atualmente tenho participado das antologias da série Paradigmas, da Tarja Editorial. Seus donos, Richard Diegues e Gian Celli, são parceiros de longa data que começaram quase junto comigo no ramo literário. Depois que publicamos a coleção Necrópole com a Alaúde, eles abriram sua própria editora. Tive uma boa relação com a Alaúde, mas pelo seu foco editorial eu não acredito que ela se interessaria pelo meu trabalho hoje. Com Richard e Gian é natural que tenha também boas relações e pretendo enviar meus originais para eles antes de qualquer outra editora. A Tarja está fazendo um excelente trabalho em novos talentos da literatura nacional de fantasia e FC. No momento, não tenho contato com outras editoras da área. Se precisar, vou ralar para conseguir, mas já ajuda conhecer alguém que conhece alguém e por aí vai – por isso é importante o escritor cultivar uma rede de contatos dentro de seu ramo, exatamente como os publicitários fazem. Sei que é difícil publicar literatura fantástica no Brasil, mais ainda quando se é um autor pouco conhecido. Mas também sei que esse discurso se desgasta, pois o panorama está se transformando aos poucos e mais editoras estão passando a prestar atenção a esse nicho. Hoje temos a Tarja, a Não-Editora, a Terracota, a Novo Século, entre outras, e o número de publicações tende a aumentar. Assim como a qualidade.
Agradeço imensamente ao pessoal da Ofício Editorial pela oportunidade de responder às suas questões e falar um pouco sobre o que faço. Aproveito para parabenizá-los pela dedicação e pelo alto nível do seu trabalho no site. Valeu, pessoal!
Nosferatu

Mila F.
Nós que agradecemos. E aproveitamos para informar que quem quiser conversar com a Camila ou adquirir os livros com seus contos pode escrever para: camilailustradora@gmail.com, ou entrar no site da Tarja Editorial (Tarja Livros) www.tarjalivros.com.br